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Mercado de fertilizantes vive momento mais difícil em décadas

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A indústria de fertilizantes passa pelo momento mais delicado em, no mínimo, 25 anos. A avaliação é do country manager da Mosaic no Brasil, Eduardo Monteiro, que vê as condições no Brasil ainda mais difíceis. Além da alta nos preços dos insumos, o produtor precisa lidar com uma forte restrição de crédito e altas taxas de juros.

“Posso assegurar que toda essa situação de preço, rentabilidade do agricultor, acesso a crédito e taxa de juros tem o maior nível de complexidade para o nosso segmento em 25 anos”, disse Monteiro em entrevista ao The AgriBiz. E os reflexos devem ser sentidos em toda a cadeia, resultando em alta nos preços dos alimentos e até ameaças à segurança alimentar, acrescentou.

A comparação da situação atual com a de crise de 2022, quando a guerra entre Rússia e Ucrânia provocou uma disparada nos preços dos fertilizantes devido à relevância dos países no fornecimento global dos insumos, é inevitável. “A situação que vivemos hoje tem um nível de complexidade muito maior”, avalia Monteiro.

Em 2022, os agricultores estavam capitalizados e menos endividados, depois se terem sido beneficiados por elevados preços dos grãos. Hoje o cenário é o oposto: o produtor está bastante endividado, não há perspectiva de alta para os grãos e existe uma forte escassez de crédito, acompanhada de uma alta taxa de juros. Para piorar, 2026 começou com a guerra contra o Irã, o que tem resultado numa restrição na oferta de fertilizantes.

“Fazendo uma analogia ao conflito de 2022, em nenhum momento você teve os fluxos logísticos de fertilizantes interrompidos. E agora nós temos”, disse o executivo da Mosaic.

A região do conflito no Oriente Médio, especificamente o Estreito de Ormuz, que continua interrompido, corresponde por cerca de um terço do transporte das matérias-primas necessária para a produção de fertilizantes, como enxofre e ureia.

O impacto nos preços foi inevitável: os fertilizantes subiram entre 30% e 35% desde o início do conflito, segundo Monteiro.

Ao mesmo tempo, o preço da soja ao produtor ficou praticamente estável, com a valorização do real anulando os efeitos de uma leve recuperação dos preços na Bolsa de Chicago, em dólares. Resultado: a relação de troca entre os preços dos grãos e o de fertilizantes é uma das piores já vistas.

Segundo dados da Mosaic, atualmente são necessárias entre 32 e 33 sacas de soja para comprar 1 tonelada de fertilizantes. No ano passado, quando o cenário já era desafiador, a relação de troca foi de 25 sacas, em média. E em 2022, quando os preços de alguns nutrientes bateram recorde, essa relação ficou em 24 sacas de soja, em média. Ainda de acordo com a Mosaic, a relação de troca mais favorável ao agricultor é ao redor de 21 sacas de soja por tonelada de fertilizantes.

“A relação de troca está muito pior do que em anos anteriores, principalmente no fósforo. E o agricultor vai trabalhar com alternativas buscando minimizar o nível de aplicação”, disse Monteiro.

A preocupação é que os produtores não cortem o uso de nutrientes a ponto de reduzir a produtividade e, no extremo, causar um choque de oferta. “Isso pode impactar o custo e os preços dos alimentos.”

Mercado lento

Com os preços nas alturas, o ritmo de comercialização continua lento. Entre 45% e 50% do mercado de fertilizantes para a safra 2026/27 de soja continua em aberto, segundo Jeferson Souza, analista de inteligência de mercado da Agrinvest.

Considerando o mercado agrícola como um todo, não apenas o de soja, a Mosaic estima que as vendas de fertilizantes estão de 15 a 20 pontos percentuais abaixo do nível verificado no mesmo período do ano passado.

“E temos um ponto de interrogação importante: qual vai ser o tamanho desse mercado em 2026?”, questiona Monteiro. Em 2025, as entregas de fertilizantes bateram recorde no Brasil, em torno de 49 milhões de toneladas, número que certamente cairá neste ano. A dúvida é o tamanho da queda.

Com a postergação da decisão de compra por parte do agricultor, as indústrias de fertilizantes voltam a alertar os produtores sobre as dificuldades no transporte marítimo, o que pode causar atrasos nas entregas. Portanto, os agricultores que pretendem comprar fertilizantes devem se decidir assim que possível.

“A interrupção nos fluxos logísticos é materialmente relevante”, afirmou Monteiro, que compartilha outra preocupação: os estoques globais vêm caindo e parte deles não têm sido repostos.

O problema do enxofre

A disparada no preço do enxofre, matéria-prima usada na produção de fertilizantes fosfatados, levou a Mosaic a anunciar a venda de suas operações em Araxá (MG), onde produzia fosfatados e, para isso, precisava importar enxofre.

Desde o início da guerra no Irã, o enxofre subiu mais de 50%, tornando dramática uma situação que já vinha complicada desde 2022, ano em que ocorreu o primeiro choque de oferta da matéria-prima devido ao conflito envolvendo a Rússia, que era exportadora.

“O enxofre custava US$ 100 e agora é vendido a valores superiores a US$ 1 mil por tonelada”, disse o executivo, citando o comportamento dos preços nos últimos quatro anos.

Além da redução da oferta causada pelos conflitos bélicos, o aumento da demanda por enxofre para a produção de baterias para carros elétricos desequilibrou o mercado.

Nesse contexto, a Mosaic tem procurado apresentar aos produtores soluções biológicas para ajudá-los a compensar uma eventual queda nas aplicações de fósforo.

Monteiro também destacou que os organominerais, matéria orgânica que pode substituir parcialmente os fertilizantes convencionais, podem ter um aumento de demanda. A área de bioinsumos está no centro da estratégia da Mosaic para o Brasil. Na Agrishow, feira agrícola realizada em Ribeirão Preto (SP) nesta semana, a empresa anunciou o lançamento de um novo fertilizante mineral, o BioBlend, voltado a ganhos de produtividade em diferentes culturas, como soja, milho e cana-de-açúcar.



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