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Prefeito de Ourinhos é cassado pela Câmara após sessão de quase 11 horas

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Guilherme Gonçalves teve mandato de prefeito de Ourinhos cassado por ampla maioria de votos no Legislativo (Foto: Divulgação)

A Câmara Municipal de Ourinhos cassou nesta quarta-feira (2), após quase 11 horas de sessão, o mandato do prefeito Guilherme Andrew Gonçalves da Silva (Podemos). O julgamento terminou com 13 votos favoráveis à perda do cargo e apenas dois contrários – entre eles o do irmão do prefeito, vereador João Gonçalves (PP).

Com a decisão, Guilherme deixa definitivamente a Prefeitura de Ourinhos e encerra de forma dramática uma trajetória política que ganhou repercussão nacional justamente por sua origem profissional.

Aos 18 anos, depois de deixar o trabalho rural, ele foi aprovado em concurso público para atuar na coleta de lixo do município. Anos depois, formado em Gestão Pública, entrou para a política e foi eleito vereador em 2020. Em 2024, conquistou a Prefeitura e passou a ser apresentado como o primeiro ex-coletor de lixo do país a chegar ao cargo de prefeito.

O que diz o decreto da cassação

O julgamento realizado pela Câmara teve como base uma denúncia apresentada contra o prefeito e analisada por uma Comissão Processante criada especificamente para investigar o caso.

Segundo o decreto legislativo nº 3/2026, os vereadores consideraram que as acusações eram procedentes. Entre as irregularidades apontadas está a suspeita de que o prefeito tenha tomado uma decisão contrária ao que determina a lei e deixado de agir para proteger interesses e recursos do município que estavam sob responsabilidade da Prefeitura.

O documento informa ainda que Guilherme teve direito de apresentar sua defesa durante o processo e que, ao final da apuração, a Comissão Processante concluiu que as acusações deveriam prosseguir. No julgamento, os vereadores entenderam que a conduta atribuída ao prefeito se enquadrava nas infrações previstas na legislação que trata da responsabilidade de prefeitos e na Lei Orgânica de Ourinhos.

As acusações estão relacionadas a suspeitas de fraude e outras irregularidades em um contrato de mais de R$ 42 milhões firmado entre a Prefeitura de Ourinhos e o Instituto de Gestão Educacional e Valorização do Ensino (Igev) para a prestação de serviços na área da educação infantil.

Defesa diz que recorrerá da decisão

Guilherme acompanhou a sessão de julgamento de forma remota, por meio da transmissão da Câmara Municipal. Depois da proclamação do resultado, o advogado Joel de Matos Pereira afirmou que a defesa pretende recorrer da decisão no Judiciário.

“O julgamento é político e tem que ser respeitado. Encerra-se uma etapa na Câmara e abre-se uma no Judiciário. O que se vai discutir na Justiça é a legalidade do ato, o cumprimento do devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa”, declarou o advogado.

O presidente da Câmara, Cícero Investigador (Republicanos), afirmou que o Legislativo cumpriu todas as etapas previstas no procedimento e associou a decisão à insatisfação da população. “Nós cumprimos todos os ritos. O julgamento reflete o sentimento de cobrança e insatisfação da população de Ourinhos”, afirmou.

Prefeito já havia sido afastado pela Justiça

A cassação ocorre pouco mais de dois meses depois de Guilherme ter sido afastado judicialmente da Prefeitura. Desde 1º de julho, o vice-prefeito Alexandre Zóio (PL) já exerce a chefia do Executivo de forma interina.

O afastamento ocorreu após a Justiça de Ourinhos atender a um pedido do Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) em uma ação civil pública por improbidade administrativa relacionada às suspeitas envolvendo o contrato com o Igev.

Agora, com a cassação confirmada pelo Legislativo, Alexandre Zóio deverá assumir definitivamente a Prefeitura. De acordo com a Câmara, a posse está prevista para a próxima quarta-feira (9), durante a sessão ordinária do Legislativo.

O desfecho político teve ainda um componente judicial nesta quarta-feira. No mesmo dia em que perdeu o mandato na Câmara, Guilherme sofreu outra derrota nos tribunais: o Supremo Tribunal Federal negou recurso contra a decisão que havia determinado seu afastamento da Prefeitura.

Na prática, o ex-prefeito passa a enfrentar duas frentes distintas. No campo político-administrativo, a Câmara concluiu pela cassação de seu mandato. No Judiciário, permanece válida a decisão que determinou seu afastamento, enquanto a defesa anuncia que pretende questionar a legalidade do processo legislativo e buscar a reversão da cassação.

Cassado, Guilherme diz que pode voltar à coleta de lixo

Nas redes sociais, Guilherme reagiu à perda do cargo com uma mensagem que também recupera sua trajetória antes da política. “Eles podem tirar de mim o cargo, mas vou continuar sendo o Guilherme. Se precisar aí, conta comigo”, escreveu.

Em outra publicação, demonstrou incerteza sobre os próximos passos profissionais e chegou a mencionar a possibilidade de retornar à atividade que marcou o início de sua vida profissional. “Vamos ver agora o que eu vou fazer da vida. Eu não sei com que eu vou trabalhar. Pode ser que eu volte com a coleta, trabalhe de Uber. Acredito que logo estarei de volta para a Prefeitura”, afirmou.



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