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Com Redata e “bolsos pesados” de BlackRock e Nvidia, Odata mira nova escala de data centers no Brasil

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Foram mais de dois anos de reviravoltas e idas e vindas em Brasília até que o Redata, programa do governo federal de incentivos fiscais para estimular a importação de equipamentos essenciais para o setor de data centers ganhou status de lei em meados de setembro.

Esse capítulo não significa o ponto final das demandas do setor, mas sugere um novo script para empresas como a brasileira Odata, um dos principais players no segmento de data centers no mercado local, ao lado de nomes como Ascenty e Scala.

Com uma capacidade de 2 gigawatts distribuída em 25 operações no México, Chile, Colômbia e Brasil, a Odata viu parte dos seus projetos serem congelados durante essa saga. Agora, enxerga um contexto muito mais favorável para recuperar o terreno perdido.

“Estamos superinvestidos no Brasil. Nós nunca deixamos de apostar aqui”, diz Ricardo Alário, CEO da Odata, em entrevista ao NeoFeed. “Agora, está na hora de escoar essa produção que preparamos. O que precisa acontecer é a bola começar a girar”.

Embora ressalte que ainda a passos a serem dados em termos de isenções tributárias, o executivo destaca como a aprovação do Redata pode começar a mudar esse jogo. E as projeções são de um avanço significativo. “A minha expectativa é que, se íamos crescer 20% ao ano, que isso se multiplique por três com o Redata”, diz ele.

Na trilha dessas projeções, ele ressalta que os investimentos em data centers já estão refletindo a demanda gerada pela inteligência artificial (IA), que exigem projetos mais robustos e, claro, cheques mais polpudos.

Nesse cenário, a Odata ganhou o reforço de bolsos pesados recentemente. Há pouco menos de um ano, a americana Aligned Data Centers, que controlava a companhia desde 2023, quando comprou a operação do Patria Investimentos, foi adquirida pela AI Infrastructure Partnership (AIP).

Alguns nomes por trás da AIP e da transação avaliada em US$ 40 bilhões dão um bom indicativo de como a transação pode mudar os ponteiros para a Odata. Entre eles, BlackRock, Nvidia, Microsoft e MGX, empresa de investimento apoiada pelo governo de Abu Dhabi.

“Hoje, estamos falando de projetos que nascem com US$ 1 bilhão. É para onde o mercado está indo”, afirma o CEO. “Então, você começa a restringir quem consegue entregar isso. E ter nomes como BlackRock e MGX nos coloca numa posição muito favorável”.

Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Como a aprovação do Redata abre novas perspectivas para as empresas de data centers?
Primeiro, temos que festejar. Foram dois anos e meio desde a primeira conversa e, nesse período, muitos clientes se afastaram do Brasil. É um novo momento, sem dúvida nenhuma. Nós demos o primeiro passo e já ajuda, mas ainda tem muitos outros.

Quais são esses outros passos?
A bola da vez agora são os governos estaduais. Estamos trabalhando junto ao Confaz para ver se conseguimos ter outras isenções de impostos, principalmente, o ICMS, que é o maior deles. E qualquer isenção tributária é um cabo de guerra muito grande.

Hoje, quanto pesa essa carga tributária?
Sem o Redata, que ainda precisa ser regulamentado, nós tínhamos a GPU mais cara do mundo, que podia variar entre 40% a 80% a mais. Hoje, o custo dos equipamentos é muito maior do que o custo de construir um data center. Não se consegue justificar. Então, você acaba criando capacidade para consumo local. Os clientes aqui seguem crescendo. Mas entre escolher um país para processar e exportar dados, o Brasil nunca teve esse caso. Se você tira essa barreira, nós passamos a figurar entre os melhores países do mundo.

E como isso se traduziria em números?
A minha expectativa é que, se íamos crescer 20% ao ano, com uma capacidade de 200, 300 megawatts, que isso se multiplique por três com o Redata. Foi essa curva que apresentamos para o governo. Hoje, entre capacidades instaladas e sendo construídas, o Brasil tem cerca de 1 gigawatt. E, com essa questão tributária, em um cenário bastante razoável, acho que conseguimos chegar a 5 gigawatts em cinco anos.

“Hoje, o Brasil tem cerca de 1 gigawatt. E, com essa questão tributária, em um cenário bastante razoável, acho que conseguimos chegar a 5 gigawatts em cinco anos”

Não é um número muito ambicioso?
Sim, é ambicioso, mas temos um mercado financeiro evoluído, os bancos locais ajudam a financiar, temos infraestrutura energética, um mercado livre de energia que pode fazer contrato novo, enfim, uma série de questões que nos ajudam nesse roteiro.

E o que o setor vai buscar além dessas isenções tributárias adicionais?
A segunda questão é a segurança jurídica. Muitas empresas, principalmente as big techs, têm receio porque sabem que muitas vezes a regra do jogo muda. O Brasil tem que tomar cuidado, pois sempre que o país vira a bola da vez, todo mundo quer legislar.

Em que sentido?
Todos os órgãos querem controlar ou dar palpite. Então, precisamos ter um pouco menos de regulação e deixar a indústria crescer, claro, com muita responsabilidade. Não é abraçar simplesmente e deixar fazer. É preciso ter regras, assim como o Redata, que tem regras, mas que são absolutamente razoáveis.

Esses palpites de diversos atores também transformaram a aprovação do Redata numa saga?
Como tudo em Brasília, não foi um caminho de A a Z. Você volta, entra, sai, é uma questão política. Fomos para lá e eles não sabiam o que fazíamos. Eles não conheciam Odata, Scala e Ascenty. Ninguém nunca tinha ouvido falar dessas empresas. Chegamos e dissemos: só as três aqui já investiram mais de US$ 5 bilhões no País. E os nossos clientes investiram outros US$ 10 bilhões. Mas todo mundo trabalhou muito. As associações, as empresas, os clientes e também no Ministério da Fazenda. Tivemos excelentes interlocutores lá. Foi um trabalho a cinquenta mãos.

“Fomos para lá [Brasília] e eles não sabiam o que fazíamos. Chegamos e dissemos: só as três aqui já investiram mais de US$ 5 bilhões no País”

O quanto essa espera prejudicou o mercado?
Muito, pois 2025 foi péssimo. No começo do ano, o então ministro Fernando Haddad fez um evento em Palo Alto com as empresas e todos os nossos clientes. E falou, por A mais B, que ia enviar o Redata para o congresso e que, em 45 dias, ia estar aprovado. Então, se criou muita ansiedade. Você não só vendeu que viria a lei, mas que era iminente. E se a Apple diz que vai soltar o iPhone 18, ninguém compra o iPhone 17. Todo mundo vai esperar para comprar o mais novo. Então, o mercado congelou. Todo mundo sofreu.

Mas a Odata chegou a perder projetos por conta dessa demora?
Sim, perdemos. Tivemos clientes de fora que estavam olhando o Brasil e fizeram o processo inteiro. Eles colocaram no modo de espera depois de olharem a questão tributária, pois viam que não tinha um business case. Disseram que tinham demanda e operações no Brasil, mas que não iam colocar seus data centers aqui, porque não fazia sentido. Era mais fácil comprar a capacidade de algum outro lugar.

A Odata chegou a migrar projetos para outros países?
Não, o que aconteceu é que como tínhamos uma operação muito redonda no México e eles não têm essa questão tributária tão grande e os americanos veem o país como nearshore, acabamos pegando demandas dos Estados Unidos, de inteligência artificial (IA). Então, o México cresceu muito em 2025, tanto que, marginalmente, até passou o Brasil. Mas acho que isso é só a foto, não o filme. O Brasil tem capacidade de ser maior.

Na sequência desse filme, o ano de 2026 tem sido melhor?
Estamos vendo mais interesse, mas o nosso processo de venda é muito longo. Nós brincamos que cada transação dessa é quase um M&A. São contratos de bilhões de dólares. Então, demora 7, 8, 9 meses.

“Estamos falando de projetos que nascem com US$ 1 bilhão. É para onde o mercado está indo. Então, você começa a restringir quem consegue entregar isso”

Em paralelo a esse contexto mais desafiador, como a Odata se preparou para esse novo ciclo, a princípio, mais favorável de agora?
Nós nunca chegamos a represar projetos. Nosso negócio passa por todo um processo de investimento antes de irmos ao mercado vender nossos data centers. Na verdade, com ou sem Redata, sempre acreditamos que haveria um crescimento e que ele já seria significativo. Então, estamos super investidos no Brasil. Nós nunca deixamos de apostar aqui e fizemos o que sempre fazemos em todos os países.

O quê?
Nós compramos terrenos. Estamos “long” em land power bank no Brasil, como quase ninguém. Para conseguir entregar uma capacidade para o meu cliente numa janela de 16, 18 meses, preciso comprar e licenciar o terreno, ter um acordo de conexão com a distribuidora aprovado no ONS (Operador Nacional do Setor Elétrico) e, em muitos casos, já começar a construir a infraestrutura elétrica e comprar transformadores, que, hoje por exemplo, estão demorando mais de 24 meses para serem entregues. Nos geradores, a fila já virou para 29 meses.

É muito tempo?
Eu tenho muito gerador no meu balanço. Então, vamos tirando o risco para poder entregar e temos capacidade para entregar muito mais do que estamos entregando. Só que isso demanda muito capital e balanço.

Nesse ponto, como a aquisição pelo AIP muda o jogo para a Odata?
Bastante, porque os projetos também mudaram muito, principalmente com a IA. Antes nós colocávamos 50, 60 megawatts e íamos crescendo. Hoje, já vemos demandas partindo de 100, 200 megawatts, o que exige ainda mais capital. Estamos falando de projetos que nascem com US$ 1 bilhão. É para onde o mercado está indo. Então, você começa a restringir quem consegue entregar isso. Vira um jogo quase que mais de mercado financeiro do que construir data center. E ter nomes como BlackRock e MGX nos coloca numa posição muito favorável. E nossos investidores estão muito animados. Agora, está na hora de começarmos a escoar essa produção que preparamos.

Vocês já retomaram as conversas que vinham mantendo no início do processo de aprovação do Redata?
Já vemos alguns clientes perguntando, mas ainda não retomamos nenhuma conversa comercial. Não deu tempo para isso. O que precisa acontecer agora é a bola começar a girar. Os clientes começarem a vir porque estamos com um custo total de propriedade muito mais interessante agora em relação ao mundo.

A Odata já tem um plano de investimentos diante desse novo cenário?
Nós acabamos de concluir o acordo com a AIP e estou nos EUA justamente para entender qual será esse próximo plano. Estamos com o papel e a caneta na mão aqui para desenhar como vão ser as duas empresas juntas nos próximos anos.

Mas além do que a Odata já tem dentro de casa, o que é possível falar de novos projetos?
Eu posso falar de geografias. Não estamos olhando para novas regiões porque já vemos muito crescimento onde já estamos e não vemos demanda dos nossos clientes para fora dessas localizações. Queremos fazer mais onde já estamos. E, nesse sentido, nossa Faria Lima dos data centers é a região de Campinas, Hortolândia, Sumaré, São Paulo, onde as empresas de tecnologia têm os seus prédios. Nossos clientes criam zonas de disponibilidade, com dois ou três data centers próximos, o que exige um aporte significativo em fibra, transmissão e conexão. Então, uma vez que você tem essa estrutura montada, o mais razoável é crescer no entorno dela.

Em termos de infraestrutura, a questão de energia não pode ser um gargalo para esse crescimento do mercado?
Às vezes, algo é pensado ou você tem sorte. Nesse caso, foram os dois. O Brasil tem um grid inteiro interligado, com uma regulamentação muito boa, e uma das energias mais limpas e relativamente baratas do mundo. Temos uma Arábia Saudita de energia renovável aqui. Vento e sol é muito difícil colocar num navio e exportar, mas você pode trazer os data centers para cá e exportar o dado processado. Ao mesmo tempo, temos problemas nesse grid, que são gerados por outras questões.

Quais?
O Brasil incentivou muito o crescimento da geração distribuída de energia renovável, o que foi uma ideia boa, mas criou um desbalanço absurdo. Então, você tem que trocar os incentivos e investir no grid. Mas são investimentos muito razoáveis de fazer. E a nossa estrutura elétrica é muito bem pensada.

Por quê?
Temos a Aneel, o ONS. Nos EUA você não tem isso. Então, eu tenho muito conforto em dizer que essa estrutura vai se ajustar. Mas é preciso tirar os benefícios da geração distribuída e colocar em baterias. Essa é a solução para as renováveis. Aí, tem uma briga do lobby, do gás contra o renovável, mas essa é uma questão política de qualquer país. Então, isso tem que ser resolvido, mas não vejo como um problema de longo prazo.

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