28.2 C
Marília
HomeAgronegócioFlorestas plantadas como estratégia para o etanol de milho

Florestas plantadas como estratégia para o etanol de milho

spot_img



O mundo convulsiona em crises que nos empurram para a busca urgente por novas fontes energéticas. De um lado, a emergência climática demanda soluções limpas, que reduzam as emissões de gases de efeito estufa na atmosfera. De outro, a eclosão de guerras pelo mundo, que desequilibra fluxos comerciais, mas sobretudo evidencia nossa disfuncional dependência de combustíveis fósseis.

Nesse contexto, o Brasil desponta como campo fértil para o desenvolvimento de novos caminhos com suas vantagens comparativas. O país já apresenta uma matriz energética majoritariamente renovável, a maior floresta tropical do mundo, 20% da biodiversidade global e 12% das reservas de água doce.

O país que tem levado ao mundo histórias de sucesso como a de nosso agro moderno, hoje responsável por ajudar a alimentar a população global, ou a exploração de petróleo em águas profundas, as boas experiências na área mineral, a Embraer, a WEG Motores e o setor de árvores cultivadas, entre muitas outras, avança em novas empreitadas que podem vir a suprir os gargalos mais recentemente evidenciados.

Um exemplo atual é o do avanço do etanol de milho, especialmente na região Centro-Oeste do país. Seu crescimento revela mais do que a expansão de uma nova fronteira de produção. Ele adiciona mais um elemento em nosso portfólio de energia limpa, que já conta com hidroeletricidade, energia solar, eólica, a produzida a partir de biomassa e etanol de cana. Apesar de ser uma indústria jovem, com menos de dez anos de existência no Brasil, já responde por quase 30% da produção nacional de etanol.

A produção do etanol de milho no país se destaca por uma série de diferenciais. Em grande medida, ocorre em sistema de rotação com a soja, o que aumenta a eficiência do uso da terra, contribui para a fertilidade do solo e eleva a produtividade agrícola. Esse arranjo, por si só, já afasta o tradicional dilema “food versus fuel”, ao evitar a competição direta com a produção de alimentos.

Além disso, o modelo é reforçado pela geração de coprodutos como o DDG — grãos secos de destilaria com alto teor proteico — amplamente utilizados na nutrição animal, o que amplia a oferta de insumos para a cadeia alimentar. O etanol, assim, deixa de ser um produto isolado e passa a integrar um sistema mais eficiente e circular, que combina produção de energia renovável, coprodutos de valor e, potencialmente, remoções de carbono. É a bioeconomia em prática.

Por fim, as usinas de etanol de milho demandam energia térmica intensiva e contínua e, no Brasil, essa energia vem sendo suprida em parte por biomassa proveniente do cultivo de eucalipto. Trata-se de uma diferença estrutural em relação a outros países, onde predomina o uso de gás natural.

Hoje, o setor brasileiro de árvores cultivadas, responsável por fornecer essa biomassa, planta em mais de 10,5 milhões de hectares no país, além de conservar outros 7 milhões de hectares de mata nativa. Essas árvores são plantadas, colhidas e replantadas exclusivamente para fins industriais, seguindo técnicas de manejo responsáveis e sustentáveis.

Entre elas, estão os chamados mosaicos florestais, que consistem em intercalar plantações de árvores com áreas de mata nativas, formando corredores ecológicos que ajudam a conservar o solo, os recursos hídricos e a biodiversidade. Trata-se de um setor que já demonstrou capacidade de integrar produção, sustentabilidade e inovação.

Algumas das empresas que produzem etanol de milho já possuem base florestal própria de dezenas de milhares de hectares para garantir a autossuficiência energética, apresentando assim uma pegada de carbono significativamente mais baixa, se traduzindo em maior demanda interna e revelando grande potencial de inserção internacional. Essa distinção tem implicações diretas sobre sua integridade.

Mas essa nova fronteira traz também um desafio conhecido. A demanda crescente por energia, sem base produtiva estruturada, pode trazer riscos ambientais. Antes do Código Florestal, grandes consumidores de biomassa operavam com pressão relevante sobre florestas nativas. Esse cenário começou a ser revertido com a adoção de instrumentos como o Plano de Suprimento Sustentável (PSS), que exige a vinculação do consumo de biomassa a uma base produtiva própria de reflorestamento ou contratada, induzindo a expansão de plantios dedicados e evitando o desmatamento.

No passado, a resposta àquele cenário foi decisiva. Ao longo das últimas décadas, a combinação entre regulação, tecnologia e investimento induziu a formação de uma base robusta de árvores plantadas. Setores intensivos em energia, como a siderurgia — especialmente em Minas Gerais, onde a produção a carvão vegetal impulsionou a formação da maior base plantada do país e avanços relevantes nessa agenda — e parte da agroindústria, passaram a incluir em sua matriz energética biomassa renovável proveniente de plantios dedicados. O que chegou a ser um vetor de risco tornou-se uma vantagem competitiva.

O etanol de milho recoloca o país diante de uma dinâmica semelhante. A expansão das usinas ocorre em ritmo mais acelerado do que a formação da base de árvores cultivadas necessária para sustentá-las. Em alguns casos já se observa um descompasso entre oferta e demanda de biomassa. Essa pressão afeta custos, logística e, sobretudo, aumenta riscos ambientais e reputacionais caso não seja adequadamente endereçado.

A silvicultura deixa de ser complementar e passa a ser estrutural. Assim como energia elétrica e logística, a base florestal torna-se condição para a operação eficiente e sustentável dessa indústria. Para tanto, é essencial que os estados da federação ao emitirem as licenças para novas indústrias, sejam rigorosos na aplicação e fiscalização da lei, garantindo que o PSS de grandes consumidores seja baseado exclusivamente em florestas plantadas.

É nesse contexto que iniciativas como o recém-lançado Plano de Desenvolvimento Florestal de Goiás ganham relevância. Estruturado como política de Estado, o plano combina incentivos e planejamento de longo prazo para expandir a base florestal de forma sustentável, sinalizando um caminho consistente para ampliar a oferta de biomassa renovável e dar escala à bioeconomia.

O Brasil reúne condições únicas para liderar essa transformação. Temos terra — segundo o Atlas da Pastagem, desenvolvido pela Universidade Federal de Goiás, há no país mais de 100 milhões de hectares de áreas antropizadas, com algum nível de degradação, que podem ser convertidas para diversos fins, como o cultivo de grãos, a produção de fibras, a restauração de nativas e a geração de energia. E temos também a tecnologia, fruto de investimentos intensivos em pesquisa e desenvolvimento realizados nas últimas décadas. Foram esses esforços que permitiram ao Brasil apresentar hoje a maior produtividade no cultivo de eucalipto.

O desafio agora é transformar a expansão em estratégia. A história recente mostra que o país é capaz de fazê-lo. O que antes veio em resposta a um problema tornou-se uma das bases da competitividade brasileira em biomassa. O momento atual exige um movimento semelhante, agora orientado pela bioeconomia e pela transição energética.

O etanol de milho não deve ser visto apenas como uma nova indústria. Ele representa a oportunidade de consolidar um modelo de desenvolvimento baseado na integração entre energia, floresta e agricultura.

Mais uma vez, o país está diante de uma escolha conhecida: transformar crescimento em estratégia de longo prazo e consolidar sua liderança na bioeconomia.

***

Paulo Hartung é presidente-executivo do Ibá. Foi governador do Espírito Santo entre 2003 e 2010 e entre 2015 e 2018.

Adriano Scarpa Tonaco é diretor de relações institucionais do Ibá.



Fonte Link

spot_img
spot_img
Fique conectado
16,985FansLike
2,458FollowersFollow
61,453SubscribersSubscribe
Deve ler
spot_img
Notícias Relacionadas
spot_img