Nova York – Em 2007, o dramaturgo nova-iorquino Moisés Kaufman leu no jornal The New York Times uma reportagem sobre um álbum de fotografias encontrado em 1946, um ano após o fim da Segunda Guerra. Um oficial da inteligência militar americana o havia resgatado de uma lata de lixo em um apartamento abandonado em Frankfurt.
Cuidadosamente coladas em 16 páginas, com legendas à mão, as 116 fotos em preto e branco, de junho de 1944 a janeiro de 1945, revelam momentos felizes: pessoas acendendo velas na árvore de Natal, tomando sol em cadeiras em cenários campestres, jantando juntas, escutando um acordeonista e brincando com um cachorro. Em uma delas, mulheres posam para a câmera ao lado de um homem, todos com pratinhos de mirtilos. “Aqui tem mirtilos”, diz a legenda.
Fotos assim não eram incomuns. Criada na década de 1920, a máquina fotográfica Leica democratizou-se ao longo de vinte anos, passando a retratar o cotidiano de muitos europeus. Mas havia um detalhe: os homens daquelas fotos vestiam o uniforme do regime nazista. Aqueles não eram ilustres desconhecidos.
O militar americano guardou o álbum em segredo por quase seis décadas, quando bateu à porta dos arquivistas do Museu do Holocausto de Washington, D.C. Em uma pesquisa liderada por Rebecca Erbelding, eles descobriram que o dono dos álbuns era Karl Höcker, um assistente do oficial nazista Richard Baer.
Os sorridentes homens fardados das fotos incluem figuras do alto escalão do regime de Adolf Hitler, como o médico Josef Mengele, conhecido como o “Anjo da Morte”; Oswald Pohl e Rudolf Höss, o oficial retratado no filme Zona de Interesse.
Nenhum dos registros mostra as atrocidades cometidas por todos, mas as imagens foram tiradas a metros de Auschwitz-Birkenau, o campo de extermínio nazista onde foram aniquiladas 1,1 milhão de pessoas, entre judeus, homossexuais, presos políticos, deficientes físicos, Testemunhas de Jeová e ciganos.
Trata-se do local onde, segundo especialistas, ocorreu o maior genocídio documentado da história.
Do álbum ao palco
Nascido na Venezuela e descendente de familiares que pereceram no Holocausto, Kaufman é o fundador da renomada companhia Tectonic Theatre Project. Em 2018, ele e a dramaturga Amanda Gronich tornaram a reportagem na peça Here There Are Blueberries (Aqui Tem Mirtilos), que chega à Broadway em 2 de novembro para uma temporada de 80 apresentações.
Em cartaz nos Estados Unidos desde 2022, a peça tem rodado o país. Em 2024, a montagem entrou para a lista das “dez melhores peças de 2024” segundo o The Wall Street Journal, e foi indicada ao Pulitzer Prize na categoria Drama.
E, em 2025, chegou aos palcos do McCarter Theatre Center, em Princeton, um dos mais respeitados do país.
“Here There Are Blueberries é uma obra teatral importante, que fala à nossa humanidade compartilhada em um momento em que a ética precisa estar no centro de tudo, e a excelência artística da Tectonic é simplesmente incomparável”, diz ao NeoFeed Sarah Rasmussen, diretora artística do McCarter Theatre Center. “Foi uma honra apresentá-la ao público do McCarter, e estamos entusiasmados em vê-la levar suas questões urgentes à Broadway.”
Ao longo da peça, que se passa na sala de trabalho dos arquivistas do museu, as fotos são projetadas na parede. O Museu do Holocausto, por princípio, não faz exposição sobre os predadores, apenas sobre as vítimas. No entanto, os curadores abriram uma exceção e levaram as fotos a público.
O passado em família
Além de reportagens, como uma entrevista com Rebecca Erbelding no 60 Minutes, o tema ganhou manchetes internacionais, chamando atenção de alemães que reconheceram seus avôs em algumas das fotos. Sem saber da gravidade de suas ações durante a guerra, eles passaram a procurar o museu e a se envolver com a pesquisa para alcançar mais familiares de soldados retratados.
Em uma entrevista a um podcast americano, Kaufman ressalta a atemporalidade da história. Segundo ele, a reação do público ao sair do teatro resume-se em um comentário unânime: “Embora as fotografias sejam de 1944, parece que estamos falando da nossa cultura e da nossa sociedade de hoje”, diz o dramaturgo, acrescentando que as pessoas se perguntam qual papel que elas exerceriam em uma situação dessas.
“A pergunta que mais escuto é: ‘Podemos acender uma vela de Natal e depois ir trabalhar em um campo de concentração?’”, afirma. A peça, segundo ele, faz o público questionar a forma de “construir e seguir um sistema ético que nos leve a decisões que nos impeçam fazer o que nos mostram as fotos”. “Como era o cotidiano das pessoas que administravam o campo de concentração? E qual é a diferença entre culpa e cumplicidade?”, ressalta.
“Uma das fotografias da peça [que deu nome ao título] mostra as secretárias que trabalham nos escritórios administrativos de Auschwitz. Alguém poderia dizer que elas não mataram ninguém, certo? Mas, todos os dias, elas precisavam escrever para Berlim e informar quantas pessoas haviam chegado em cada trem, quantas tinham sido enviadas às câmaras de gás e quantas haviam sido encaminhadas para o trabalho”, conta Kaufman. “Elas sabiam de tudo o que estava acontecendo. Eram cúmplices do funcionamento de Auschwitz como uma máquina de extermínio.”
“Na foto, elas aparecem se divertindo em uma agradável tarde de verão, ouvindo um acordeonista. Descobriram que havia mirtilos na área onde estavam sentadas e começaram a comê-los”, relata. “Se retirarmos do contexto tudo o que acontecia fora do enquadramento da fotografia, veremos apenas um grupo de jovens simpáticas, em um passeio ao ar livre, comendo mirtilos e cantando”, diz o dramaturgo.
“Mas o que isso significa?”, questiona. “É possível viver uma experiência assim e, ao mesmo tempo, enviar diariamente relatórios informando quantos milhares de pessoas foram colocadas nas câmaras de gás?”





