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Rodada de negócios fortalece o artesanato indígena no Alto Solimões | ASN N…

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Depois de percorrer comunidades indígenas, conhecer cadeias produtivas estruturadas no coração da floresta e ouvir quem transforma ancestralidade em sustento, a expedição liderada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Amazonas (Sebrae/AM) chegou a uma etapa decisiva: conectar essa produção a oportunidades concretas de negócio.

Em Benjamin Constant, no Alto Solimões, a rodada de negócios Encontro para Tecer Negócios reuniu, no último dia 22, associações indígenas, investidores, instituições parceiras, startups, influenciadores e representantes do Sebrae Nacional em uma agenda que posicionou o artesanato dos povos originários como um segmento econômico cada vez mais estruturado, com capacidade de expandir mercado e gerar mais renda para as comunidades.

Em apenas um dia, o encontro movimentou cerca de R$ 100 mil em negócios. O resultado vai além da venda imediata: investidores estabelecem contato direto com os produtores, abrem canais de negociação e ajudam a consolidar uma rede comercial que permanece ativa mesmo após o evento.

O nível de organização construído em torno dessa cadeia produtiva também chama atenção. O espaço contou com área de exposição, setor de embalagem, emissão de notas fiscais e suporte para processos financeiros e burocráticos. Uma estrutura comercial pensada para profissionalizar a venda sem descaracterizar a essência cultural de cada peça.

Foto: Runa Salatta

Participaram da rodada associações de Benjamin Constant, como a Associação das Mulheres Artesãs Ticuna de Bom Caminho (Amatu), a Associação de Mulheres Indígenas Ticunas (Amit), da comunidade Filadélfia, e artesãs da comunidade Porto Cordeirinho. De Tabatinga, estiveram presentes representantes da Associação dos Artesãos e Cultura Indígena de Umariaçu.

De Atalaia do Norte, participou a Associação de Artesãos da Aldeia Paraíso Etnia Matis (Aapematis). Também integraram o encontro coletivos do Vale do Javari reunidos no projeto Vale da Arte, com representantes dos povos Marubo, Matis, Kanamari e Mayuruna.

A diversidade produtiva reforçou um ponto central: não há competição entre culturas, há complementaridade. Cada povo carrega técnicas, símbolos, matérias-primas e características próprias, o que eleva o valor agregado do artesanato amazônico e fortalece Benjamin Constant como polo regional de articulação comercial do setor. Para o subsecretário municipal de Assuntos Estratégicos, Neon Solimões, a rodada consolida uma articulação construída nos últimos anos entre Prefeitura e Sebrae, dentro do programa Cidade Empreendedora, responsável por aproximar artesãos da região de compradores de diferentes partes do país.

Foto: Runa Salatta

“O encontro funciona como uma vitrine. Os investidores vêm, compram, levam para suas lojas e, quando percebem a boa saída dos produtos, voltam a procurar os artesãos. Isso cria uma relação comercial que continua muito além do evento”, destaca.

Segundo ele, edições anteriores já demonstraram a força econômica da iniciativa. Somados, dois encontros realizados no último ano movimentaram mais de R$ 200 mil, com expectativa de crescimento contínuo impulsionado pelas conexões comerciais geradas nesses espaços.

Para a gestora do Projeto de Artesanato do Sebrae Amazonas, Lilian Sílvia Simões, o resultado é reflexo de um trabalho técnico de base, desenvolvido diretamente com associações e comunidades.

Existe uma preparação anterior: regularização, qualificação, organização da produção, melhoria de acabamento, inovação e leitura de mercado. A rodada é quando toda essa construção encontra oportunidade real de negócio”, afirma.

Lilian Simões, gestora do Projeto de Artesanato do Sebrae/AM

A atuação articulada entre Sebrae, Prefeitura e instituições parceiras também ganhou reconhecimento. Na mesma data, o município de Benjamin Constant recebeu o Prêmio Sebrae Prefeitura Empreendedora, na categoria Gestão Inovadora, com o projeto Benjamin Constant Inovadora: Capital Semente e Feiras Indígenas, reconhecimento que evidencia a força de uma estratégia pública voltada à valorização da economia criativa e dos negócios originários da floresta.

O vice-prefeito João Vieira da Silva destaca que o apoio institucional tem sido decisivo para ampliar o alcance econômico do artesanato local.

“Existe um esforço conjunto para ampliar oportunidades aos artesãos, atrair investidores e abrir caminhos para que essa produção alcance novos mercados. Isso gera renda, fortalece as comunidades originárias e consolida Benjamin Constant como polo regional do artesanato indígena”, ressalta.

Ele também destaca que parte dos artesãos da região já acumula premiações, reconhecimento nacional e trajetória consolidada pela excelência do trabalho desenvolvido a partir dos saberes tradicionais.

Foto: Runa Salatta

A presença de investidores de outras partes do país reforçou essa percepção. Para o lojista Sérgio Marques, de São Paulo, que participou pela primeira vez da rodada, a experiência representa não apenas uma oportunidade comercial, mas também um aprendizado sobre um modelo de desenvolvimento baseado em troca justa.

“Quando se incentiva um comércio justo para os povos originários, cria-se uma alternativa real de renda, conservando cultura, tradição e a floresta. O que vemos aqui é desenvolvimento com sentido”, resume.

A agenda também ganhou alcance com a participação da influenciadora indígena amazonense, da etnia Kokama, Thaís Kokama, que acompanhou a expedição e ajudou a ampliar, nas redes sociais, a dimensão econômica, cultural e socioambiental da produção local.

A sociobioeconomia começa dentro dos nossos territórios. É de lá que saem produtos que carregam história, identidade e sustentabilidade. Dar visibilidade a esse trabalho é reconhecer quem produz valor a partir da própria cultura e de uma relação respeitosa com a natureza.

Thaís Kokama, influenciadora indígena

Com apoio da Prefeitura de Benjamin Constant, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), através da Inpactas, do Instituto Hera da Amazônia que, por meio do projeto Raízes que Embalam, contribuiu com embalagens que agregam valor à apresentação comercial dos produtos, além de startups incubadas na região e de uma rede crescente de parceiros, o Sebrae consolida no Alto Solimões um modelo de desenvolvimento baseado em organização produtiva, acesso a mercado e valorização do conhecimento tradicional.

No extremo da Amazônia, onde a floresta segue como fonte de matéria-prima, cultura e sustento, o empreendedorismo indígena mostra que tradição e negócio não caminham mais em lados opostos.



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