Há anos esperamos por uma visão de longo prazo para o Brasil. Um projeto de país e uma direção capaz de atravessar governos, organizar prioridades e orientar decisões para além do próximo ciclo eleitoral.
Continuamos esperando. E talvez seja o momento de reconhecer uma verdade simples: insistir nas mesmas escolhas aguardando um desfecho diferente é o caminho certo para o insucesso, uma ilusão que não podemos mais nos permitir. Se queremos alcançar novos resultados, é a nossa própria postura que precisa mudar.
Não porque o Estado não tenha um papel fundamental — continua tendo —, mas porque a sociedade se tornou complexa, interdependente e plural demais para que faça sentido esperar que as instituições públicas de Estado sejam as únicas responsáveis por imaginar os futuros que queremos e definir os caminhos para construí-los. Em um mundo com tantos atores, perspectivas e interesses, e com tantas variáveis em transformação, construir direção precisa ser também uma responsabilidade da sociedade e parte ativa do exercício da cidadania.
Neste nosso tempo, talvez estejamos diante da necessidade de inverter essa lógica. Deixar de esperar que a direção venha exclusivamente de um único comando. Podemos começar a construir uma visão de futuro desejável para o Brasil a partir de onde estamos: como indivíduos, famílias, empresas, investidores, organizações e comunidades. E isso começa por algo aparentemente simples: clareza.
Clareza sobre o que queremos. Que cidade queremos habitar? Que país queremos deixar para nossos filhos? Que economia queremos construir? Que papel queremos que o Brasil ocupe no mundo? Que sistemas de energia, alimentos, mobilidade e produção queremos ter?
Mas não estamos falando de respostas genéricas. Queremos um país “mais justo e inclusivo”, “menos desigual”, “mais sustentável”, “mais competitivo”, “mais desenvolvido”. É difícil discordar dessas aspirações. O desafio começa quando precisamos dizer concretamente o que elas significam, quais escolhas envolvem e o que estamos dispostos a fazer para chegar lá.
Construir direção exige transformar aspirações em visões mais tangíveis e fundamentadas.
Tomemos o agro. Que agro brasileiro queremos construir? Qual deveria ser nossa dependência de fertilizantes importados? Quanto do crescimento da produção deveria vir do aumento de produtividade em áreas já abertas? Qual deveria ser nossa capacidade de rastrear a origem do que produzimos? Como queremos combinar produção de alimentos, segurança hídrica, recuperação da natureza, energia e geração de renda? E quem vai trabalhar no campo nas próximas décadas?
Ou energia. O Brasil já parte de uma matriz elétrica predominantemente renovável. Mas qual é a ambição a partir daí? Temos energia cara para o consumidor e desperdiçamos parte do que somos capazes de gerar. Como queremos transformar a matriz energética dos transportes e da indústria, onde os combustíveis fósseis ainda têm participação importante? Como nos organizamos para isso? Qual combinação queremos construir entre eletrificação, biocombustíveis, biometano, hidrogênio e outras soluções?
Queremos apenas continuar produzindo energia de baixo carbono ou transformar essa disponibilidade em vantagem competitiva para a indústria, a mobilidade e o desenvolvimento de novas cadeias produtivas? Que infraestrutura, armazenamento, redes e capacidade industrial precisamos construir para isso?
Na indústria, a pergunta tampouco se limita à necessidade de o Brasil se reindustrializar. A resposta precisa ganhar qualificação. Que indústria queremos ter? Em quais cadeias ainda podemos ser relevantes? Onde faz sentido agregar mais valor aos recursos que já produzimos? Que posição queremos ocupar nas novas cadeias que estão surgindo com inteligência artificial, transição energética e reorganização geopolítica?
Essas perguntas têm respostas diferentes. E é justamente por isso que precisamos fazê-las.
Construir clareza não significa repetir visões alheias, aderir a posicionamentos prontos ou formar opinião a partir de fragmentos consumidos entre uma reunião e outra. No fluxo permanente de manchetes, gráficos, posts e análises, resta pouco tempo para o discernimento e a compreensão sistêmica. Por isso, é fácil ceder à ilusão, uma vez que confundimos estar informado com ter entendimento, e ter opinião com ter uma visão bem fundamentada.
Uma visão de futuro precisa ser construída com mais profundidade. Exige buscar conhecimento, confrontar diferentes perspectivas, compreender sistemas e suas interdependências, questionar nossas próprias premissas, explorar alternativas, reconhecer as dinâmicas de poder e os diferentes interesses em jogo e analisar os trade-offs envolvidos em cada caminho, para então poder afirmar qual a direção que acreditamos ser a ideal para nos mover.
Quando alguém consegue formular uma visão fundamentada e concreta, eleva a qualidade da discussão coletiva, ao criar uma referência, sobre a qual tantos outros podem também refletir. Alguns vão concordar, outros não, passando a ter na posição divergente o apoio para aprimorar aquela primeira visão, apontar limites ou trazer perspectivas que estavam ausentes.
Não precisamos esperar que 200 milhões de brasileiros concordem sobre uma única visão de país. Podemos construir convergências em escalas menores e mais concretas: sobre o futuro de uma cidade, de uma cadeia produtiva, de um setor, de uma região ou de uma pauta específica.
Quando existe alguma clareza compartilhada sobre a direção, torna-se mais fácil coordenar esforços, orientar investimentos, desenvolver capacidades, mobilizar empresas e sociedade civil e, inclusive, demandar do poder público as políticas e condições necessárias para avançar naquela direção.
Talvez a relação precise ser menos “qual é o plano que determinado partido, candidato ou governo tem para nós?” e mais “qual futuro queremos construir e o que precisamos do governo para torná-lo possível?”
Isso não diminui a responsabilidade do Estado. Ao contrário: torna mais qualificada a forma como a sociedade se relaciona com ele.
Não sabemos exatamente como será o futuro. E construir direção não significa acreditar que podemos controlá-lo. Mas podemos construir convicções mais fundamentadas sobre os futuros que queremos ajudar a tornar possíveis.
Porque clareza é contagiante. Quando compartilhada, amplia o campo de possibilidades e pode criar convergências em torno de passos possíveis. E isso pode nos ajudar a sair da paralisia, produzir movimento, recuperar nosso senso de agência e, talvez, resgatar a confiança em nossa própria capacidade de transformar o potencial do Brasil em prosperidade compartilhada.
Há anos esperamos uma direção. Talvez esteja na hora de parar de esperar que ela chegue pronta e assumir nossa parcela de responsabilidade por construí-la.
E podemos começar do micro: cada um de nós fazendo o trabalho de construir mais clareza sobre o futuro que quer ajudar a tornar possível e colocando essa visão em diálogo com os outros.
*Marina Cançado e Daniela Rogatis são cofundadoras da Transitions, organização que trabalha com tomadores de decisão na compreensão das grandes transições que estão reconfigurando o mundo e na construção de caminhos de futuro para setores estratégicos da economia brasileira.





