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autoconhecimento virou a chave do ultra-atleta Pepe Fiamoncini

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A saída da “gaiola” doméstica após o isolamento social da pandemia foi o que impulsionou Pepe Fiamoncini, 35, a trocar planilhas corporativas por recordes mundiais de resistência física.

O ex-administrador, que hoje acumula feitos registrados no Guinness Book em condições que vão do calor extremo da Bolívia ao frio congelante dos Estados Unidos, defende que a chave para performances que parecem coisa de “super-herói” não está apenas nos músculos, mas em um nível de consciência que só anos de experiência são capazes de moldar.

“O ser humano consegue superar qualquer desafio através do autoconhecimento”, afirma Fiamoncini em entrevista ao InfoMoney.

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Da mesa de escritório às ultramaratonas

Nascido em São Paulo, formado em administração e contabilidade, Pepe trilhou o caminho tradicional: mercado corporativo, mudança para o Rio de Janeiro e carreira em escritório. Isso começou a mudar quando ele decidiu se aproximar de atividades ao ar livre e passar menos tempo entre quatro paredes.

A virada definitiva veio com a pandemia de Covid-19. De volta a São Paulo, ele viu a rotina ativa desmoronar. “Eu me via como um passarinho voando, batendo asa por aí, e me vi de novo numa gaiola”, relembra.

Pepe Fiamoncini/Arquivo pessoal

Depois de meses em inércia e retorno rápido ao sedentarismo, decidiu que precisava reagir. Foi então que tomou uma decisão radical: se inscrever para um Ironman, mesmo sem preparo físico.

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Sem acesso a academias ou equipamentos, improvisou os treinos em casa com elásticos de fisioterapia, o sofá e até o extintor do prédio como peso. “Isso não foi um ganho de performance, mas foi um ganho mental, psicológico, para sair da inércia”, diz.

Descobrindo onde está o “limite”

Em apenas oito meses, Pepe saiu do sedentarismo para completar uma das provas mais difíceis do triatlo: o Ironman — 3,8 quilômetros de natação, 180 quilômetros de ciclismo e 42 quilômetros de corrida. Até então, acreditava que ali estava o teto da capacidade humana.

“Eu achava que uma maratona era o auge da capacidade humana”, conta. “Aí eu fiz um Ironman e pensei: ‘E agora?’.”

A resposta apareceu na forma de um desafio ainda mais extremo: o Ultraman, prova de endurance disputada em três dias, com 10 quilômetros de natação, 421 quilômetros de ciclismo e 84 quilômetros de corrida.

“Quem é o super-herói que faz isso?”, lembra ter pensado ao conhecer a prova.

Meses depois, estava nos Estados Unidos largando em um Ultraman — e terminando entre os primeiros colocados. “Até que eu fui e consegui fazer a mesma coisa. Então eu me tornei o meu super-herói”, afirma.

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A partir dali, passou a buscar desafios cada vez mais extremos: pedais de centenas de quilômetros sem pausas significativas, provas em ambientes hostis, em que resistência física e sobrevivência andam juntas.

Pepe Fiamoncini/Arquivo pessoal

Em uma ultramaratona em Minnesota, nos EUA, encarou temperaturas próximas de -40 °C puxando um trenó por mais de 200 quilômetros na neve. “Eu fiquei sozinho praticamente 40 horas, sem falar com ninguém, sem ouvir nenhum outro tipo de som. Era só eu e o meu trenó”, conta.

Uma das poucas vezes em que pensou em desistir foi na travessia aquática do Leme ao Pontal, no Rio de Janeiro. Mesmo preparado, sofreu uma lesão no ombro no meio do percurso. “Foi a primeira vez que eu chorei embaixo d’água”, lembra. “Eu chorava de gritar, de dor.”

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Em 2023, Pepe entrou para o Guinness ao atravessar o Salar de Uyuni, na Bolívia, em pouco mais de 33 horas: 170 quilômetros a mais de 3.600 metros de altitude, enfrentando calor intenso durante o dia e temperaturas negativas na madrugada.

Corpo forte, cabeça mais ainda

Diante de tantas histórias, é fácil imaginar que tudo se resume a condicionamento físico. Pepe insiste que não: para ele, o verdadeiro diferencial está na mente.

Ao longo dos anos, aprendeu a ler os sinais do próprio corpo para completar desafios sem ultrapassar limites perigosos. “Todo treino que eu faço é um momento de perceber o meu corpo”, explica. “Eu fui aguçando a minha percepção e isso foi gerando um autoconhecimento muito grande.”

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Na avaliação dele, a rotina acelerada faz com que muitas pessoas ignorem até necessidades básicas do organismo. “A gente está tão inundado por tanta coisa no dia a dia que não presta atenção”, diz. Foi durante os treinos, especialmente no pós-pandemia, que ele começou a desenvolver essa percepção de forma mais consciente.

No início, treinava sem relógio ou tecnologia de monitoramento para entender “no bruto” como o corpo reagia. “Eu perguntava: ‘Como foi o treino hoje? Como eu me senti?’.”

Mais tarde, passou a comparar essas sensações com dados de dispositivos que monitoram sono, recuperação e desgaste físico. Mesmo assim, mantém a hierarquia: primeiro a percepção, depois os números. “Eu quero me perceber para depois validar com os dados que ele me apresenta”, afirma.

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Pepe também transformou os treinos em uma espécie de meditação em movimento. Evita correr ouvindo música para manter a atenção voltada ao corpo, à respiração e às sensações físicas. Mais recentemente, passou a praticar mindfulness com acompanhamento profissional.

Recordes, rotina e “pequenas vitórias”

No ano passado, Pepe percorreu mais de 110 quilômetros em 12 horas em uma esteira manual, sem eletricidade, em São Paulo, quebrando um recorde mundial. Depois, voltou a superar marcas ao completar 188 quilômetros em 24 horas correndo sem parar em uma esteira no Rio de Janeiro.

Apesar dos números impressionantes, ele garante que a motivação não está apenas nos recordes, mas na construção diária de hábitos. Para o ultramaratonista, sonhos precisam ser tratados como compromissos.

“Eu levo meus objetivos como sonhos, não como simplesmente ‘quero perder peso para ficar bonito’”, afirma. “É algo que me desafia a sair do conforto.”

Próxima parada: Everest

O próximo objetivo de Pepe é escalar o Monte Everest sem oxigênio suplementar — algo que nenhum brasileiro realizou até hoje. Ele diz que o projeto é o maior sonho da carreira e, ao mesmo tempo, o desafio mais complexo que já encarou.

Com mais de uma década de experiência em montanhismo e alta montanha, ele sabe que o Everest joga em outra categoria. Além do desgaste físico, a altitude reduz drasticamente a oferta de oxigênio para o corpo, tornando cada passo mais difícil.

“É um ambiente que eu não controlo”, reconhece. “Então eu estou super aberto a falar: ‘Não, se eu precisar voltar, eu vou voltar para preservar minha vida’. Eu amo viver.”

Para se preparar, ele vai intensificar treinos específicos nos próximos meses. A rotina inclui exercícios cardiovasculares, fortalecimento muscular e longas sessões em escadarias e máquinas de subida, com mochilas pesadas, para simular as condições da montanha.

“O meu grande sonho da vida é fazer isso”, resume. “Subir o Everest sem oxigênio, puro, só com treinamento e esforço físico.”



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