A ação da M. Dias Branco subiu mais de 3% hoje depois da companhia anunciar a aquisição de 80% da Grespan, uma fabricante de produtos de panificação congelados.
Os fundadores da Grespan, José Marcos Grespan e Marlene Grespan, permanecerão na operação por até cinco anos, ajudando na integração dos negócios.
A M. Dias Branco também terá a opção de comprar os 20% restantes da empresa nesse período.
O negócio encerra um hiato de quatro anos sem aquisições da companhia de alimentos, dona de marcas como Piraquê, Adria e Vitarella. O valor da transação não foi divulgado.
O deal é pequeno para a M. Dias Branco: a receita da Grespan (R$ 139 milhões em 2025) equivale a apenas 1% do faturamento da companhia, mas a aquisição abre uma nova avenida de crescimento nos produtos com trigo, uma cadeia que ela já conhece bem.
A M. Dias opera sete moinhos e é uma das maiores fabricantes de biscoitos e massas do País. Agora, passa a oferecer também pães congelados para padarias, supermercados e atacarejos.
Fundada em 2009, a Grespan atende mais de 1.100 clientes, principalmente no Sudeste e Centro-Oeste, e possui mais de 60 produtos, com destaque para o pão francês.
Seu modelo vai além da fabricação: a empresa também opera logística própria, fornece equipamentos e oferece suporte técnico aos estabelecimentos.
A tese é que esse serviço ganhe relevância à medida que padarias e supermercados tentam reduzir a dependência de mão de obra especializada – cada vez mais escassa – e simplificar suas operações.
Em um relatório a clientes, os analistas do Bradesco BBI disseram que os produtos adquiridos de terceiros já representavam 31,9% da receita das padarias brasileiras no ano passado, ante 29,3% em 2020.
O mercado potencial é grande. A panificação movimentou R$ 164 bilhões no Brasil em 2025, embora o número contemple um universo muito maior do que o de congelados.
Num recorte mais próximo, dados do IBGE compilados pelo Bradesco mostram que o mercado de pães industrializados, congelados ou não, movimentou R$ 4,5 bilhões em 2024.
A M. Dias pretende começar a expansão da Grespan em São Paulo, aproveitando os relacionamentos comerciais que já possui, antes de avançar para outras regiões.
Outro atrativo está na rentabilidade. Segundo o management da companhia, as margens da Grespan são superiores à média consolidada da M. Dias.
Mas a expansão exigirá uma operação diferente da atual. Ao contrário de biscoitos e massas, os pães congelados precisam de uma cadeia logística refrigerada, além de enfrentar concorrentes já estabelecidos, como a Marquespan.
A aquisição também marca a retomada dos M&As da M. Dias Branco depois de um período dedicado à integração dos negócios adquiridos anteriormente.
Em 2021, a companhia comprou a Latinex, dona das marcas Fit Food, Frontera e Smart. No ano seguinte, adquiriu a Jasmine, de alimentos saudáveis, e a uruguaia Las Acacias, sua primeira operação internacional.
A busca por novos mercados acontece num momento em que a M. Dias enfrenta dificuldades para crescer nos negócios tradicionais e recuperar a rentabilidade.
A companhia sofre com a concorrência, a dificuldade de repassar aumentos de custos e o maior poder de negociação dos atacarejos. Ao mesmo tempo, as despesas operacionais continuam pressionando os resultados.
No segundo trimestre, o volume vendido cresceu 4,4% ano contra ano, mas a receita líquida caiu 0,9% no mesmo período, para R$ 2,7 bilhões. A margem EBITDA passou de 12,7% para 10,5%.
Um gestor do buyside disse ao Brazil Journal que parte dessas dificuldades se deve à maturidade dos mercados de biscoitos e massas, à concorrência regional e ao maior poder de negociação dos atacarejos, que pressionam preços e margens.
Para o Bradesco, a Grespan é uma aquisição estrategicamente positiva e pode servir como plataforma para novas compras num mercado fragmentado, mas o banco ressalta que a transação é pequena demais para alterar significativamente os resultados no curto prazo.
Um outro analista também questiona se essa é a melhor estratégia para uma empresa que enfrenta dificuldades operacionais há anos.
“Fica a pergunta se foi o melhor caminho,” disse o analista, que considera a entrada em congelados interessante, mas vê a aquisição como pequena demais para fazer diferença nos resultados da companhia.
A ação da M. Dias Branco cai 30% nos últimos doze meses. A empresa vale R$ 7 bilhões na B3.





