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todo cuidado será pouco para evitar ataques em escala – ConvergenciaDigital

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A evolução da computação quântica já começa a impor ao setor financeiro e a outras infraestruturas críticas um novo desafio de segurança cibernética: preparar sistemas, algoritmos e profissionais antes que máquinas quânticas tenham capacidade suficiente para comprometer os mecanismos criptográficos utilizados atualmente. O tema foi discutido no painel “Computação quântica: Como preparar o ecossistema frente à segurança cibernética”, realizado nesta quinta-feira (10), em Brasília, durante o 4º Tech Bank Forum.

Especialistas de Banrisul, Banco do Brasil, Serpro, Huawei Brasil e da área de pesquisa em computação quântica destacaram que a transição para a chamada criptografia pós-quântica precisa começar antes da existência de computadores capazes de realizar ataques em escala prática. Durante o debate, foi mencionado 2029 e 2030 como uma possível janela para que essa capacidade tecnológica se aproxime da realidade, reduzindo o tempo disponível para adaptação.

Jorge Krug, assessor da diretoria do Banrisul, ressaltou que a discussão não deve se limitar à construção de computadores quânticos. É necessário considerar todo o ecossistema de segurança, incluindo dados, infraestrutura, chaves e algoritmos criptográficos. Segundo ele, muitos dos mecanismos utilizados atualmente têm origem em tecnologias desenvolvidas nas décadas de 1970 e 1980.

Em 1994, foi apresentado um algoritmo que demonstrou, teoricamente, como uma máquina quântica suficientemente poderosa poderia comprometer sistemas criptográficos clássicos. Naquele momento, entretanto, não havia capacidade computacional para executar esse tipo de ataque de maneira prática. Com a evolução da computação quântica, o cenário começa a mudar.

“A questão é que não havia capacidade computacional para isso, mas essa data está chegando. É a criptografia pós-quântica. Está chegando o tempo de termos uma máquina quântica capaz de rodar esses algoritmos”, afirmou Krug.

Para o executivo, o principal risco é deixar a migração para depois. A substituição de algoritmos não ocorre de forma instantânea, especialmente em organizações com grandes parques tecnológicos, sistemas legados e uma quantidade elevada de ativos que dependem de criptografia. “Se não começarmos a migrar agora, pode não haver tempo de migrar os algoritmos clássicos”, alertou.

Carlos Rischioto, pesquisador na área de Computação Quântica, concordou que o setor já entrou em uma fase de preparação. Segundo ele, pesquisadores trabalham simultaneamente no desenvolvimento de tecnologias quânticas e na busca por métodos capazes de enfrentar os mecanismos de segurança existentes. “Estamos em um momento em que a tecnologia caminha para ser possível executar esses algoritmos que devem quebrar essas chaves atuais”, afirmou. Para Rischioto, a perspectiva de que essa capacidade possa chegar entre 2029 e 2030 ajuda a explicar o movimento de reguladores e instituições em direção à criptografia pós-quântica.

O desafio, porém, vai muito além de trocar um algoritmo por outro. Carlos Gonçalves, especialista em segurança digital do Banco do Brasil, destacou que os mecanismos atuais não são matematicamente inquebráveis. O que existe é a ausência, até o momento, de métodos eficientes para comprometê-los nas condições atuais. “Acontecendo essa quebra, acredito que a troca seria a parte mais fácil. Mas não é só isso, há todo um ecossistema que envolve a criptografia”, afirmou.

Nesse processo, uma das primeiras tarefas é saber exatamente onde a criptografia está sendo utilizada. Gonçalves questionou se as instituições têm visibilidade completa sobre suas chaves criptográficas e se os mecanismos de controle de acesso a esses ativos estão adequadamente protegidos. O inventário, portanto, aparece como uma etapa fundamental para a transição.

No Serpro, algumas iniciativas de experimentação com algoritmos pós-quânticos já estão em andamento, inclusive em produção. Tiago Iahn, CISO da empresa, explicou que a estratégia é ampliar os testes e acompanhar a evolução dos fornecedores e da comunidade especializada. “No Serpro demos início a algumas iniciativas, algumas em produção inclusive, testando esses algoritmos pós-quânticos. A grande meta para este ano e o ano que vem é justamente experimentar”, disse.

Marcelo Motta, CSO e DPO da Huawei Brasil, explicou que a preparação envolve duas grandes frentes: a evolução da comunicação quântica e o desenvolvimento de algoritmos de criptografia pós-quântica capazes de resistir aos futuros computadores quânticos. Segundo ele, existe atualmente um processo internacional de padronização dos novos algoritmos, diante da expectativa de avanço da tecnologia.

A Huawei, afirmou Motta, vem investindo em tecnologias como a distribuição quântica de chaves, conhecida pela sigla QKD, e preparando seus produtos para a nova realidade. Entre os riscos, ele destacou não apenas a manutenção de algoritmos desatualizados, mas também possíveis ataques à infraestrutura de gerenciamento.

Um invasor que conseguisse forjar um certificado digital, por exemplo, poderia assumir o controle de componentes críticos. Por isso, a segurança precisa considerar o conjunto de processos e tecnologias envolvidos. Motta também chamou atenção para uma vulnerabilidade que independe da chegada da computação quântica. “Vale lembrar que 40% das ameaças cibernéticas são internas, relacionadas a questões operacionais. Isso independe de ter criptografia pós-quântica ou não”, afirmou.

Soberania em jogo

A dimensão geopolítica também entrou no debate. Segundo Motta, existe uma diferença significativa entre os investimentos realizados pelo Brasil e os de países que vêm desenvolvendo tecnologias e algoritmos próprios. Para Krug, essa diferença deveria estimular uma discussão nacional sobre soberania tecnológica. “Quando se fala em Brasil, em relação à Ásia e à China, que está muito à frente, não temos uma infraestrutura criptográfica nacional. Somos dependentes do mundo americano”, afirmou o assessor do Banrisul.

Krug defendeu que o país avalie a construção de uma infraestrutura própria de criptografia pós-quântica, seguindo o movimento de nações que tratam o tema como estratégico. “Talvez fosse o momento de desenvolvermos nossa plataforma, nossa infraestrutura criptográfica pós-quântica”, disse.

Para o executivo, o primeiro passo para as empresas é conhecer a própria infraestrutura. “As empresas precisam fazer urgentemente um inventário do que elas têm”, afirmou. O objetivo é identificar equipamentos, sistemas, certificados e algoritmos utilizados e avaliar quais deles precisarão ser substituídos ou atualizados.

Rischioto acrescentou que o grande desafio não é apenas escolher um algoritmo pós-quântico, mas desenvolver agilidade criptográfica. As instituições precisam ser capazes de atualizar rapidamente seus mecanismos de proteção sempre que surgir uma nova vulnerabilidade ou um novo padrão. “Talvez tenhamos que atualizar um parque inteiro de algoritmos em poucas semanas. Esse é o grande desafio”, afirmou.

A preparação também depende de profissionais qualificados. O pesquisador apontou um paradoxo provocado pela aceleração tecnológica: ao mesmo tempo em que ferramentas de inteligência artificial facilitam a criação de sistemas, diminui o conhecimento humano sobre aquilo que está sendo produzido. “Nunca foi tão fácil fazer sistemas e nunca foi tão difícil saber o que os sistemas fazem”, resumiu.

Tiago Iahn destacou que o desafio de formação não é exclusivo da computação quântica. Tecnologias consideradas antigas continuam presentes em grandes organizações, mas cada vez menos profissionais são preparados para trabalhar com elas. O Serpro mantém frentes de capacitação e acompanha iniciativas nacionais relacionadas à criptografia de Estado e pós-quântica.

No Banco do Brasil, a capacitação também faz parte da estratégia de segurança e inovação. Gonçalves destacou iniciativas como a academia de IA da instituição, voltada ao uso responsável da tecnologia, e ressaltou que os formatos de treinamento precisam acompanhar a mudança no comportamento das pessoas.



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