“É hora de dizer adeus…” Assim, em 6 de agosto, com um post no Instagram, o piloto Eduardo Salamonde se despediu do kart. Aos 15 anos, Dudu está mais determinado (e preparado) do que nunca para, em 2027, estrear na Fórmula 4 italiana, o torneio mais prestigiado e disputado da categoria no mundo.
O adolescente dá mais um passo rumo ao sonho que alimenta desde os 8 anos — chegar à elite do automobilismo mundial. E já tem em mente um futuro adversário: Andrea Kimi Antonelli. “Eu vou competir com ele”, aposta, sem hesitar, em conversa com o NeoFeed. A comparação com o atual líder da Fórmula 1 não é à toa.
Ambos construíram trajetórias vitoriosas no kart antes de chegar aos carros de fórmula, os chamados monopostos. Dudu conquistou cinco títulos paulistas, foi campeão brasileiro em 2024 e garantiu a única vaga destinada ao Brasil na categoria Rotax Júnior Max do Mundial de 2025, no Bahrein. Agora, prepara-se para disputar o campeonato que o piloto da Mercedes venceu aos 16 anos, em 2022.
O brasileiro deve assinar com a futura equipe até o fim de novembro, mas, enquanto a negociação não estiver concluída, não pode revelar o nome da escuderia.
A experiência com uma equipe italiana, porém, já faz parte de sua trajetória. Em 2026, correu pela Parolin, uma das principais fabricantes e equipes de kart do mundo, dividindo-se entre treinos e competições na Europa e retornos ao Brasil.
Os títulos não vieram, mas enfrentar pistas desconhecidas, grids com quase 40 participantes e alguns dos melhores kartistas da atualidade trouxe muitos aprendizados.
“Eu não estava acostumado a disputar posição em uma pista cheia… eram, no máximo, 20, 25 carros”, lembra. “Virei um piloto muito melhor, um piloto muito mais maduro.”
A temporada reforçou, sobretudo, a disciplina do jovem. Em um esporte em que milésimos de segundo fazem a diferença, cada detalhe requer o máximo de atenção.
Depois dos treinos, ele passou a anotar suas impressões, conversar mais com o engenheiro e estudar os dados de telemetria, como velocidade, frenagem e uso do acelerador, para identificar onde poderia ganhar tempo.
“É outro esporte”
Dudu tem pela frente um desafio enorme — quiçá o maior do automobilismo. A passagem do kart para a F4 é considerada a mais complexa e drástica na carreira de qualquer piloto.
Embora os saltos posteriores até a F1 envolvam carros muitíssimo mais velozes, a mudança para a F4 exige uma reprogramação completa da mente, do corpo e do estilo de pilotagem. “É outro esporte”, diz.
A bagagem adquirida nos kartódromos continua valiosa, mas já não basta para dominar o novo equipamento. Cerca de seis vezes mais pesado, um carro de F4 possui marchas, dispõe de aerofólios e chega a 250 quilômetros por hora. E isso muda tudo — a maneira de acelerar, frear e fazer curvas.
A nova categoria cobra mais força e resistência. Nas curvas em alta velocidade, os aerofólios pressionam o carro contra o asfalto, tornando o volante mais duro. Como na F4 não há direção hidráulica ou elétrica, braços e ombros trabalham mais.
A frenagem também demanda outra técnica. Se no kart bastava um leve toque, agora a pressão sobre o pedal pode chegar ao equivalente a 60 a 70 quilos, explica Dudu. Já as forças laterais exigem mais da musculatura do pescoço para manter a cabeça alinhada.
“Tudo exige mais”, resume. Mas não apenas do corpo, como também da mente.
Para dar conta desse “tudo”, Dudu intensificou sua rotina de treinos, com a ajuda de preparadores físicos, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos e a orientação de Nuno Cobra Junior — o Nuninho, filho do lendário mentor de Ayrton Senna, que o acompanha desde o kart.
A mente também treina
Aos poucos, o adolescente entra no caminho percorrido por grandes nomes da Fórmula 1. Na Itália, ele trabalha com a Formula Medicine. Fundado em 1994, pelo médico Riccardo Ceccarelli, o centro especializado em medicina esportiva e desempenho físico e mental já atendeu Fernando Alonso, Sebastian Vettel e Charles Leclerc. E, até hoje, cuida de Antonelli.
Ali, um dos programas dos quais Dudu participa é o Mental Economy, um treinamento focado em melhorar o desempenho mental com o menor desgaste possível.
Em exercícios computadorizados de atenção, reação e tomada de decisão, suas respostas são avaliadas junto a indicadores fisiológicos. O objetivo é aprender a manter a rapidez e a precisão sob pressão, sem deixar que a tensão comprometa a concentração.
A concentração já faz parte de um ritual desenvolvido com Nuninho. Antes de ser dada a largada, Dudu faz o sinal da cruz, fecha os olhos, respira e repassa mentalmente o traçado da prova.
Quando vê dois riscos luminosos na viseira, como olhos de pantera, sabe que está pronto para correr. E a imagem que inspirou o desenho do felino em seu capacete no kart, continua a acompanhá-lo a caminho da F4.
Fora das pistas, ele também conta com nomes de peso para orientar seus próximos passos. A gestão de sua carreira está a cargo da Minardi Management, em parceria com a DAG, sob o comando de Giovanni Minardi e Dorothea Schulz.
Fundada em 2003, a agência carrega um sobrenome que abre portas com equipes, patrocinadores e montadoras globais. Giovanni é filho de Giancarlo Minardi, fundador da escuderia que disputou a Fórmula 1 entre 1985 e 2005. Também foi um dos responsáveis por identificar o talento de Kimi Antonelli, hoje piloto da Mercedes, quando o italiano tinha apenas 8 anos, em 2014.
O preço do passo seguinte
No próximo ano, Dudu pretende correr os campeonatos Italiano e Europeu, além do Winter Series, competição realizada na Espanha e em Portugal, uma espécie de preparação para os principais torneios da nova categoria.
A mudança para a F4 também eleva a conta. Ao contrário dos pilotos no topo do automobilismo mundial, os jovens das categorias de base geralmente não recebem salário e precisam pagar por uma vaga na equipe.
Para disputar as três competições em uma escuderia de primeiro nível, com um pacote de treinos incluído, o custo gira em torno de cerca de € 1,2 milhão — quase R$ 7 milhões. É mais do que o triplo dos R$ 2 milhões (aproximadamente € 352 mil) estimados para a temporada de 2026.
Para bancar esse salto, Dudu segue com a EXA Tecnologia como principal apoiadora e conta também com a captação de recursos por meio da Lei de Incentivo ao Esporte.
Se 2026 foi um ano de idas e vindas entre o Brasil e a Europa, em 2027, o piloto terá endereço fixo no norte da Itália, provavelmente na região entre Milão e o lago de Garda.
A localização facilita o acesso às sedes de equipes e a circuitos como Monza, além dos deslocamentos para testes e competições em outros países europeus.
Ao concluir o ensino fundamental no Colégio Porto Seguro, em São Paulo, começará o ensino médio a distância.
A mãe, a economista Paula, pretende permanecer com ele durante boa parte do tempo. O pai, Carlos Augusto, também economista, a irmã Julia, os tios e os avós devem completar o revezamento para acompanhá-lo.
O adeus ao kart anunciado em agosto será seguido de outras despedidas — da escola, da convivência diária com parte da família, da rotina no Brasil. Aos 15 anos, Dudu se prepara para mudar muito mais do que o carro que pilota.





