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Ikea investe 500 mil euros em projeto de café regenerativo em MG

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MONTE CARMELO (MG) — A gigante sueca de móveis Ikea veio ao Brasil em busca de agricultura regenerativa. E não é no setor madeireiro, como a lógica nos leva a pensar. É no café. Presente em cerca de 60 países, a Ikea possui cafeterias dentro de suas lojas.

A companhia entrou em contato com a Rainforest Alliance para entender o que é cafeicultura regenerativa e como se dá a transição para este sistema de produção. O movimento levou a varejista até o Cerrado Mineiro, uma das regiões cafeeiras mais avançadas na adoção dessas práticas.

“Nós trouxemos o pessoal da Ikea para visitar algumas fazendas de produtores da MonteCCer [Cooperativa dos Cafeicultores de Monte Carmelo] e conhecer como é a implementação da agricultura regenerativa e o valor dela”, diz Guilherme Petená, gerente de projetos da Rainforest.

Depois da visita, a Ikea aportou 500 mil euros num projeto com o mesmo propósito: entender como se dá a transição para a cafeicultura regenerativa, os benefícios ambientais e a relação entre os níveis de implementação e o desempenho produtivo das lavouras, gerando evidências técnicas que subsidiem o desenvolvimento de modelos escaláveis de cafeicultura regenerativa e a expansão para outras regiões.

A iniciativa teve início no final de 2024 e envolve 11 cooperados da MonteCCer, todos com propriedades com certificação Rainforest, em diferentes estágios de implementação da cafeicultura regenerativa.

Plantio consorciado de café com mogno na Fazenda Londrina, em Monte Carmelo (MG) | Crédito: Divulgação/Rainforest

“Juntos, eles somam 1.100 hectares de cafezais. São fazendas com perfis diferentes de adoção de práticas regenerativas. Não viemos com um pacote pronto, mas procuramos entender o que é relevante para cada perfil de produtor e mensurar o impacto disso”, diz Viviane Resende, coordenadora de certificação da MonteCCer.

Responsável pela gestão do projeto, a Rainforest envolveu vários parceiros. Um deles foi um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), que ficou responsável pelo diagnóstico inicial, uma espécie de anamnese para entender o grau de envolvimento da propriedade rural com as práticas regenerativas.

“Os produtores responderam um questionário amplo e depois fomos com eles conhecer as fazendas”, diz Bruno Sérgio Vieira, professor de fitopatologia da UFU.

Manejo integrado de pragas e doenças

No bate-papo inicial, o grupo de pesquisadores já notou um ponto de melhoria. “Muitos produtores disseram que não tinham problema com nematóides [vermes do solo], mesmo assim, aplicavam nematicida”, diz.

Guilherme Petená, gestor da Rainforest Alliance

Isso evidenciou um costume corriqueiro na agricultura, as pulverizações preventivas calendarizadas, independentemente da necessidade. Esse contexto levou a Rainforest acionar uma empresa parceira para fazer o Manejo Integrado de Pragas e Doenças (MIP) nas fazendas do projeto.

“A cada 15 dias, uma pessoa faz o monitoramento. Coleta 100 folhas para entender a população de pragas na lavoura e fazer uma recomendação agronômica mais eficiente e reduzir o uso de insumos”, diz Petená.

O feedback dos participantes do projeto tem sido superpositivo. “Um produtor contou que conseguiu ver uma infestação de praga no vizinho, antes de chegar na sua fazenda, e fez um controle mais localizado”, acrescenta o gestor da Rainforest.

O pilar da cafeicultura regenerativa

A saúde do solo é o coração da agricultura regenerativa, porque um solo bem conservado retém nutrientes, água e matéria orgânica, favorecendo o bom desenvolvimento das plantas. Não por acaso, uma das parceiras da Rainforest no projeto é a FronterraBio, empresa voltada à pesquisa da vida no solo.

“Nós dividimos as fazendas em talhões, fazemos as coletas de terra georreferenciadas com o nosso quadriciclo e mandamos as amostras para diversos laboratórios”, diz Luiz Gustavo Rabelo, consultor da FronterraBio.

Os laboratórios fazem uma série de análises físico-químicas, biológicas, e de ciclagem de carbono para verificar como está a fertilidade e a vida do solo. As análises enzimáticas são o destaque, porque medem a atividade microbiológica, como está a decomposição da matéria orgânica e a ciclagem de nutrientes. Também é mensurada a glomalina, substância associada ao maior crescimento de raiz.

Outra análise importante é a de nematoides, para saber o índice de nematoides maléficos (Meloidogyne exigua) – que prejudicam a absorção de nutrientes, reduzindo a produtividade da lavoura – e nematoides benéficos, os bacteriófagos, que ajudam na disponibilização de nutrientes para o cafeeiro. Entender essa população permite ao agrônomo recomendar o produto certo, que combata os nematoides inimigos e poupe os nematoides aliados.

O quadriciclo de coleta de amostras conta com uma sonda que mede a compactação, umidade e textura do solo. “Um solo compactado tem pouco ar, pouca água, portanto, pouca disponibilidade para a vida”, diz.

A tipologia de argila é outra análise realizada. “Um solo com maior teor de argila vai ser mais propenso à compactação, porém melhor em absorção de matéria orgânica”, diz Rabelo. “Não conseguimos mexer na tipologia, mas precisamos entender para melhorar o manejo, saber se colocamos menos ou mais adubo, se irrigamos menos ou mais”, complementa o consultor.

Esse conjunto de análises ajuda os agrônomos a fazer uma recomendação certeira, focada em suprir os pontos críticos daquele solo.

Sustentabilidade voltada à segurança alimentar

Luiz Donizetti Ferreira Júnior é o consultor agronômico da Fazenda Bárbara, gerida por Juliana Rezende. Quando começou atender à propriedade, que tem 63 hectares de cafezais, recebeu a seguinte recomendação da cafeicultora: “Tenho vários projetos na fazenda, mas meu objetivo é passar segurança alimentar a todos que compram meu café. Não quero usar produtos que deixem resíduos, que possam dar problemas às pessoas. Quero preservar a fazenda para meus filhos e netos”.

Com essa orientação, o profissional traçou um planejamento alicerçado em três pilares: 1) Preservar os inimigos naturais das pragas do cafeeiro, os agentes polinizadores e animais da fauna; 2) Estimular a multiplicação dos microrganismos benéficos presentes no solo e nas matas adjacentes e 3) Diversificar, com o plantio de forrageiras de cobertura e árvores nativas.

O lema é manter o solo coberto sempre que possível. Por isso, a fazenda semeia mix de plantas de cobertura entre as linhas dos cafezais, que favorecem a atividade microbiológica do solo e a ciclagem de nutrientes.

Além da braquiária, muito utilizada no Cerrado Mineiro por ser de fácil condução e ter raízes profundas que aeram o solo e ajudam na infiltração da água da chuva, o mix contém trigo mourisco, crotalária, entre outras forrageiras.

O primeiro atrai o crisopídeo, inimigo natural do bicho-mineiro, uma das principais pragas do café na região, enquanto a crotalária tem raízes que fixam o nitrogênio e produzem substâncias que combatem os nematoides.

Juliana RezendeJuliana Rezende
Juliana Rezende, gestora da Fazenda Santa Bárbara

“Para nós, a agricultura regenerativa tem um papel importante. Um exemplo é o mix de plantas, que fornece alimento para as abelhas num período de menor oferta, que é entre abril e maio”, diz Juliana.

Por sinal, nesta busca por uma produção cafeeira em equilíbrio com a natureza, as abelhas têm um papel crucial. “Abelha não é só um polinizador, é um indicador de qualidade ambiental, um fiscal 24 horas por dias”, diz Júnior.

No caso da Fazenda Santa Bárbara, que produz mel de flor de café, os apiários de Apis melífera (abelhas com ferrão) são próximos ao cafezal.

“Todo tratamento químico é pensando para não prejudicar as abelhas. E, à medida que elas vão aumentando, é sinal de que o manejo não está causando danos”, diz o consultor. E mais do que isso, todo ano, Juliana envia uma amostra do mel para análise na Europa. “O resultado comprova que não há resíduos de agroquímicos”, ela diz.

A fazenda tem também um meliponário de abelhas nativas, estrategicamente colocado ao lado de uma área de reflorestamento com espécies nativas do bioma. “Mais de 70% das árvores do Cerrado precisam de uma abelha nativa para polinizar, sem isso, elas não prosperam”, explica a cafeicultora.

Mais vida para o solo

Nesta nova forma de produzir, o cuidado com o solo é o foco de atenção da propriedade. E uma das estratégias para aumentar a vida embaixo da terra é a utilização do microgeo, um biofertilizante produzido a partir do rúmen do boi. Para isso, as fazendas constroem uma bioestação, um tanque, em que os bacilos e outros microrganismos de bovinos são multiplicados.

“Durante 30 dias, colocamos um substrato específico e esperamos até que a fermentação termine para pegar o caldo e aplicar via esguicho na lavoura”, diz Júnior.

O resultado é uma maior enraização do pé do café e um melhor aproveitamento de nutrientes retidos no solo, como o fósforo. “O microgeo funciona como uma vacina para o cafeeiro, uma vez que estes microrganismos entram em contato com as folhas e raízes do café e provocam uma a reação de maior imunidade da planta a bactérias, vírus e patógenos”, acrescenta.

Esta ferramenta é usada tanto na fazenda Santa Bárbara quanto na fazenda Londrina, outra propriedade cafeeira participante do projeto e gerida por Mariana Jordão, uma jovem engenheira agrônoma de 26 anos.

Mariana Jordão, agrônoma da Fazenda Londrina

Lá, além da braquiária entre as linhas dos cafezais, a fazenda conta com o plantio consorciado de café com mogno, que traz biodiversidade e cria um microclima propício para o desenvolvimento da lavoura.

A propriedade também tem usina fotovoltaica e bolsões, que captam a água da chuva nos terreiros de secar café e depois utilizam o recurso hídrico na irrigação.

“Para mim, o principal aprendizado do projeto foi enxergar além das análises mais tradicionais de fertilidade e começar a entender melhor a dinâmica do solo e como ela pode se relacionar com o desenvolvimento e a produtividade do café”, diz Mariana.

Ela se refere à análise de enzimas, que verifica a quantidade de beta-glicosidase (associada ao ciclo do carbono e à decomposição de resíduos orgânicos) e a arilsulfatase (relacionada ao ciclo do enxofre e à disponibilização desse nutriente no solo).

Com os novos dados, a agrônoma pretende aumentar a utilização de insumos biológicos para o controle de pragas e doenças na lavoura. “Existem novas tecnologias no mercado que vêm apresentando resultados interessantes e podem complementar o manejo que fazemos”, diz.

Ela está avaliando criar na própria fazenda os crisopídeos, inimigos naturais do bicho-mineiro, que é uma praga de difícil manejo. “Também vejo oportunidade de comercializar os créditos de carbono que estão sendo gerados na propriedade e transformar todo esse trabalho em uma fonte adicional de valor”, complementa.

Iniciado no final de 2024, o projeto da Ikea, em parceria com a Rainforest e MonteCCer, se estendeu por mais um ano. “Nesta segunda etapa, estamos recomendando algumas práticas para as fazendas participantes”, diz Petená. Além disso, a Ikea está conversando com a MonteCCer sobre a possibilidade de adquirir esses cafés produzidos com práticas sustentáveis.

*A jornalista viajou a convite da Rainforest Alliance.



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