Marília – Em Marília, todos os anos, durante a Páscoa, acontece a tradicional Encenação da Paixão de Cristo. Quando eu era criança, fui assistir a este evento com meu pai. Depois de alguns minutos, já estava cansado de ficar em pé. Foi então que percebi, mais ao fundo, uma espécie de plataforma com cadeiras. Não perdi tempo:
— Vamos lá sentar!
Meu pai respondeu:
— A gente não pode. Lá é um lugar reservado para as pessoas importantes.
Retrucando, disse:
— Pois então é lá mesmo que deveríamos estar.
Na inocência de criança, eu não compreendia exatamente o que meu pai queria dizer. Aquelas cadeiras eram reservadas às autoridades: prefeito, vereadores e outros políticos. Ainda sem uma consciência política formada, compreendi, talvez intuitivamente, algo fundamental: das pequenas às grandes coisas, eles têm seus privilégios.
Mas há algo de profundamente simbólico nessa história, pois ela nos faz pensar em questões muito relevantes. Numa democracia, quem deveria ocupar o lugar de destaque? Quem deveria ser tratado como “pessoa importante”? O ocupante temporário de um cargo público ou aquele em nome de quem o poder é exercido?
Políticos vivem dos impostos pagos pelo povo, são remunerados pelo Estado e exercem, por força da própria lógica constitucional, uma função pública em nosso nome. Isso, veja, não é um juízo de valor. É uma constatação.
O poder não lhes pertence. O cargo não lhes pertence. O dinheiro público não lhes pertence. A função é pública porque o poder é do povo. O problema começa quando alguém confunde mandato com propriedade.
Em regra, há quem deixe de enxergar a política como serviço e passe a tratá-la como profissão, patrimônio ou negócio familiar. Colocam filhos para disputar eleições, formam grupos, criam clãs, distribuem favores, constroem estruturas de poder e passam a acreditar, inocentemente (e, às vezes, perversamente), que são donos daquilo que apenas deveriam administrar.
Mais do que isso: julgam-se celebridades. E não são. Sequer deveriam querer ser. Quem quer aplausos que vá cantar, atuar ou jogar futebol. Políticos não devem ter fãs. Devem ter fiscais. Devem ser cobrados, questionados e criticados. Devem prestar contas. Devem trabalhar bem porque trabalham para alguém. E esse alguém não é o partido, não é o grupo político, não é o empresário amigo, não é a própria família. É o povo.
Vale, no entanto, uma ressalva. Políticos são importantes. A democracia não funciona sem pessoas dispostas a representar honradamente seus eleitores. O problema não está na existência da política, mas na sua degeneração em politicagem; não está no exercício do poder, mas na apropriação privada daquilo que deveria permanecer público.
E talvez seja justamente por isso que a democracia seja tão desconfortável para quem se acostuma ao poder: ela não permite que ninguém seja dono dele por muito tempo.
O ato político, veja, é dever de todos e não existe apenas durante as eleições. Fazer política é cuidar daquilo que é público. E aqui há uma distinção que merece ser repetida: a coisa pública não é aquilo que não é de ninguém. É aquilo que é de todos. Nossa cidade é nossa. Nosso estado é nosso. Nosso país é nosso. Todos somos responsáveis por aquilo que acontece neles. Se os políticos são ruins, é necessário olhar no espelho e enfrentar uma pergunta incômoda: não fomos nós que os colocamos lá?
É muito confortável culpar “a política”, “Brasília”, “os políticos” ou “o sistema” como se tudo isso fosse uma entidade alienígena que invadiu nossas vidas. Mas a política não é feita por extraterrestres. São pessoas que elegem pessoas. São cidadãos que delegam poder a outros cidadãos. A responsabilidade, portanto, não termina na urna.
Já escrevi, em outras oportunidades, sobre o quanto a herança histórica brasileira contribuiu para a corrupção, o clientelismo e o coronelismo na política nacional. Nossa formação institucional ajuda a explicar muita coisa. Mas a história não é sinônimo de destino.
Toda eleição é uma oportunidade de interromper velhos ciclos, corrigir escolhas e iniciar mudanças necessárias. O sistema (essa grande e invisível estrutura que frequentemente parece funcionar para proteger a si mesma) certamente não facilita. Cruzar os braços, porém, também não ajuda.
Nesse contexto, vale relembrar: mentir é ato de pescadores. Minha avó sempre brincou com isso. No folclore nacional, entretanto, mentir também é coisa de político. Que os políticos bons e honestos me perdoem, mas é isso que se fala por aí (não fui eu quem inventou).
Talvez, então, devêssemos desconfiar um pouco mais das palavras e prestar muito mais atenção às ações. Em época de eleição, todo mundo descobre que é capaz de prometer tudo. O difícil é encontrar quem consiga sustentar, depois do voto, aquilo que prometeu antes dele.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja “o que esse candidato promete?”, mas: o que ele já fez? O que já construiu? Que decisões tomou quando teve poder? Quem são seus aliados? Qual é a sua trajetória?
Promessas pertencem ao futuro. Caráter e histórico pertencem ao passado. E, para escolher quem receberá poder, talvez seja prudente olhar mais para o segundo do que para o primeiro.
Toda essa reflexão me fez recordar as palavras da ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, quando, em sua posse como presidente da Corte, afirmou: “A norma protocolar determina que os registros e cumprimentos se iniciem pela mais elevada autoridade presente. Inicio, pois, meus cumprimentos, dirigindo-me ao cidadão brasileiro, princípio e fim do Estado, senhor do poder da sociedade democrática, autoridade suprema sobre todos nós, servidores públicos, em função do qual há de labutar cada um dos ocupantes dos cargos estatais.” E, depois: “Cumprimento, portanto, inicialmente, Sua Excelência, o povo.”
Estamos acostumados a ver autoridades sendo tratadas como “excelências”, ocupando lugares reservados, recebendo deferências e sendo cercadas por protocolos. Mas, no regime democrático, existe uma autoridade anterior a todas essas autoridades. O povo. Nós somos os poderosos. Nós somos os importantes.
E talvez aquilo que eu disse quando criança, sem compreender absolutamente nada sobre teoria do Estado, democracia ou Direito Constitucional, estivesse mais correto do que eu imaginava: “Pois então é lá mesmo que deveríamos estar.”
Sentemos nas cadeiras. Fiquemos em destaque. Ocupemos o nosso lugar. E, sempre que alguém se esquecer de quem é o verdadeiro titular do poder, lembremos, com a simplicidade de uma criança, uma verdade que nenhuma pompa deveria ser capaz de esconder: vocês são nossos empregados. Não são celebridades.





