Belo Horizonte – O tema da inadimplência entrou na pauta da corrida eleitoral, a ponto de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sinalizar que, se reeleito, haverá um novo pacote de renegociação das dívidas para as famílias, considerando que o endividamento atingiu o patamar recorde de 82% em julho e agosto, segundo a pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC).
Os efeitos de novas medidas, porém, podem não produzir os resultados esperados pelo governo, de alívio nas condições das famílias, segundo Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter, considerando os efeitos que o programa Desenrola teve até o momento.
“O Desenrola teve pouco impacto”, disse ela em entrevista coletiva na sexta-feira, 25 de setembro, antes do Inter Invest Summit 2026. “Nos outros dois programas Desenrola, a gente viu pouco impacto na qualidade de crédito das famílias.”
Segundo ela, do ponto de vista macroeconômico, os programas tiveram efeitos muito limitados sobre a inadimplência e não conseguiram melhorar significativamente a situação das famílias.
“O governo poderia usar recursos em outros programas, eles não foram tão positivos”, disse, embora tenha ressaltado que a avaliação depende da forma como as iniciativas são implementadas. “Não é um programa muito benéfico do ponto de vista macro.”
A avaliação também foi feita dentro do Inter. Segundo o CEO Alexandre Riccio, o Desenrola não provocou mudanças estruturais relevantes no negócio.
“Pensando em Desenrola, são programas que, do ponto de vista estrutural, no longo prazo, não mudam tanto o que a gente vê em carteira de crédito”, disse.
Para Vitória, a inadimplência na economia ainda deve piorar no terceiro trimestre, mas deve começar a ceder mais para o final do ano.
Ela diz que o ciclo de alta da inadimplência foi prolongado por um aperto monetário mais defasado, enquanto os programas de estímulo fiscal e creditício deram mais fôlego às famílias e ajudaram a sustentar o crescimento do crédito.
“Nosso cenário-base é uma inadimplência que está fazendo pico agora e deve ter uma queda lenta”, disse. “Isso faz parte do ciclo da política monetária.”
Segundo a economista-chefe do Inter, os estímulos fiscais e creditícios adotados pelo governo deram maior fôlego às famílias. O crédito também cresceu mais do que o esperado, contribuindo para que o impacto do aperto monetário sobre a inadimplência demorasse mais a aparecer.
Apesar disso, ela disse ver sinais de melhora na inadimplência, embora o processo deva ser lento, em razão da defasagem dos efeitos da política monetária sobre as famílias e da velocidade de queda da Selic — o Inter espera mais dois cortes de 0,25 ponto percentual até o final do ano, para 13,25% ao ano.
Há, porém, um risco de interrupção caso a inflação permaneça elevada por mais tempo. Rafaela citou como possibilidade um cenário em que o dólar suba após um anúncio fiscal que decepcione no próximo ano, levando o Banco Central a voltar a elevar os juros.
Além disso, a recente alta do petróleo, com o preço do barril próximo a US$ 100, é um novo fator de risco no cenário. Mas ela ressaltou que uma interrupção não é o cenário-base do Inter.
“Existe espaço para uma redução dos juros, e a tendência é que a inadimplência acompanhe esse movimento e continue recuando nos próximos meses”, disse.
O repórter viajou a Belo Horizonte a convite do Inter





