A Arizona Public Service (APS), maior empresa de energia do estado, está no centro da polêmica. A APS propõe um aumento de 45% nas tarifas de eletricidade para “grandes consumidores de energia”, principalmente data centers, e um reajuste de cerca de 14,5% para clientes residenciais.
Quase ninguém ficou satisfeito.
Defensores dos consumidores alertam que o plano transferiria os riscos financeiros da expansão da IA para famílias que já enfrentam contas de luz elevadas no verão e temperaturas que frequentemente ultrapassam os 37°C.
Caso o boom de IA perca fôlego ou o consumo de energia dos data centers diminua, eles temem que os moradores fiquem pagando pelas obras de infraestrutura durante anos.
A Microsoft, que opera três grandes data centers no Vale Oeste de Phoenix, afirma que está pagando por conta própria pelas atualizações necessárias na rede — mas argumenta que a concessionária tem uma abordagem equivocada para financiar novas usinas.
A APS diz que seu plano garantiria que “o crescimento pague pelo crescimento”.
“Estamos garantindo que eles paguem sua parte justa”, afirmou Ted Geisler, presidente da APS e da controladora Pinnacle West Capital. “Esses data centers exigem usinas inteiras construídas só para eles ou linhas de transmissão completas. Por isso precisamos modernizar as tarifas.”
Data centers no centro do debate
O debate faz parte de um embate nacional.
Disputas semelhantes sobre como financiar a expansão da rede surgiram no Texas, na Carolina do Norte em outros mercados, onde clientes residenciais enfrentam propostas de grandes aumentos.
Os riscos são altos. Os preços da eletricidade estão subindo mais rápido que a inflação como um todo e se tornaram uma questão política bipartidária.
Os clientes residenciais nos Estados Unidos viram suas tarifas de eletricidade aumentarem em média 32% entre 2020 e 2025. No Arizona, o salto foi de 26%.
O país corre para construir infraestrutura e manter a liderança sobre a China na corrida da IA, mas a reação dos consumidores está crescendo. Além do apetite voraz por eletricidade, os data centers enfrentam críticas pelo uso intensivo de terra e água.
A demanda por eletricidade nos EUA permaneceu estagnada por décadas antes de acelerar com a mania da inteligência artificial. O consumo comercial de energia deve superar o residencial no próximo ano pela primeira vez, segundo a Energy Information Administration.
A pedido do presidente Donald Trump, as grandes empresas de tecnologia prometeram cobrir os custos para alimentar os data centers.
Quem paga a conta
A Microsoft pede aos reguladores do Arizona que permita a ela e a outros grandes consumidores construir suas próprias usinas, em vez de depender de geração controlada pela concessionária, cujos custos acabam sendo pagos em parte também por outros clientes.
“Desde que começamos a operar no Arizona em 2021, a Microsoft tem se comprometido a pagar por conta própria para garantir que nossos data centers não aumentem os preços da eletricidade”, disse Jeff Riles, diretor sênior de mercados de energia da empresa.
A APS afirmou que está desenvolvendo uma forma de permitir que grandes clientes construam sua própria geração, mas sem comprometer a confiabilidade ou acessibilidade para os demais.
Distribuir de forma justa os custos de infraestrutura entre diferentes grupos de clientes é complexo. As concessionárias estão investindo não apenas para atender data centers mas também para reforçar a rede contra eventos climáticos extremos e substituir equipamentos antigos — mudanças que beneficiam todos os consumidores.
Existem mais de 120 processos em todo o país em que concessionárias discutem como cobrar de clientes de grande porte, segundo registros compilados pela startup de IA Halcyon.
A definição das tarifas é supervisionada por reguladores estaduais em processos jurídicos que duram cerca de um ano, como o que ocorre em Phoenix, onde clientes e grupos defesa podem pedir para participar.
Os cinco comissários eleitos de serviços públicos do Arizona devem definir o reajuste da APS ainda neste ano. A última aprovação foi em 2024, quando a concessionária pediu 13,6% para a maioria dos clientes e obteve 8%.
Geisler, presidente da APS, afirmou que os aumentos são necessários para cobrir gastos já realizados com melhorias e reparos na rede. A inflação crescente, os juros mais altos e a volatilidade da cadeia de suprimentos elevaram os custos dos projetos. O preço de alguns transformadores subiu 90% nos últimos anos, acrescentou.
Até dois anos atrás, a APS conectava novos clientes à rede conforme eles solicitavam o serviço. Agora, a empresa se prepara para atender clientes que pedem mais de 4 mil megawatts — e há outros 19 mil megawatts em fila de espera, mais que o dobro da demanda de pico do sistema.
Temor de subsídio por consumidores
Essa corrida deixa os moradores do Arizona preocupados.
Jane Andersen, líder estadual no Arizona da Mormon Women for Ethical Government, disse temer que os residentes e os pequenos negócios acabem subsidiando as necessidades energéticas dos data centers.
Ela classificou o aumento de 14,5% proposto para as famílias como “fora da realidade” em comparação com as médias nacionais. Famílias de baixa renda e idosos com renda fixa já têm dificuldade para pagar as contas, e o ar-condicionado é indispensável, afirmou.
“É uma medida de sobrevivência”, disse Andersen.
A procuradora-geral do Arizona, Kris Mayes, democrata ex-comissária de serviços públicos, quer que os data centers assumam uma parcela maior dos custos. Mesmo um aumento de 45% não cobriria integralmente as despesas de conexão, afirmou, defendendo que os clientes residenciais tenham reajuste de cerca de 3%.
A prefeita de Phoenix, Kate Gallego, que já trabalhou em desenvolvimento econômico na Salt River Project, concessionária federal da região de Phoenix, vê paralelos com um boom anterior.
“Em 2008, com a crise imobiliária, o Arizona foi duramente atingido porque estava muito ligado ao mercado imobiliário residencial”, disse ela.
A região de Phoenix é um importante mercado de data centers, além de abrigar fábricas de semicondutores e mineração de cobre, commodity essencial para o setor elétrico.
Nem todo data center proposto será construído, mas concentrar demais a rede elétrica do Arizona em um único setor seria irresponsável, afirmou Gallego.
“Estamos fazendo uma aposta enorme em um único setor”, concluiu.





