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O crescimento patrimonial do brasileiro não foi acompanhado pelo cresciment…

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Nas últimas décadas, o Brasil passou por transformações relevantes na forma como indivíduos e famílias constroem patrimônio. O acesso ao crédito, a expansão do consumo, a digitalização da economia e o crescimento do comércio eletrônico alteraram profundamente o comportamento financeiro dos brasileiros.

Hoje, uma família típica possui uma quantidade de bens materiais substancialmente maior do que possuía há vinte anos. Não estamos falando apenas de imóveis e veículos.

Esse movimento produziu uma transformação silenciosa: as famílias passaram a acumular mais patrimônio mas não necessariamente desenvolveram a mesma maturidade em relação à proteção desse patrimônio.

Existe, portanto, uma contradição importante na dinâmica financeira contemporânea: o crescimento da riqueza material ocorreu em velocidade superior ao crescimento da cultura de proteção.

Em outras palavras, aprendemos a comprar mais rapidamente do que aprendemos a proteger. E essa diferença pode representar uma das vulnerabilidades patrimoniais mais relevantes da atualidade.

Historicamente, patrimônio era associado principalmente a poucos ativos de maior valor como imóveis; veículos ou aplicações financeiras. Hoje essa composição é muito mais ampla. A economia digital produziu uma expansão significativa dos ativos presentes no cotidiano das famílias. Grande parte desse crescimento ocorreu quase de forma imperceptível.

Uma pessoa compra um celular; depois um notebook; depois uma televisão; depois uma bicicleta; depois um smartwatch; depois equipamentos para trabalho; depois eletrodomésticos. Isoladamente, cada aquisição parece relativamente pequena. Mas quando observadas de forma agregada, representam valores expressivos.

O problema é que a percepção das pessoas normalmente permanece ancorada em uma visão patrimonial antiga. Elas continuam associando patrimônio apenas aos bens tradicionalmente reconhecidos como “grandes ativos”. O resultado é uma subestimação importante do patrimônio efetivamente acumulado.

O crescimento do mercado confirma a expansão patrimonial

O próprio comportamento econômico brasileiro evidencia esse movimento. Dados recentes do varejo e do comércio eletrônico demonstram crescimento contínuo do consumo de bens duráveis e produtos tecnológicos nos últimos anos. Paralelamente, a digitalização ampliou o acesso a equipamentos anteriormente considerados de alto padrão.

O setor segurador também reflete esse avanço. Dados recentes da Superintendência de Seguros Privados (SUSEP) indicam que o mercado supervisionado ultrapassou R$ 435 bilhões em arrecadação anual, mantendo trajetória consistente de crescimento. Esse movimento demonstra aumento gradual da consciência sobre instrumentos de proteção financeira.

Mas existe um dado igualmente importante que é o crescimento da proteção ainda ocorre em ritmo inferior ao crescimento patrimonial. Isso significa que a expansão do patrimônio das famílias continua aumentando a exposição financeira.

O paradoxo moderno: patrimônio maior, sensação de risco menor

À primeira vista, parece contraditório. Quanto mais patrimônio acumulado uma pessoa possui, maior deveria ser sua preocupação com proteção.

Mas frequentemente ocorre exatamente o oposto.

Isso possui explicação na economia comportamental. Pesquisadores identificam um fenômeno conhecido como viés de normalidade. Ele descreve a tendência humana de acreditar que o futuro será semelhante ao passado.

Em termos práticos significa aquelas famosas frases “Nunca aconteceu comigo.”, “Nunca perdi nada.”, “Sempre deu certo.”.

Esse padrão cria uma falsa sensação de estabilidade. Como perdas relevantes costumam ser eventos raros, o cérebro passa a tratá-las como praticamente impossíveis.

O problema é que baixa frequência não significa baixa gravidade. O risco invisível dos pequenos patrimônios acumulados. Existe outra característica importante do patrimônio moderno: sua fragmentação. No passado, grande parte da riqueza familiar estava concentrada em poucos ativos.

Hoje ela está distribuída entre dezenas de itens. Isso cria uma percepção enganosa.

Perder um smartphone parece algo pequeno. Perder um notebook também. Perder uma televisão talvez pareça administrável. Mas perder simultaneamente diversos ativos em um evento como roubo, incêndio, enchente ou dano elétrico muda completamente a equação. A soma das perdas frequentemente surpreende as famílias.

Porque, na prática, elas nunca haviam calculado quanto efetivamente possuíam. O patrimônio invisível: quando tecnologia passa a valer tanto quanto bens tradicionais. Existe ainda um componente relativamente novo nessa discussão. O patrimônio contemporâneo tornou-se cada vez mais digital.

Hoje muitos indivíduos possuem ativos relacionados a equipamentos profissionais; plataformas de trabalho; bancos de dados; arquivos; equipamentos criativos; infraestrutura de produção de conteúdo e ferramentas digitais.

Em muitos casos, a renda depende diretamente desses recursos.

A perda deixa de representar apenas reposição material. Passa a comprometer capacidade produtiva. Um computador perdido pode significar perda de trabalho e interrupção operacional; atraso de projetos com redução de receita.

O impacto financeiro ultrapassa o valor do equipamento.

A falsa economia da não proteção

Existe um comportamento bastante comum entre consumidores brasileiros, evitar pequenos custos imediatos enquanto assumem grandes exposições futuras.

A lógica geralmente ocorre no modo “economizar agora” essa decisão produz sensação imediata de ganho financeiro. Mas ignora uma variável essencial, o custo potencial da perda.

Sob uma ótica financeira mais sofisticada, proteger patrimônio raramente deve ser analisado apenas como despesa, mas deve ser analisado como transferência de risco. O consumidor não está pagando para evitar perdas. Está pagando para reduzir incertezas. Essa diferença é fundamental.

A nova geração já começa a mudar essa lógica

Existe uma transformação comportamental gradual em andamento. Consumidores mais jovens demonstram maior interesse em previsibilidade, segurança financeira, planejamento e proteção integrada.

Isso ocorre porque novas gerações cresceram em ambientes marcados por crises econômicas; pandemia; volatilidade; transformações digitais aceleradas. Essas experiências aumentaram a percepção sobre fragilidade financeira.

O resultado é uma mudança de mentalidade com menos foco apenas em aquisição; mais foco em preservação.

O futuro da proteção patrimonial será mais personalizado

O avanço tecnológico também alterará profundamente o setor.

Inteligência artificial, análise preditiva e personalização tendem a produzir novos modelos de proteção adaptados ao comportamento individual.

A lógica futura será menos baseada em produtos padronizados e mais baseada em ecossistemas personalizados.

O foco migrará gradualmente de proteção genérica para proteção contextual.

O Brasil passou por uma expansão importante do patrimônio das famílias.

Compramos mais. Acumulamos mais. Digitalizamos mais.

Mas ainda protegemos menos do que deveríamos. A questão central talvez não esteja na capacidade de construir patrimônio. Ela está na capacidade de preservá-lo. Porque riqueza não é apenas aquilo que conseguimos conquistar. Riqueza é também aquilo que conseguimos manter.

E talvez a maturidade financeira comece exatamente quando entendemos essa diferença.

Jorge Eduardo de Souza é Diretor-Presidente da Única Seguros, especialista em gestão de riscos e proteção patrimonial, com certificação internacional pela AIRM. Atua em entidades como ABGR, ANSP e SINCOR-SP, contribuindo para o avanço técnico do setor de seguros no Brasil. Professor e palestrante, tem atuação destacada na formação executiva em seguros, riscos e benefícios corporativos.

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* As ideias e opiniões expressas nos artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores, não refletindo, necessariamente, as opiniões da ADVB. Para publicar um artigo ou matéria neste Portal ADVB, envie para redacao@advb.org para aprovação da publicação.



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