Nos últimos meses, em conversas com produtores rurais, executivos e empresas do agronegócio, tenho percebido uma mudança importante no mercado de crédito. O interesse por financiamentos em dólar, tradicionalmente mais presentes entre grandes produtores e grupos agroindustriais, começa a alcançar produtores de menor porte. Não é a moeda que me chama a atenção, mas o perfil de quem está tomando o crédito.
Os grandes grupos mais estruturados convivem há anos com operações em moeda estrangeira, instrumentos de proteção e políticas de risco. Entre produtores menores, essa experiência nem sempre existe. Num ambiente de juros ainda elevados no Brasil, a diferença entre as taxas nominais em reais e em dólar pode fazer uma estrutura complexa parecer uma escolha financeira óbvia.
O instrumento não é novo. O tomador é.
A atração é compreensível. Uma taxa nominal significativamente menor pode representar uma economia expressiva. Mas, nessas conversas, tenho procurado trazer outra pergunta: estamos comparando apenas os juros ou também os riscos que vêm junto com eles? Uma taxa menor não significa necessariamente um financiamento mais barato.
Quando uma empresa troca uma dívida em reais por outra em dólar, não está apenas escolhendo uma condição de juros diferente. Está mudando a natureza de suas obrigações. O câmbio passa a determinar quanto daquela dívida representa em moeda nacional, enquanto a capacidade de pagamento continua dependendo da produção, dos preços agrícolas e do calendário de recebimentos.
O agronegócio brasileiro tem uma particularidade nessa equação. Soja, algodão, café e outras commodities respondem aos mercados internacionais, criando uma relação econômica entre parte das receitas e o dólar. Essa relação ajuda a explicar a atratividade do financiamento na moeda americana, mas não elimina seus riscos.
Ter uma receita influenciada pelo dólar não significa ter uma receita protegida em dólar.
O preço recebido pela soja, por exemplo, combina a cotação internacional, o câmbio e os prêmios locais, diferenciais entre o preço de referência internacional e aquele negociado em determinada região ou ponto de entrega. Uma alta do dólar pode favorecer a receita em reais, mas uma queda da commodity ou uma deterioração desses diferenciais pode consumir o benefício. Parte dos custos também responde ao câmbio: fertilizantes, defensivos, combustíveis e outros insumos carregam influência dos mercados internacionais, mesmo quando comprados em reais. O dólar mais alto pode melhorar o preço de venda e encarecer a safra seguinte.
Nessas conversas, costumo insistir numa pergunta simples: o dinheiro da safra entra antes ou depois do vencimento da dívida? O chamado hedge natural, em que receitas vinculadas ao dólar ajudam a compensar obrigações na mesma moeda, pode parecer bem estruturado no papel. Mas, se a dívida vence antes do recebimento da safra, a proteção econômica não impede uma crise de liquidez. E, quando há derivativos envolvidos, exigências adicionais de garantias podem antecipar ainda mais a necessidade de caixa. Não basta acertar a conta no vencimento. É preciso chegar até ele.
Há ainda um risco menos evidente, especialmente nas operações que oferecem taxas excepcionalmente atraentes. Algumas estruturas incorporam opções cambiais que reduzem o custo aparente em troca de riscos adicionais. Em certos contratos, o tomador concede à contraparte direitos que podem ampliar sua obrigação financeira caso o câmbio atinja determinados níveis. É como vender um seguro ao banco sem perceber que está fazendo isso. O desconto nos juros funciona como o prêmio recebido por assumir aquele risco.
O Brasil já conheceu uma versão dolorosa dessa história. Em 2008, empresas exportadoras com receitas naturalmente vinculadas ao dólar sofreram perdas expressivas com derivativos cambiais alavancados. Em alguns casos, exposições financeiras ultrapassavam as necessidades de proteção comercial. A existência de receitas dolarizadas não impediu que estruturas concebidas para melhorar resultados produzissem perdas relevantes. Não se trata de condenar derivativos nem o financiamento em moeda estrangeira, mas de reconhecer que uma proteção econômica imperfeita não justifica assumir riscos financeiros sem limites claros.
É nesse contexto que a chegada dessas operações a produtores com estruturas financeiras menos desenvolvidas merece atenção especial. O problema não é apenas entender a taxa ou prever o dólar. É ter capacidade de avaliar contratos, acompanhar exposições, administrar garantias e suportar cenários adversos sem comprometer a continuidade do negócio. Vejo valor na ampliação das alternativas de financiamento para o produtor, mas ampliar o acesso a instrumentos sofisticados não significa ampliar, automaticamente, a capacidade de administrar seus riscos.
O financiamento mais barato não é necessariamente aquele que anuncia a menor taxa. É aquele cujo risco cabe no negócio. E, se parte do desconto vier da venda de um seguro, convém saber exatamente qual sinistro estamos prometendo pagar.
Direto da Mesa de Risco
Nada como uma surpresa eleitoral para animar os mercados e trazer os holofotes para o Brasil. O câmbio fez em um dia o que costuma levar meses. Na segunda-feira seguinte ao primeiro turno, o dólar caiu 4,12% e fechou praticamente em R$ 5,00. Desde então, tem oscilado próximo desse patamar, enquanto investidores recalibram suas expectativas para o segundo turno, no dia 25.
É exatamente nesse ambiente que a dívida em dólar pode parecer mais atraente. E é quando merece cuidado redobrado. O câmbio já incorpora expectativas sobre o resultado eleitoral e a política econômica seguinte. Há cenários otimistas que apontam para R$ 4,50. Mas qual seria a cotação se essas expectativas fossem frustradas?
Lá fora, o diferencial de juros também merece atenção. A Selic está em 13,75%, após o corte de setembro, enquanto o Federal Reserve voltou a elevar suas taxas. Com o diferencial diminuindo, parte do suporte financeiro ao real pode enfraquecer.
O que me interessa agora é observar quanto desse movimento cambial se sustenta depois que a expectativa eleitoral der lugar aos fatos. Uma coisa é o mercado antecipar uma mudança de rumo; outra é essa mudança se traduzir em política fiscal, confiança e entrada consistente de capital. O resultado da eleição pode definir a direção inicial do câmbio. A capacidade de sustentar esse movimento dependerá do que vier depois.





