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A vida após o ataque hacker: BMP refaz gestão e prepara novo negócio

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A BMP esteve no centro do maior ataque hacker contra o sistema financeiro nacional e sofreu um prejuízo de mais de R$ 540 milhões em junho de 2025. O evento exigiu que a empresa de infraestrutura financeira acelerasse uma reorganização, que envolveu a contratação de executivos, a ampliação da equipe de controles e mudanças na distribuição de poder dentro da companhia. Agora, pretende transformar parte do reforço de suas defesas em um novo negócio.

No início deste ano, a governança corporativa da BMP começou a ser revista. Marcelo Schucman, que teve passagens pela Stone e pela Swap, da qual foi sócio e cofundador, assumiu como COO para liderar a operação e escalar o negócio. O sócio-fundador Carlos Benitez, embora ainda responda como CEO, tem ocupado uma função mais próxima a de chairman.

Nesse novo desenho, Benitez vem reduzindo a participação na rotina operacional e tem dedicado mais tempo à estratégia e a novas iniciativas. O fundador continuará como controlador e referência comercial da BMP.

“Quando cheguei, tinha um plano com o Carlos de dois anos. Mas dois anos ia ser muito devagar e combinamos de fazer em seis meses”, diz Schucman, ao NeoFeed.

Junto com Schucman duas novas lideranças se juntaram à BMP. Luiz Conrado Sundfeld, que passou pelo Rabobank, como CFO; e Rodrigo Melgar, que esteve em Nubank, Santander, Zup, Digibee e Swap, como CTO.

A BMP tem hoje um conselho consultivo e prepara sua transformação para um conselho de administração – além de uma nova composição da diretoria estatutária. Segundo Schucman, as mudanças dependem da aprovação do Banco Central. Os integrantes serão divulgados após essa etapa.

Uma das mudanças mais expressivas ocorreu na estrutura de governança, riscos e compliance, conhecida pela sigla GRC. Segundo Schucman, a equipe passou de aproximadamente cinco para mais de 50 pessoas.

A expansão acompanha a revisão dos processos de uma companhia que cresceu rapidamente fornecendo infraestrutura para que fintechs e outras empresas ofereçam serviços financeiros.

“A BMP teve uma história de muito sucesso comercial. Crescemos muito rápido e as dores do crescimento vieram”, afirma o COO.

O novo modelo operacional foi dividido em três eixos: comercial; produtos, operações e tecnologia; e governança e suporte. A reorganização envolve a revisão de responsabilidades e a automação de processos que ainda dependiam de intervenções manuais.

A reorganização também chega à estratégia do negócio. Em meio a esse processo, houve um reforço das defesas da BMP contra os criminosos. E esse desenvolvimento pode ser uma nova frente de receita.

A aceleração desse movimento responde a pressões de diferentes naturezas. A primeira foi o ataque à C&M, fornecedora de tecnologia que conectava instituições financeiras à infraestrutura de pagamentos, quando criminosos exploraram essa conexão para realizar transferências indevidas de recursos mantidos pela BMP no Banco Central.

Outra pressão veio da Operação Cliente Fantasma, deflagrada pela Polícia Federal (PF) em fevereiro deste ano. A investigação apurou suspeitas de falhas na identificação de clientes e na comunicação de operações suspeitas, que teriam facilitado a lavagem de dinheiro. Na ocasião, a BMP afirmou que colaborava integralmente com as autoridades e que os fatos envolviam operações antigas de ex-clientes.

Rodrigo Melgar, CTO, e Marcelo Schucman, COO da BMP

Schucman cita tanto o ataque quanto a operação da PF entre os acontecimentos que levaram a companhia a antecipar mudanças. A eles se soma um ambiente regulatório mais exigente para o Banking as a Service (BaaS), modelo em que instituições autorizadas fornecem a infraestrutura para outras empresas oferecerem produtos financeiros.

Em novembro de 2025, o Banco Central e o Conselho Monetário Nacional publicaram uma resolução conjunta que regulamentou a prestação desses serviços. Para a BMP, essa necessidade de adaptação do setor abre uma oportunidade comercial para ferramentas de controle e segurança, como o Cyberdome.

Mercado mais seguro

É nesse mercado que a companhia pretende posicionar o Cyberdome, plataforma de tecnologia para segurança, gestão de riscos e compliance que começou a ser testada dentro da própria BMP. O próximo passo será oferecê-la a outras instituições financeiras, com lançamento previsto para 2027.

Seu desenvolvimento é parte da transformação realizada para adequar a estrutura de gestão e de controles de uma empresa que originou R$ 27 bilhões em crédito no ano passado e projeta alcançar R$ 30 bilhões neste ano.

O projeto nasceu das conversas entre Schucman e Melgar, que já se conheciam do mercado de infraestrutura financeira. Inicialmente, a ideia era desenvolver uma solução para outras empresas.

O caminho escolhido foi incorporá-la à BMP, testar seu funcionamento e, posteriormente, separar a atividade em um negócio próprio dentro do grupo.

A proposta é reunir informações que costumam circular por estruturas diferentes, como operação, áreas de riscos e compliance e auditoria. Com essa base integrada, agentes de inteligência artificial podem identificar padrões suspeitos e recomendar ou executar ações, conforme as permissões estabelecidas.

Segundo Melgar, parte da infraestrutura tem capacidade para processar até 100 mil eventos por segundo. A ambição é usar os dados também para facilitar a troca de informações sobre ameaças entre instituições.

“Um mercado mais seguro é um mercado onde todo mundo ganha. E isso não inibe a competição”, diz o CTO.

O primeiro teste envolveu a identificação de uma fraude interna de um desvio de quase R$ 2 milhões da BMP. A empresa informou ter identificado internamente movimentações irregulares e acionado as autoridades.

Essa experiência interna deverá servir de base para a oferta comercial. A BMP estuda cobrar conforme o uso de eventos e de agentes de inteligência artificial, com diferentes capacidades contratadas pelos clientes. A distribuição poderá envolver associações do mercado e parceiros especializados em segurança.

A ideia é permitir que participantes de associações do setor compartilhem e acessem informações sobre ameaças sem pagar por esse intercâmbio. A receita viria dos eventos transacionais e dos agentes de inteligência artificial contratados, conforme a utilização de cada instituição.

“A informação vai ser livre para todo mundo que estiver dentro daquela associação”, afirma Schucman.

A distribuição poderá envolver associações do mercado e parceiros especializados em segurança. Antes da oferta externa, a BMP pretende desenvolver outras funcionalidades e ampliar os testes dentro de casa.

A nova frente pode diversificar as receitas da companhia, mas também aumenta a exigência sobre a transformação em curso.

Para conquistar instituições financeiras como clientes de segurança e controles, a BMP precisará demonstrar os resultados da reorganização na própria operação.

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