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STF, eleições e polarização: as cobranças de Fábio Barbosa à elite política e econômica do Brasil

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O empresário Fábio Barbosa, porta-voz da Coalizão pelo Voto Consciente e presidente do Conselho de Administração da Natura, diz que gosta de números e de gente. As afinidades o levaram a uma carreira executiva muito bem-sucedida e a abraçar também projetos que passam pelo fortalecimento da cidadania no Brasil.

Em 2022, por exemplo, foi signatário e articulador de um manifesto em prol da democracia, quando se vivia um ano barulhento, com ataques às urnas eletrônicas e movimentações por uma intervenção militar, sob o governo Bolsonaro.

Neste ano, seu foco tem sido a transparência do Supremo Tribunal Federal (STF), que entrou em uma crise inédita pelas relações suspeitas de ministros com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do banco Master. Em dezembro passado, assinou um manifesto por um Código de Conduta para a Corte. Em setembro, ajudou a articular o manifesto Pela Lei e pelo Brasil, que cobrou transparência do STF para julgar seus integrantes.

Para ele, o brasileiro entendeu seu papel como consumidor desde que as leis em torno das relações de consumo foram instituídas no país nos anos 1990. No campo da cidadania, porém, falta uma “revolução de valores”. Para isso, tem invocado um conceito tão simples quanto complexo para um Brasil machucado pela crise em suas instituições: dar certo, fazendo a coisa certa, do jeito certo.

Mas como incentivar os brasileiros a seguirem o seu conselho se o noticiário mostra que pessoas em posição de poder estariam vivendo práticas pouco republicanas?

“O país nada mais é do que a somatória das nossas ações e das nossas omissões. Com nossas atitudes, fazemos do país o que ele é”, afirma Barbosa.

A Coalizão pelo Voto Consciente, que reúne 14 organizações da sociedade civil, como Instituto Ethos, RenovaBR, Centro de Liderança Pública (CLP), Transparência Internacional Brasil, Comunitas e Livre, lançou, recentemente, a plataforma TemMeuVoto, para aproximar candidatos e eleitores para darem um ‘match’ de interesses e ajudar na escolha dos nomes ao Congresso que serão eleitos no dia 3 de outubro.

Aos 72 anos, Barbosa diz-se um homem de orientação econômica mais à direita, “mas tenho essa preocupação social no centro da minha vida”. Refuta a armadilha da polarização que divide as pessoas entre o bem e o mal. Seu norte agora é colocar a ética no debate nacional.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista que você assiste na íntegra no vídeo acima.

Reforma de valores

“Eu defendo muito essa ideia de que a gente tolera e comete pequenos delitos e depois aponta para Brasília como se o problema estivesse lá. O problema está no nosso dia a dia. Por tolerarmos e cometermos pequenos delitos, como se isso fosse natural. Eu acho que as pessoas precisam fazer no seu dia a dia aquilo que elas querem que aconteça no país.

Se cada um varrer a sua calçada, o país fica limpo. Vamos fazer a coisa corretamente. Sem essa história de andar no acostamento, nem de tentar não pagar impostos, ou de conseguir alguma vantagem sem o esforço necessário. O país nada mais é do que a somatória das nossas ações e das nossas omissões.

“Se cada um varrer a sua calçada, o país fica limpo. Vamos fazer a coisa corretamente. Sem essa história de andar no acostamento, nem de tentar não pagar impostos”

Vamos parar com atalhos? Com o jeitinho? O caminho é duro e tem que ser dentro das regras do jogo. E eu fico satisfeito quando vejo que os jovens, em geral, estão muito atentos a isso.

Há pessoas que acham que ou você transige ou você não consegue chegar aonde você quer. E eu acho que isso não é verdade. Eu acho que há muitos exemplos, a maioria, na verdade, de pessoas que se comportam corretamente, fazem as coisas corretamente, seguem as normas, seguem os bons modos e, mesmo assim, conseguem evoluir.”

Exemplo não deveria vir de cima?

“O exemplo deveria vir de cima. A gente carece de líderes inspiradores com relação a essa questão de valores e comportamento ético. Mas isso não é desculpa para a gente achar que está tudo bem no dia a dia [transigir]. É malandragem cumprir a lei só se houver fiscalização. Por isso, nós temos que pensar em quem nós vamos votar, seja no Executivo, seja no Legislativo, em quem nos representa adequadamente com os valores que a gente quer ver presentes nessas discussões.”

Tinder do voto e o Congresso

“A gente precisa se fazer representar adequadamente no Congresso. Para isso, criou-se a democracia representativa. Nós estamos, com essa plataforma do Voto Consciente, perguntando aos candidatos o que eles pensam a respeito de determinados assuntos.

O eleitor, então, vê se faz um ‘match’. A tecnologia permite isso. Você tem que votar em alguém que pensa nas coisas que você pensa, inclusive valores. Para que aquela pessoa o represente, quando vir uma discussão sobre segurança pública, ela seja mais radical, menos radical, mas ela pense mais ou menos como você pensa.

“Você tem que votar em alguém que pensa nas coisas que você pensa, inclusive valores. Para que aquela pessoa o represente”

Quando chegar perto da eleição, faremos uma campanha forte. Ninguém está pensando no Legislativo; eu já estou até achando que, infelizmente, nem na eleição presidencial. Agora só se fala sobre o Supremo Tribunal Federal, que tirou o foco de debates e de propostas. Estamos basicamente com a acusação de um contra o outro [candidato] e do outro contra um.

Não há uma proposta clara, nem debates. Tudo muito vago. Ninguém é contra a cura do câncer e ninguém é contra a redução da desigualdade, nem contra o bom gerenciamento para que o Brasil seja mais eficiente nos seus gastos. A questão é: como fazer isso?”

Manifesto Pela Lei e pelo Brasil e o STF

“Tenho discutido muito o conceito de que a sociedade não está apática. A sociedade está indignada, quase revoltada, sem saber como expressar isso. É bem diferente de estar apática. É um terreno fértil para que alguém catalise essa energia. Mas tudo dentro dos canais existentes, para não jogar o bebê junto com a água.

Nós tentamos, no caso do manifesto, defender a transparência acima de tudo. Eu não sou jurista, não tenho a menor capacidade de dizer se o processo tem que ser da forma A, B, se tem que ser [um julgamento] junto [dos ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça] ou separado. Nós queremos uma sociedade de luz acesa. Acenda a luz e mostre o que está acontecendo.

“Nós tentamos, no caso do manifesto, defender a transparência acima de tudo (…) Nós queremos uma sociedade de luz acesa. Acenda a luz e mostre o que está acontecendo”

Nós conseguimos. A sociedade conseguiu, a imprensa conseguiu pressionar. Tivemos uma sessão, a sessão foi televisionada e expôs para toda a nação aquilo que acontece nos bastidores. Veio à tona. A gente viu desmandos, viu coisas que nos deixaram revoltados, decepcionados, animados. Não tenho nenhum julgamento com relação a ninguém. Mas, em transparência, evoluímos em relação a isso.”

Código de Conduta

“Em dezembro do ano passado, nós fizemos um manifesto buscando um Código de Conduta. A gente quer que o Supremo também tenha uma suprema condição de transparência, honestidade, integridade. Infelizmente, não caminhou. Mas continuamos pressionando por isso. Você tem que voltar a ver a questão do voto monocrático, o mandato, a idade mínima, máxima… Como serão as indicações [de ministros]?

São medidas que têm de transformar o Supremo numa instituição mais ágil e mais transparente para a sociedade. Ter tido aquela sessão, por horrorosa que tenha sido… é ruim, mas é bom. Quem fez atos impróprios deveria passar por um processo, ser julgado e, se for culpado, condenado.”

Estado versus setor privado

“Há 300 anos se discute isso: o papel do Estado na busca de uma sociedade mais equilibrada. Considerando que o Estado brasileiro não tem mais condições de fazer os investimentos necessários, fica até mais fácil dizer: ‘Olha, nós precisamos fazer acordos com o setor privado para endereçar alguns problemas.’

O próprio PT, nessa gestão no BNDES, fez muitas concessões: de estradas, de portos e de aeroportos. Porque entenderam que não há capacidade do Estado. Acho que a gente vai precisar fazer mais. Um dos grandes avanços que tivemos no Brasil nos últimos anos foi o marco regulatório do saneamento básico.

“Como a gente cria uma sociedade menos desigual, com mais oportunidades para as pessoas e dando a todo mundo uma vida digna? Talvez seja o maior problema a ser endereçado”

Essa discussão é importante e existe um espaço para o setor privado buscar essa sociedade, na qual a gente pode reduzir a desigualdade, dar melhores condições de dignidade para todas as pessoas. Não gosto quando fica o monopólio de querer o bem social em um dos lados [políticos], porque daí se torna um lado de gente do bem e o outro lado, gente do mal.

O ponto é: como a gente cria uma sociedade menos desigual, com mais oportunidades para as pessoas e dando a todo mundo uma vida digna? Talvez seja o maior problema a ser endereçado.”

Desordem geopolítica

“A desordem mundial está criada e não foi por nós, até porque nem competência para isso teríamos, dado o papel que o Brasil tem dentro da economia mundial. A economia mundial está bagunçada porque há guerra no Irã, há problema em Israel, na Ucrânia. Há problema com a China, no Estreito de Ormuz, na Venezuela.

Concordo quando o presidente Lula fala que a gente está sendo impactado por isso, mas não fomos nós que fizemos. Mas o fato é que o petróleo está a US$ 100. E como a gente lida com isso? Sei que são problemas, impactos com os quais a gente tem que viver. Hoje temos um preço do petróleo elevado, dificuldade de importação de fertilizantes — o que para nós é fundamental — e um diesel com preço muito alto.”

Ingerência externa nas eleições

“Todos queremos que as eleições no Brasil ocorram normalmente, dentro de uma transparência. Hoje a imprensa fala o que quer e o que não quer. Não há o presidente dizendo que aqui no Palácio do Planalto não vai poder entrar determinada rede de televisão, como aconteceu em outro país [Trump proibiu três emissoras de transmitir suas coletivas].

A gente não tem isso. O presidente é criticado, os candidatos são criticados. Mas aí há uma imprensa livre, que reflete essa sociedade indignada a que me referi.”

Terras raras

“Acho que há um grau de desinformação sobre o que são terras raras e o que significa processar terras raras até chegar ao tal do ímã, que é uma tecnologia da qual a gente tem vagamente ideia de como pode chegar lá, com investimentos bilionários. Isso me faz lembrar um pouquinho (a campanha) ‘O petróleo é nosso’, da época do Getúlio Vargas. O petróleo é nosso, petróleo é nosso, mas fica lá embaixo da terra. Se não fosse a abertura, como aconteceu para que outras empresas nos ajudassem a explorar o petróleo, teria ficado embaixo da terra e a gente, por meio de parcerias, conseguiu.

“A gente precisa melhorar a qualidade de vida dos brasileiros. Bravatas não vão resolver. Ceder tudo também não vai resolver. Negociações nas quais se busca aquilo que é melhor para o Brasil são o melhor caminho”

Terras raras são um pouco isso também. É um investimento gigantesco para separar os tais 17 ou 18 componentes que estão lá. E depois isso é só uma parte. Acho que esse assunto, infelizmente, ficou muito politizado. Mas eu acho que o papel de um governo é defender os interesses do povo brasileiro. E, ao defender esse interesse, a gente tem uma tradição de estar conectado com todos os países do mundo. A dificuldade é enorme agora, em função de determinado país que acabou causando um desarranjo.

Mas o fato é que o Brasil se relaciona com todos os países do mundo. A gente precisa melhorar a qualidade de vida dos brasileiros. Bravatas não vão resolver. Ceder tudo também não vai resolver. Negociações nas quais se busca aquilo que é melhor para o Brasil são o melhor caminho. Eu acho que um pouco mais de informação e de luz sobre o assunto ajudam a resolver.”

Democracia em xeque?

“Acho que essa carta está sendo colocada na mesa com o objetivo de despertar em parte da população um receio que pode levar a um alinhamento com um determinado candidato. Eu não acho que a situação no Brasil hoje permita que algo assim possa acontecer. Também não aconteceu em 2022, nem em 2023. Houve uma tentativa, foi devidamente julgada. O que mostra que as nossas instituições são mais fortes do que a gente gostaria de acreditar.

Eu assinei um manifesto [pela democracia em 2022], entendendo que havia alguma coisa estranha no ar. Hoje eu não vejo necessidade de um manifesto como esse. Não é um assunto que está na minha pauta.”

Prioridades brasileiras

“O presidente da República é como um síndico do país. Há gente que quer mais dinheiro em segurança, outro quer mais dinheiro para distribuir, outro quer investir em terras raras, e outro quer parar de explorar petróleo. É uma loucura. Como executivo, eu acho que tem de ter metas: de crescimento econômico com redução da desigualdade. Costumo dizer que o Brasil não andou para trás na economia, mas ficou para trás. Ele andou para trás nas instituições, mas na economia, não.

“Seria a minha meta: redução do índice de desigualdade, crescimento da renda, do salário em dois anos”

É preciso pavimentar o caminho para que o setor privado, sob o balizamento do governo, que exige contratos de concessão e tudo mais, dê o espaço para que ele possa se desenvolver, e que a gente tenha inclusão social. Seria a minha meta: redução do índice de desigualdade, crescimento da renda, do salário em dois anos.

Eu acho que [este governo] fez muito, mas tem que fazer mais. Eu acho que na tese do governo, como é explicitada por alguns assessores econômicos do próprio presidente Lula, o Estado, em país pobre, tem que gastar mais. Se isso é verdade, por que o Haiti, o Congo ou a Índia não resolvem o problema da pobreza nos seus respectivos países com os governos gastando mais? Talvez porque seja mais complexo do que isso.

Nada contra programas sociais. O meu ponto é que o governo precisa liberar mais o capital, ver como, com os juros mais baixos, o setor privado pode fazer, dentro de regras, de parcerias estabelecidas, aquilo que é necessário para que o país possa voltar a crescer. Esse debate está faltando.

O fato é que o governo gastou mais, o Banco Central manteve os juros elevados, e isso acabou travando a economia, com gente endividada.”



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