Amburana, cabreúva, grápia, jequitibá, pau-brasil. Madeiras nativas brasileiras não chegam a ser novidade nas barricas de envelhecimento de cachaça. Agora, porém, elas estão conquistando espaço na produção de outros destilados, como uísque, gim e rum — deixando sua marca até nos vinhos e nas cervejas.
Em busca de novos aromas e sabores, produtores exploram essa diversidade para criar bebidas com personalidade própria. As experiências já rendem reconhecimento internacional e levam edições limitadas a ganhar lugar fixo nos catálogos.
Nos arredores de Belo Horizonte, em Minas Gerais, a destilaria Lamas matura seus uísques em carvalho, como determina a legislação, mas tem apostado nas madeiras brasileiras na etapa final.
Luciana Lamas, no comando da empresa, conta ao NeoFeed que começou a experiência com edições limitadas de single malt, finalizadas em barricas de putumuju, angico, sassafrás e pau-brasil.
Os quatro primeiros lotes, 10,1 mil garrafas ao todo, já estão esgotados. Um deles foi do Bicentennial Alliance, que passou pelo pau-brasil e alcançou 94,5 pontos na Jim Murray’s Whisky Bible 2025-2026, um dos guias especializados mais conceituados do mundo.
Com o sucesso de público e crítica, Luciana tomou coragem para lançar duas linhas contínuas, uma finalizada em amburana e outra, em bálsamo. No e-commerce da marca, ambas custam R$ 220 a garrafa. Mas ela já quer ir mais longe.
Um single malt finalizado em barril misto, que mescla carvalho americano e cinco madeiras brasileiras, está prestes a ser lançado no Brasil — Jim Murray deu nota 94,5 para o rótulo.
Além disso, três uísques que passam por pau-brasil, putumuju e ipê serão postos à venda com exclusividade nas lojas Duty Free dos aeroportos de Guarulhos, Confins e Galeão. “São espaços muito propícios para que as madeiras brasileiras ganhem o mundo”, aposta a empresária.
Na pequena Monte Belo do Sul, na Serra Gaúcha, as tábuas Made in Brazil têm gerado muito serviço para os tanoeiros Eugênio e Mauro Mesacaza, pai e filho. Boa parte das encomendas vem dos alambiques, mas há cada vez mais clientes do vinho interessados nelas.
Um deles é o francês Gaspar Desurmont. Produtor dos vinhos Vinhética em Santana do Livramento, ele já trabalhou com 15 espécies. O jequitibá-rosa confere frescor à uva Sauvignon Blanc, enquanto o ipê-amarelo traz notas de mel ao corte de Arinto e Alvarinho, diz ao NeoFeed.
Depois de degustar os vinhos de Desurmont, Giovanni Ferrari, da vinícola Arte Viva, também embarcou nas madeiras nacionais. Para ele, elas trazem uma paleta aromática de especiarias que conversa muito bem com a cozinha brasileira. “O cravo, a canela, o cominho e o coentro são aromas ligados à nossa terra”, defende o vinhateiro ao NeoFeed.
Vizinha da tanoaria Mesacaza, Caroline Gonzatti está à frente da vinícola 6 Mãos e entrou na onda meio sem querer. Em 2022, sua primeira safra, um corte que viraria um espumante rosado, revelou uma leve oxidação.
“Não quis fazer intervenção para corrigir o problema, aí o Mauro e o Giovanni me sugeriram passar o vinho por barrica de cabreúva”, conta ao NeoFeed.
Se deu certo? Hoje, ela tem barrica de quatro madeiras brasileiras e seus rótulos estão na carta do restaurante paulistano Tuju, triestrelado pelo Guia Michelin.
Terceira geração de tanoeiros, Mauro Mesacaza soube, pelo avô, que vinha das matas nativas da Serra Gaúcha a madeira das barricas onde os imigrantes envelheciam seu vinho.
“Na época, faltava conhecimento sobre como trabalhar essas madeiras, tanto que os mais velhos, até hoje, têm uma certa resistência a elas”, avalia ao NeoFeed. Entre os jovens, porém, a história é outra — e não faltam exemplos dos mais variados segmentos.
Felipe Jannuzzi, que produz o gim Virga com mais três amigos desde 2015, usa cachaça envelhecida em dorna de jequitibá-rosa na formulação. “Em geral, as pessoas só consideram os botânicos como ingredientes, mas a cachaça gera um gim mais complexo, com notas de fruta”, define ao NeoFeed.
Em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, Vicente Bastos Ribeiro, proprietário da Fazenda Soledade, já tinha vasta experiência com as madeiras nacionais no envelhecimento de suas cachaças quando transferiu o know-how para o rum. O rótulo passa por tonéis de ipê, madeira que, segundo ele, amacia destilados.
Evandro Weber, CEO da Weber Haus, também consolidou as madeiras brasileiras nas cachaças antes de chegar ao rum e ao gim. Um de seus rótulos, o Rum 8 Anos, passa por seis madeiras, três delas nativas: amburana, bálsamo e sassafrás. “O bálsamo traz funcho, anis e erva-doce, e o sassafrás, canela e frutas secas. Ficou um rum bem diferente”, define ao NeoFeed.
Outra invenção de Weber é a cerveja estilo Barley Wine, com 12,5% de teor alcoólico, que passa 30 dias em barril de amburana que já foi de cachaça. “É uma cerveja forte. A madeira passa um pouco de baunilha e acentua o caramelo”, explica.
Habitué em feiras internacionais, Weber conta que o mundo já está de olho nos troncos de nossas árvores: “Quando estive nos Estados Unidos, provei um bourbon finalizado em amburana. Sempre que ofereço essas bebidas em degustações, os estrangeiros dizem: “Wow, what is this?”.
Nossas madeiras não servem só para barricas. O mixologista Laércio Zulu aproveita as cascas e fragmentos, os chamados chips, para fabricar sua linha de bitters artesanais. O Orange toma emprestadas as notas de baunilha da amburana, conta ao NeoFeed. No Aromático, entram cascas de pau-ferro e de cajueiro.
Impossível falar sobre madeiras brasileiras sem pensar em uma palavra fundamental: rastreabilidade. Mauro Mesacaza explica ao NeoFeed que há várias camadas de segurança. Os fornecedores, que não podem ter qualquer pendência com o Ibama, são obrigados a apresentar o Documento de Origem Florestal (DOF) das toras, o que comprova todo o caminho que elas percorrem até a serraria.
“Quando as toras chegam à serraria, nosso caminhão já está esperando. Meu time acompanha pessoalmente enquanto elas são serradas”, ele diz.
Tudo indica que o movimento está só no começo. Gaspar Desurmont, o vinhateiro francês, tem um lote de timborana e outro de mandioqueira no pátio da tanoaria Mesacaza. As tábuas, vindas do Pará, precisam passar dois anos sob sol e chuva, para curar, antes que possam ser transformadas em barris.
São nomes que ainda parecem estranhos, mas, em breve, poderão estampar muitos rótulos por aí. O carvalho que se cuide.





