As perspectivas para o câmbio e os juros com o resultado do segundo turno das eleições mudaram as condições para as empresas na Bolsa. Para o BTG Pactual, companhias com receitas em moeda estrangeira ganham espaço, enquanto as ações de empresas endividadas e voltadas ao mercado doméstico voltam a enfrentar pressão.
Nesse cenário, o banco destaca Weg, Embraer, Tupy e Marcopolo entre as exportadoras ligadas à indústria que podem se beneficiar.
“Preferimos empresas nas quais o impacto positivo do câmbio sobre os resultados possa ajudar a compensar um ambiente mais desafiador para o custo de capital”, afirmam Lucas Marquiori, Fernanda Recchia e Samuel Alkmim, analistas do BTG Pactual.
Com a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, as preocupações fiscais voltaram a pesar sobre os ativos brasileiros, na avaliação do banco. No primeiro pregão após a votação, o Ibovespa caiu cerca de 14%, enquanto o real se desvalorizou aproximadamente 8%, conforme o relatório.
A mudança pode favorecer empresas que ficaram para trás entre os turnos. Do último pregão antes da primeira votação até sexta-feira, 23 de outubro, as ações da Weg recuaram 17% e as da Embraer perderam 6%, enquanto o Ibovespa avançou 7%.
“Se o ceticismo em relação aos cortes de juros persistir, os investidores provavelmente continuarão favorecendo empresas com maior exposição a receitas em moeda estrangeira e menor sensibilidade aos juros domésticos”, escrevem os analistas.
O benefício, porém, depende também dos custos em moeda estrangeira, do endividamento e das perspectivas de cada negócio.
Nas aéreas, o efeito é oposto. A desvalorização do real, combinada com preços elevados do querosene de aviação (QAV), tende a pressionar os custos em moeda estrangeira. As empresas do setor têm dívidas e custos atrelados à moeda americana, enquanto parte relevante das receitas é gerada em reais.
Para empresas mais dependentes do mercado brasileiro, que avançaram na Bolsa depois do primeiro turno, a mudança de cenário traz desafios adicionais. Na avaliação do banco, companhias endividadas dos setores de locação, infraestrutura e logística podem enfrentar pressão tanto nas despesas financeiras quanto em sua avaliação na Bolsa.
Apostas
Na Weg, cerca de 60% das receitas são geradas em moedas estrangeiras. Nas simulações do BTG, a passagem do dólar de R$ 5,50 para R$ 6 elevaria em 11% a estimativa de lucro líquido para 2027.
“A tese de crescimento de longo prazo da Weg, sua exposição a data centers e a forte carteira de investimentos em redes elétricas permanecem intactas”, escrevem os analistas.
O caixa líquido oferece proteção adicional, embora as tarifas americanas e o resultado do terceiro trimestre abaixo das expectativas pesem sobre a companhia.
Na Embraer, cerca de 95% das receitas e 88% dos custos estão vinculados a moedas estrangeiras, o que cria uma proteção natural e limita o efeito líquido das oscilações do dólar, de acordo com os especialistas.
Ainda assim, a parcela dos custos em reais permite algum ganho de margem com a desvalorização da moeda brasileira. No mesmo cenário cambial, o impacto positivo estimado sobre o lucro líquido de 2027 é de 8%.
“Combinado à perspectiva sólida para os resultados de curto prazo e à baixa alavancagem, esse benefício faz da Embraer uma alternativa atraente para ganhar exposição a esse cenário entre as empresas de maior valor de mercado”, afirmam Marquiori, Recchia e Alkmim.
Entre as empresas menores, a Tupy tem aproximadamente 60% das receitas vinculadas a moedas estrangeiras, ante 15% dos custos, o que amplia o benefício de um real mais fraco. O BTG também destaca avanços na governança e perspectivas de melhora na indústria norte-americana.
O endividamento, porém, exige atenção. Juros elevados por mais tempo e demanda doméstica fraca por veículos podem consumir parte do ganho cambial.
Já na Marcopolo, cerca de 38% das receitas e 26% dos custos estão vinculados a moedas estrangeiras. Na simulação cambial do banco, a estimativa de lucro líquido para 2027 seria 24% maior, a maior sensibilidade entre as quatro empresas.
Os resultados fracos e o risco de desaceleração da renovação de frotas pesam sobre a companhia. O BTG, porém, destaca a baixa alavancagem e possíveis oportunidades nos programas de transporte público mencionados na campanha, caso avancem. Dividendos e recompra de ações também podem oferecer suporte aos papéis.
O relatório também cita Iochpe-Maxion e Frasle Mobility entre as possíveis beneficiadas pela desvalorização do real. Na primeira, cerca de 72% tanto das receitas quanto dos custos estão vinculados a moedas estrangeiras.
O provisionamento recente relacionado a um processo concorrencial na Alemanha reduziu incertezas, mas a opção de venda dos sócios na Índia segue como ponto de atenção.
Na Frasle Mobility, aproximadamente 55% das receitas e 60% dos custos estão ligados a moedas estrangeiras. O banco destaca a exposição às exportações, embora a demanda mais fraca venha pressionando as operações.





