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Para Tereos, mercado de etanol exige “trabalho pedagógico”

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A desconfiança em relação ao etanol no Brasil de 2026 lembra — e muito — a situação dos biocombustíveis na França há quinze anos, segundo Kristell Guizouarn, agrônoma e diretora global de sustentabilidade do Grupo Tereos.

“As pessoas diziam ‘ah, vai quebrar nossos motores’, ‘vai ter um impacto negativo’. Isso ficou para trás na Europa. O trabalho que foi feito ao longo dos anos mostra que não houve problemas técnicos [nos carros]. Acho que precisamos fazer um trabalho pedagógico para explicar”, afirmou, em entrevista ao The AgriBiz.

O Brasil tem hoje 85% da sua frota formada por veículos flex, mas tem enfrentado barreiras para fazer o uso do etanol crescer. Recentemente, mesmo os preços competitivos do biocombustível não têm feito a demanda reagir. Sob uma ótica estrutural, metade dos veículos flex locados no País voltam com o tanque cheio de gasolina.

Nos argumentos capazes de defender o etanol para o consumidor, estão a importância do biocombustível para a descarbonização e o fato de ser uma alternativa relevante ao combustível fóssil — e um pilar, em outras palavras, para lidar com as mudanças climáticas.

Na França, esses argumentos vieram de diferentes lados, incluindo as próprias fabricantes de automóveis. O ponto é, no final das contas, sair de uma discussão técnica — sem ignorar as respostas que precisam ser dadas nesse sentido — mas reforçar aos consumidores os benefícios de sustentabilidade que o biocombustível traz.

“Hoje, usamos E85 [gasolina com 85% de etanol] em algumas regiões da França. As pessoas que usam esse combustível fazem isso porque consideram que ele tem um grande impacto ambiental. Elas têm muito orgulho”, diz a executiva.

A Tereos é, hoje, a principal produtora de etanol na França, a segunda na Europa e uma das maiores no Brasil.

Contar com a boa vontade do consumidor é um ponto importante para crescer ao longo do tempo, mas não é só nisso que a Tereos está focada. Em outras palavras, o tom é o de que não basta produzir etanol, há que se fazê-lo de forma a minimizar cada vez mais as emissões de CO2.

Na Europa, essa tarefa é urgente e vem impulsionada pela RED III (sigla para Diretriz de Energias Renováveis), a terceira revisão da União Europeia que define regras e metas para o uso de energia renovável.

Nessa revisão, entre outros temas, vai entrar em vigor uma espécie de bônus para quem conseguir produzir biocombustíveis com uma menor pegada de carbono — um ponto em que a Tereos está de olho.

A descarbonização na Tereos

A empresa trabalha pelo menos desde 2022 em uma série de metas de descarbonização tanto na parte de agricultura como na parte industrial de suas operações, não só na Europa, mas com um olhar global. Alguns avanços já podem ser medidos.

Em 2022, a meta estabelecida era reduzir em 32% as emissões de gases de efeito estufa nas operações agroindustriais até 2032. A redução já alcançada até a safra 2025/26 foi de 24%. Nas operações agroindustriais, a meta é chegar a uma redução de 50% — a empresa já chegou a 17%.

Nas operações agrícolas, a Tereos adota estratégias distintas no Brasil e na França, pelas próprias características de operação. Aqui, a empresa faz o plantio em 170 mil hectares de terras próprias, por exemplo (além de comprar outros 122 mil hectares de parceiros), enquanto na Europa só existe a compra de outros produtores.

Globalmente, a cooperativa reúne 10 mil agricultores associados, a maioria é formada por produtores franceses de beterraba (de onde é extraído o açúcar na região).

Por lá, a cooperativa implantou medidas como um programa voluntário de agricultura regenerativa (em que 10% dos associados já aderiram), com um acompanhamento por cinco anos e apoio técnico e financeiro.

“Na Europa, nós também pagamos um prêmio aos agricultores que estejam comprometidos a melhorar suas práticas de manejo para reduzir emissões e que consigam melhorar seus indicadores”, completa a executiva.

No Brasil, ainda não há o pagamento de um prêmio por redução de emissões, mas a empresa vem explorando alternativas para se descarbonizar.

Segundo Felipe Mendes, diretor de sustentabilidade da Tereos no Brasil, dois terços dos 300 mil hectares administrados pela empresa têm algum tipo de prática regenerativa, além de 75% da área usar vinhaça como fertilizante, com a meta de chegar a 85% até 2030. Isso sem falar na seleção de melhores variedades de cana e no uso de bioinsumos, que alcançou metade das áreas no País.

Esse conjunto trouxe resultados mensuráveis para a operação brasileira. “Foi uma curva de aprendizado que se pagou. Se voltarmos a 2021/22, nós perdemos 25% da nossa produção naquela safra. No ano passado, mesmo com uma seca muito forte, a perda foi de 10%”, conta Mendes.

Isso não significa que não exista troca de conhecimento entre as regiões. Na Indonésia, por exemplo, a companhia começou a comprar milho para processá-lo na produção de amidos e adoçantes — e a lição para verificar a sustentabilidade desse milho veio justamente do Brasil, com a adaptação de um monitoramento feito pela startup Agrotools.

Geração de valor

O foco é, no fim das contas, gerar mais valor para o etanol. Além do prêmio por redução de CO2, a Europa já tem uma meta de uso de SAF, que deve representar 6% do combustível de aviação até 2030.

Embora não exista uma previsão específica para a forma como isso será produzido a partir do etanol, a Tereos está focada em se posicionar no alcohol-to-jet. Em junho, a empresa firmou uma joint-venture com Airbus, Safran e Technip, com o objetivo de produzir 160 mil toneladas de SAF até 2030.

“Sabemos que na Europa haverá cada vez mais eletrificação no transporte rodoviário, mas teremos biocombustíveis disponíveis. Então, como vamos preparar a próxima geração de valor para esse etanol? Consideramos que o SAF é uma boa maneira de fazer isso, e estudamos essa possibilidade [de produzir SAF] também em outras regiões”, diz Guizouarn.



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