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Trocando o pneu com o marketing em movimento

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Existe uma frase, frequentemente atribuída ao economista Joseph Schumpeter, que compara a gestão de uma empresa à tarefa de trocar o pneu de um carro em movimento. Independentemente de quem a tenha dito pela primeira vez, dificilmente encontraremos uma metáfora que represente melhor o momento vivido pelo marketing. Durante muito tempo, essa imagem traduzia o desafio da transformação digital. As empresas precisavam continuar operando enquanto aprendiam a lidar com a internet, as redes sociais, os smartphones e um consumidor cada vez mais conectado.

Hoje, porém, a realidade é ainda mais complexa. Não estamos apenas trocando o pneu. Fazemos isso enquanto o carro acelera, a estrada muda de direção e o próprio veículo recebe novas tecnologias durante a viagem. A inteligência artificial tornou essa percepção ainda mais evidente e em poucos meses surgiram ferramentas capazes de criar textos, imagens, vídeos, pesquisas, campanhas e análises que antes exigiam dias de trabalho. O que parecia uma inovação distante rapidamente passou a fazer parte da rotina das empresas e seria um equívoco imaginar que a tecnologia passou a fazer marketing sozinha.

Na verdade, quanto mais acessíveis se tornam as ferramentas, mais valioso passa a ser aquilo que elas não conseguem substituir, que são repertório, pensamento estratégico, capacidade de formular boas perguntas, sensibilidade para compreender pessoas e discernimento para tomar decisões.

A tecnologia amplia capacidades, porém continua sendo incapaz de substituir propósito, visão de negócio e relacionamento. Essa mudança também transformou profundamente o comportamento do consumidor, que deixou de ser apenas destinatário das mensagens para se tornar protagonista da comunicação. Ele pesquisa antes de comprar, compara preços em segundos, consulta avaliações, produz conteúdo, influencia outras pessoas e cobra coerência entre o discurso das marcas e suas atitudes.

Se antes a reputação era construída principalmente pela publicidade, hoje ela é construída pela experiência. Por exemplo, enquanto uma campanha desperta interesse, a experiência é que consolida a confiança. Essa nova realidade exige das empresas algo que vai muito além da adoção de novas ferramentas, exige uma mudança de mentalidade. Pois aprender deixou de ser uma etapa da carreira para se tornar parte da rotina. Não existe mais formação concluída, o que existe é aprendizado contínuo. E quem acredita que já sabe o suficiente começa, sem perceber, a perder relevância.

Essa reflexão vale para profissionais de marketing, publicidade, vendas, gestão e praticamente todas as áreas impactadas pela transformação digital. Em um ambiente que muda diariamente, conhecimento deixa de ser um diferencial competitivo e passa a ser condição para permanecer competitivo. Ao mesmo tempo, vivemos uma disputa silenciosa pela atenção das pessoas. Nós nunca produzimos tanto conteúdo, assim como nunca tivemos tantos canais de comunicação. E, paradoxalmente, nunca foi tão difícil conquistar alguns segundos de atenção genuína. O desafio já não é simplesmente aparecer, é ser relevante.

Por isso, a criatividade continua sendo um dos principais ativos das organizações. Não apenas a criatividade associada a uma boa campanha ou a uma peça publicitária memorável, mas aquela capaz de conectar dados, comportamento, cultura, tecnologia e estratégia para resolver problemas concretos e gerar valor para as pessoas. Talvez esse seja o maior desafio do marketing contemporâneo, que se encontra menos preocupado em acompanhar modismos e mais comprometido em compreender pessoas, menos fascinado pelas ferramentas e mais atento aos problemas que elas ajudam a resolver.

A inteligência artificial continuará evoluindo e novas plataformas surgirão; os algoritmos mudarão e os formatos de comunicação continuarão se reinventando. O que dificilmente mudará é a importância da confiança. Pessoas continuam comprando de marcas nas quais acreditam, continuam valorizando empresas que entregam aquilo que prometem, continuam escolhendo organizações que conseguem estabelecer relações verdadeiras, mesmo em um ambiente cada vez mais digital.

Seguiremos, portanto, trocando o pneu com o carro em movimento. A diferença é que, hoje, não prosperam necessariamente aqueles que correm mais rápido, prosperam aqueles que conseguem aprender enquanto avançam, adaptar-se sem perder sua essência e utilizar a tecnologia para fortalecer aquilo que sempre esteve no centro do marketing: as pessoas.

 

 

Silvio Soledade é vice-presidente de Relações com Agências da ADVB-SP, sócio da PlanoGestão, consultoria especializada em gestão para empresas da economia criativa. Atua como conselheiro do CONAR, vice-presidente de Expansão e Mercados Regionais da APP Brasil, vice-presidente financeiro da ANAMID e Community Manager da LEAG Agency, rede internacional de cooperação entre agências independentes.

 

 

 

* As ideias e opiniões expressas nos artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores, não refletindo, necessariamente, as opiniões da ADVB. Para publicar um artigo ou matéria neste Portal ADVB, envie para redacao@advb.org para aprovação da publicação.



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