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ARTIGO: A moto virou o novo carro popular. E está redesenhando a mobilidade urbana

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Durante décadas, o carro foi o principal símbolo da mobilidade individual no Brasil. Ter um automóvel significava autonomia, acesso ao trabalho e, para milhões de brasileiros, uma conquista patrimonial. Nas grandes cidades, porém, essa lógica começa a mudar.

A motocicleta vem ocupando um espaço que antes pertencia ao carro: o de principal ferramenta de mobilidade individual e, cada vez mais, de geração de renda.

Não se trata apenas de uma mudança no comportamento do consumidor. Está surgindo um novo mercado, que envolve montadoras, concessionárias, empresas de locação, plataformas digitais, seguradoras, empresas de tecnologia e, de forma crescente, o próprio sistema financeiro. A expansão da locação de motocicletas é um dos sinais mais claros dessa transformação.

Em vez de comprar uma moto, assumir financiamento, seguro, manutenção, IPVA e outros custos, o consumidor agora opta por pagar pelo uso do veículo. Para quem trabalha sobre duas rodas, a lógica é ainda mais evidente. A motocicleta deixa de ser apenas um meio de transporte e passa a ser um ativo produtivo, uma ferramenta para trabalhar, fazer entregas, prestar serviços e gerar renda.

Essa mudança cria uma nova equação econômica: a moto que circula pelas ruas também pode gerar fluxo financeiro. O que está acontecendo com as motocicletas acompanha uma transformação que já atingiu outros segmentos da economia: a migração da lógica da propriedade para a lógica do uso.

O consumidor nem sempre quer possuir o ativo. Ele quer ter acesso a ele, com previsibilidade de custos e menor desembolso inicial. É justamente nesse ponto que o mercado de locação ganha relevância.

Empresas que tradicionalmente atuavam com aluguel de carros começam a olhar para as motocicletas como uma nova fronteira de crescimento. Montadoras e redes de concessionárias também passam a participar desse ecossistema, criando modelos nos quais o veículo pode ser entregue, mantido e administrado dentro da própria rede.

A consequência é uma mudança importante no desenho do mercado. A locadora deixa de ser apenas uma empresa que compra veículos e os aluga e passa a funcionar como uma plataforma de mobilidade, capaz de combinar veículo, tecnologia, manutenção, seguro, rastreamento, contratação digital e serviços financeiros.

Essa transformação também abre uma nova avenida para o mercado de capitais. Quando milhares de motocicletas elétricas e convencionais são colocadas em circulação por meio de contratos de locação, surge um conjunto de recebíveis originados desses contratos.

São fluxos financeiros que podem, dentro das estruturas e critérios regulatórios aplicáveis, ser utilizados em operações de crédito estruturado e fundos de investimento em direitos creditórios, os FIDCs. É aí que mobilidade e mercado financeiro começam a se encontrar.

Uma motocicleta alugada deixa de ser apenas um veículo. Ela passa a fazer parte de uma cadeia de ativos que envolve aquisição, financiamento, locação, geração de receita, manutenção e, eventualmente, revenda. Esse modelo pode permitir que o capital seja reciclado para financiar novas motocicletas, ampliando a capacidade de expansão das empresas de locação.

Na prática, cria-se um ciclo no qual o capital financia a aquisição dos veículos, os veículos são colocados em operação, a locação gera recebíveis e esses recebíveis podem alimentar novas estruturas de crédito e contribuir para a entrada de novos veículos no mercado.

A expansão da mobilidade sobre duas rodas, portanto, não é apenas uma questão de trânsito ou comportamento. É também uma questão financeira. Existe ainda uma característica particular do mercado brasileiro: uma parcela relevante das motocicletas é utilizada profissionalmente.

Para entregadores, prestadores de serviço e trabalhadores que dependem da mobilidade para gerar renda, a moto pode representar um instrumento de produção. Isso muda a natureza do produto. Quando uma pessoa compra um bem de consumo, a preocupação central costuma ser o preço.

Quando esse mesmo bem é utilizado para gerar renda, entram na equação disponibilidade, manutenção, segurança, previsibilidade e tempo de utilização. Uma motocicleta parada pode significar renda perdida.

Por isso, modelos de locação que incorporam manutenção, assistência, seguro, rastreamento e outros serviços ganham importância. O usuário passa a pagar não apenas pelo veículo, mas pela disponibilidade de uma ferramenta de mobilidade. É uma mudança significativa de paradigma e que também exige uma transformação das próprias empresas de aluguel de veículos.

O setor de locação percebeu que o consumidor está menos interessado em imobilizar capital e mais disposto a pagar pelo uso. Ao mesmo tempo, precisa atender a um mercado no qual a motocicleta ganhou relevância tanto para deslocamento quanto para geração de renda.

A resposta passa pela diversificação dos modelos de negócio. O futuro das empresas de locação não será necessariamente apenas ter grandes frotas de automóveis, mas administrar diferentes modalidades de mobilidade, com produtos desenhados para diferentes perfis de usuários.

Quando se fala em futuro da mobilidade, a discussão costuma se concentrar na eletrificação dos automóveis, nos veículos autônomos e em novas tecnologias. Esses movimentos são relevantes, mas existe uma transformação mais imediata acontecendo nas ruas brasileiras: a mudança na forma como as pessoas acessam a mobilidade.

Nas grandes metrópoles, a motocicleta combina preço, agilidade e capacidade de circulação em um ambiente urbano cada vez mais congestionado. Por isso, é possível que a próxima grande revolução da mobilidade brasileira não esteja apenas no carro que será utilizado daqui a dez ou vinte anos, mas na motocicleta que já está sendo usada hoje — e, principalmente, na forma como ela será financiada, alugada, administrada e utilizada.

A moto está deixando de ser apenas um veículo. Está se tornando uma plataforma de mobilidade e trabalho. E, ao redor dela, está surgindo um novo ecossistema que conecta indústria, tecnologia, locação e mercado financeiro.

O carro popular marcou uma geração ao democratizar o acesso à mobilidade individual. A motocicleta pode estar inaugurando a próxima etapa: uma mobilidade popular baseada no uso, na flexibilidade e na geração de renda.

Para empresas de locação, montadoras, bancos, fundos e empresas de tecnologia, essa transformação representa mais do que uma nova categoria de veículos. Representa o nascimento de um novo mercado que chegou agora no Brasil e, pela expansão, pretende ficar.

* Amit Louzon é CEO da Ituran Brasil

* Paulo Henrique ‘PH’ é CEO da IturanMob

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