A centenária São Silvestre decidiu entrar na era da inteligência artificial. Na edição de número 101, no dia 31 de dezembro deste ano, a corrida de rua mais tradicional do Brasil oferece, pela primeira vez, um aplicativo com treinos orientados por IA.
A cada ano, cerca de 50 mil atletas encaram os 15 quilômetros da prova, com largada e chegada na Avenida Paulista e com a temida subida da Avenida Brigadeiro Luís Antônio no trecho final. Muitos, porém, chegam à largada sem treinamento específico para o percurso.
O plano é conquistar espaço em um mercado tradicionalmente dominado por assessorias esportivas, em geral presenciais, e alcançar corredores pouco familiarizados com planilhas de treinamento.
A missão de prepará-los com a ajuda da tecnologia cabe à startup Zyla, anunciada recentemente como parceira da Fundação Cásper Líbero, organizadora da prova. A ideia é oferecer acesso ao aplicativo no momento da inscrição na prova.
Criada em 2024 por Guilherme Monteiro Viana, atual CEO, e Samy Waintraub, responsável pela área comercial, a plataforma nasceu como uma alternativa digital aos modelos tradicionais de treinamento. Isso não significa, porém, deixar tudo com a IA.
Viana sentiu na pele — ou melhor, na perna — a falta de acompanhamento profissional ao recorrer diretamente ao ChatGPT para montar seus treinos. “Tive uma fratura por estresse quando treinava para uma maratona com os treinos por IA”, diz o CEO, em entrevista ao NeoFeed. “Treinei cinco longões seguidos de 35 quilômetros. Tudo errado. Aí entendi que precisava de metodologia e limite.”
No caso da Zyla, os treinos são criados pela plataforma de forma individualizada para cada tipo de atleta e para as provas para as quais disputará. A palavra final, porém, é do treinador de corrida Pedro Keller.
“Ele veio para ser o responsável técnico e garantir que os corredores evoluam pelo caminho certo. O Pedro desenvolveu uma biblioteca de treinos e um processo de individualização. O ChatGPT hoje pode te passar sete treinos por semana. A Zyla não faz isso”, afirma Viana.
A corrida pela escala
Em 2025, a Zyla recebeu aportes de investidores-anjo para acelerar sua expansão e o desenvolvimento da plataforma. Entre eles estão Renato Cukier e André Chaco, fundadores da Fotop, que vende fotos de eventos esportivos; Daniel Krutman, CEO da Ticket Sports, site de inscrições em provas como a São Silvestre; e Fausto Matsuda e Felipe Lima, da Squid.
Em julho de 2025, a influenciadora digital e corredora Maria Luiza Sanches, conhecida nas redes sociais como Malu, passou a fazer parte da empresa como sócia e CMO. “Ajudei a mudar o formato da plataforma e dar mais visibilidade, porque também sou uma corredora e maratonista”, diz Malu.
Com 155 mil clientes, a Zyla cresceu rapidamente neste ano, sobretudo a partir de janeiro, quando passou a integrar a rede da Wellhub (antiga Gympass).
A Zyla tem um público potencial cada vez maior. Conforme estudo realizado, no ano passado, pela Olympikus, o Brasil reúne 15 milhões de praticantes regulares de corrida — dois milhões a mais do que em 2024. A modalidade é a quarta mais praticada no país, atrás de caminhada, musculação e futebol.
Outro levantamento, este da Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua, mostra que o número de provas cresceu 85% em 2025, superando 5 mil eventos no País. O setor movimenta R$ 1,1 bilhão anualmente.
Além da São Silvestre, a Zyla pretende oferecer treinos para outras provas que a Fundação Cásper Líbero deverá realizar em 2027. O próximo alvo é a Maratona do Rio de Janeiro, em maio. As negociações estão aceleradas. No pace dos treinos por IA.





