Para evitar os preços deprimidos de açúcar e etanol, a São Martinho vai aproveitar a capacidade de estocagem e a força de seu balanço (caixa recheado e baixa alavancagem) para segurar as vendas ao máximo, deixando o grosso do volume que será comercializado para o último trimestre da safra 2026/27.
A estratégia de vendas não é exatamente nova para a companhia, mas ganha contornos especiais diante do aperto de margens da indústria sucroalcooleira do País, que registra uma das piores rentabilidades em muitos anos.
Enquanto vários concorrentes são obrigados a vender açúcar e etanol no pior momento da safra porque não possuem capacidade de estocagem relevante ou não têm caixa suficiente, a São Martinho pode esperar.
A aposta da São Martinho é que os preços de açúcar e etanol se recuperem no decorrer da safra. No caso do etanol, a melhora pode vir apenas após as eleições presidenciais — até lá, é provável que a gasolina pouco se mova, sustentada pelo recente subsídio criado pelo governo Lula.
Em uma teleconferência com analistas na terça-feira à tarde, o diretor financeiro da São Martinho, Felipe Vicchiato, argumentou que os atuais preços de açúcar e etanol não fazem sentido diante dos fundamentos.
“O preço do etanol caiu 20% em um mês. No nosso entendimento, não é para tanto. Não tem muito racional econômico”, afirmou o executivo.
Nesta safra 2026/27, que começou em 1º de abril, a São Martinho só comercializou etanol nos primeiros quinze dias da temporada, segurando a comercialização depois disso.
Açúcar barato demais?
Vicchiato também chamou atenção para o que parece um contrassenso no mercado internacional de açúcar.
“Os preços eram para estar em outro patamar dado que você tem um déficit meio contratado”, disse, mencionando o déficit global de 3,2 milhões de toneladas de previsto pela Datagro para a safra 2026/27.
Segundo ele, as cotações atuais do açúcar, em torno de 14,50 centavos de dólar por libra-peso, parecem ignorar a queda de produção esperada na Índia e Tailândia, além de trabalharem com uma safra brasileira sem solavancos mesmo com os riscos trazidos pelo El Niño.
“Os preços de açúcar que estão em tela não refletem El Niño em nenhum sentido. Parece que vai ser uma safra perfeita no Brasil, com nenhuma parada”, afirmou Vicchiato, em resposta a uma pergunta da analista Julia Zaniolo, do Bank of America (BoFA).
No Centro-Sul, a maior incidência de chuvas no segundo semestre provocada pelo El Niño pode atrapalhar a colheita, prejudicando os níveis de ATR, segundo o diretor financeiro da São Martinho. Não à toa, a companhia está acelerando os trabalhos no campo para evitar problemas.
“Aceleramos a moagem o máximo possível para tentar fazer a safra mais curta possível. Não posso deixar cana em pé. É um desafio para o setor inteiro”, acrescentou o executivo.
No atual ritmo, a São Martinho já fez cerca de 25% da safra, acima da previsão orçamentária para o período.
A expectativa é que a moagem da companhia se estenda até a segunda ou terceira semana de novembro. Se as chuvas impedirem a colheita em algum momento do segundo semestre, o grupo ainda poderia estender a colheita até dezembro.
Queda da produção contratada
Mesmo que o El Niño tenha um impacto insuficiente para recompor os preços do açúcar, uma retomada é inevitável na próxima safra (2027/28), na leitura da São Martinho.
Segundo Vicchiato, uma redução da produção brasileira já está contratada. “Com os preços baixos e o custo dos insumos alto, o produtor que tem custo alto de produção não está tratando a cana. O impacto vai fazer com que tenha uma queda na produção de cana”.
É o bom e velho ciclo de commodities em operação. “O antídoto para preço baixo é preço baixo”, resumiu Vicchiato.
Para players capitalizados, como a São Martinho, a vantagem desses momentos é ter um balanço capaz de manter os investimentos para cuidar do canavial, o que significa que o grupo terá volume para aproveitar a recuperação.
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Listada na B3, a São Martinho está avaliada em R$ 5,7 bilhões. Em 12 meses, o papel acumula queda de 17,9%, um reflexo dos preços do açúcar.





