LAJEADO (RS) — Regra de etiqueta para comer cachorro-quente pode até parecer coisa de outro mundo, mas é tradição no Carmelito e Beto desde 1972.
O estabelecimento leva o nome dos fundadores, os irmãos Carmelito e Gilberto Becker Delwing, e tem ainda uma outra peculiaridade: o expediente encerra quando o pão (caseiro) acaba, mesmo que isso aconteça antes da hora de fechar.
“Se chegar depois das cinco da tarde, tem grandes chances de já vê-lo fechado”, me advertiu Cassiano Chierentin, gerente de logística, planejamento e controle de produção da MBRF em Lajeado (RS).
Por via das dúvidas, fui até lá na hora do almoço. Dei de cara com uma rotina corrida na cozinha — uma barreira à curiosidade de saber mais sobre o trabalho in loco.
Do trailer até as três unidades do “cachorrão” na região, foram mais de 50 anos, numa transformação que marcou não só a evolução do negócio familiar dos irmãos, mas que reflete também o próprio crescimento e a urbanização de Lajeado.
Ainda nos anos 1970, a cidade viu a fundação da indústria de bebidas Fruki, que hoje produz 420 milhões de litros por ano. E viu também a criação do frigorífico da Coopave (Cooperativa Agrícola Vale do Taquari), inaugurado em 1975.
No ano seguinte, a cooperativa fez o primeiro despacho de uma carga de 125 toneladas de frango congelado para o Oriente Médio, com destino à Arábia Saudita, lembrou o jornal local A Hora.
Nas décadas que viriam — e com a derrocada da Coopave — o frigorífico passaria ainda pelas mãos da Avipal, agroindústria fundada em Porto Alegre por dois irmãos de origem chinesa, e chegaria às mãos da Perdigão em 2007.
Com o negócio, a Perdigão levou, além da Avipal, a Elegê, de laticínios, por meio da compra da empresa gaúcha Eleva, que reunia os dois negócios. A compra fez com que a Perdigão ultrapassasse a Sadia em faturamento, tornando-se a maior empresa de alimentos do Brasil à época.
Pouco tempo depois dessa transação, Lajeado ganharia também um outro ponto turístico gastronômico: o Restaurante do Chico, inaugurado em 2009. Com uma decoração peculiar, o estabelecimento serve no almoço um único prato, o ‘à la Minuta’, de arroz, feijão, bife, batata frita e salada (que pode ser de folhas ou de batata).

“Fiquei alguns anos viajando de caminhão, depois resolvi voltar para o ramo do comércio para ficar mais próximo da família”, diz Chico Doertzbacher, o dono do restaurante.
A única variação está no tamanho: “P, para quem come pouco, M para uma fome normal e G para quem está há três dias sem comer”, resumiu um dos garçons de forma bem-humorada.
Num ritmo acelerado — que não deve em nada a um bom boteco em São Paulo —, os pratos chegam e são levados da mesa, num giro que busca atender de forma rápida à fila que se forma do lado de fora para a hora do almoço.
Se depender do ritmo de crescimento dos empregos na região, a demanda tem tudo para continuar em alta.
Lá quando o Restaurante do Chico surgiu, perto de 2010, a população assalariada em Lajeado era de 28 mil pessoas. Em 2024, são 40 mil, de acordo com dados do Cadastro Central de Empresas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).





