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CazéTV entra na mira de reguladores por publicidade de bets durante a Copa

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Bloomberg — A CazéTV, um dos canais de transmissões ao vivo mais assistidos do YouTube no mundo, está cada vez mais no foco dos órgãos reguladores no Brasil, depois que o canal promoveu intensamente a publicidade de apostas para jovens durante a Copa do Mundo.

A CazéTV atraiu patrocinadores de primeira linha e até espectadores de outros países em busca de soluções com VPN, já que é o único do YouTube no mundo onde os torcedores podem assistir gratuitamente às 104 partidas da Copa.

O canal vem quebrando recordes de audiência no YouTube, desafiando as emissoras tradicionais e transformando a maneira como milhões de jovens brasileiros acompanham esportes ao vivo.

Sua equipe de transmissão também fez comentários constantes sobre odds — as probabilidades de um evento se confirmar — e apostas ao longo da Copa.

Esse tipo de discussão já se tornou comum para telespectadores na Europa e nos Estados Unidos, conforme as empresas de apostas se tornaram patrocinadoras importantes das transmissões esportivas.

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Uma reportagem do Washington Post publicada neste ano constatou média de um anúncio de apostas a cada quatro minutos durante jogos exibidos na televisão nos EUA.

Os críticos afirmam que essa enxurrada de publicidade está manchando o esporte e apontam para casos de atletas americanos presos sob acusação de manipular estatísticas para influenciar mercados de apostas.

Para os brasileiros, a constante conversa sobre apostas em um canal voltado ao público jovem também gerou incômodo. As apostas esportivas foram legalizadas no Brasil em 2018, mas decolaram de fato na última década com o surgimento de fintechs que passaram a oferecer cartões de crédito a pessoas que nunca haviam tido acesso a esse tipo de serviço. O pix também acabou facilitando, ainda que de forma não intencional, o fluxo de apostas online.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou a impor novas regras em 2023 para tentar conter o setor de apostas, que, segundo o BC e varejistas, vem desviando recursos que antes eram destinados ao consumo e ao crescimento econômico.

Leia também: Copa das apostas: plataformas movimentam US$ 5 bi e geram perdas e ganhos milionários

Nesse contexto, as transmissões da principal competição do futebol mundial pela CazéTV se tornaram um tema de grande debate em um país apaixonado pelo esporte.

A controvérsia envolvendo apostas ameaça ofuscar o que deveria ser o grande momento do canal de quatro anos de existência, criado para apresentar uma abordagem irreverente e jovem da cobertura esportiva.

“As bets estão entrando com fôlego e com apetite para estar presente no mundo do esporte e do entretenimento”, disse Eduardo Halpern, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing no Rio de Janeiro. No entanto, no caso da CazéTV, “acabou chamando a atenção da sociedade como um todo, porque acaba acontecendo de maneira muito agressiva.”

A CazéTV nasceu a partir de uma transmissão ao vivo na Twitch comandada por Casimiro Miguel, um comunicador brasileiro conhecido pelo jeito falante, que conquistou seguidores reagindo de forma bem-humorada — e frequentemente usando palavrões — a vídeos na internet. Ele é o rosto do canal, enquanto a empresa de mídia esportiva LiveMode atua nos bastidores, responsável por garantir os direitos de transmissão da Copa do Mundo.

Casimiro fala sobre as partidas usando a linguagem típica da internet, soando mais como um gamer jogando Call of Duty do que como um apresentador esportivo tradicional.

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O canal é operado pela LiveMode, que conta com investidores como a General Atlantic e a divisão de private equity da XP. Em maio, Cristiano Ronaldo se tornou acionista da LiveModeTV, divisão internacional do grupo.

No meio da cobertura descontraída da CazéTV, reguladores brasileiros afirmam que foram exibidos anúncios que criavam um senso de urgência para apostar, além de avisos sobre riscos e restrições de idade apresentados em letras pequenas demais para serem lidas.

Pela legislação brasileira, anúncios de apostas devem conter advertências claras sobre os riscos do jogo, incluindo dependência, e não podem ser direcionados a jovens nem apresentar as apostas como forma de enriquecimento ou investimento.

A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) abriu, em 24 de junho — dia em que o Brasil venceu a Escócia e encerrou a fase de grupos —, uma investigação sobre possíveis irregularidades em anúncios de apostas esportivas exibidos pela CazéTV. O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) também está analisando promoções de apostas lidas por apresentadores e comentaristas.

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) excluiu a CazéTV do processo de licitação pelos direitos de transmissão da Copa do Brasil entre 2027 e 2030, afirmando que a empresa não atendia aos critérios técnicos e financeiros. A entidade não citou especificamente a publicidade de apostas como motivo da decisão.

Enquanto isso, o Ministério da Fazenda solicitou que quatro operadoras de apostas e duas empresas de mídia prestassem esclarecimentos sobre anúncios veiculados durante a Copa do Mundo que, segundo o governo, violaram as regras brasileiras para publicidade do setor. As propagandas em questão já foram retiradas do ar, e o caso pode resultar em multas de até R$ 2 bilhões.

Na quinta-feira, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse a jornalistas que o governo publicará, na sexta-feira, dois decretos estabelecendo novas regras para as plataformas de apostas online.

Os anúncios deverão ser acompanhados do aviso: “Ministério da Fazenda adverte: Apostar faz você perder dinheiro, apostar pode causar dependência e aposta não é investimento”. Além disso, haverá tolerância zero para propagandas direcionadas a crianças e adolescentes, afirmou o ministro.

Em resposta por escrito aos reguladores, a CazéTV informou que passará a adotar um padrão mais específico e conservador para anúncios relacionados a apostas em suas transmissões, aproximando-os de um formato publicitário mais tradicional.

O canal também afirmou que seus anúncios cumprem a legislação brasileira, as diretrizes do Conar e as melhores práticas do setor, além de trabalhar apenas com operadores licenciados pelo Ministério da Fazenda.

Linguagem nova

O canal no YouTube foi lançado em 2022, quando transmitiu 22 partidas da Copa do Mundo daquele ano após a Globo abrir mão da exclusividade dos direitos de transmissão em razão das restrições no orçamento provocadas pela pandemia.

Os fundadores da LiveMode, Edgar Diniz e Sérgio Lopes, conheceram Casimiro Miguel — hoje com 32 anos — quando ele trabalhava na antiga empresa deles, o Esporte Interativo.

Parte do sucesso da CazéTV está na forma como reinventou a experiência de assistir esportes. Em vez de concentrar a cobertura apenas na partida, o canal produz horas de programação antes e depois dos jogos, incentiva a interação constante por meio do chat ao vivo do YouTube e utiliza um tom muito mais informal do que o da televisão tradicional.

“Eles conseguiram trazer uma linguagem mais arejada, mais oxigenada e num tipo de conteúdo que tinha um formato já muito padronizado há décadas”, afirmou Halpern.

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Construída em torno da popularidade de Casimiro Miguel, a CazéTV se tornou uma das marcas de mídia esportiva mais influentes do Brasil. Em 7 de julho, o canal se aproximava dos 40 milhões de inscritos no YouTube — cerca de 11 milhões a mais do que quando a Copa começou, em 11 de junho. Somando TikTok e Instagram, a marca também ultrapassa 33 milhões de seguidores.

Além do YouTube, suas transmissões também são distribuídas por plataformas como Prime Video, Disney+, Samsung TV Plus e Sky+.

O formato também atraiu anunciantes. Segundo reportagens da imprensa brasileira, a CazéTV e o YouTube venderam pacotes de patrocínio para a Copa do Mundo que somaram aproximadamente R$ 2 bilhões.

Diferentemente da televisão convencional, onde os comerciais ficam concentrados principalmente nos intervalos da partida, a CazéTV insere anúncios ao longo de horas de cobertura ao vivo, oferecendo às marcas exposição antes, durante e depois dos jogos.

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“O mais atrativo é a praticidade”, disse Vinnícius Morelli, de 30 anos, diretor de uma empresa de equipamentos de endoscopia, que tem acompanhado os jogos da Copa na CazéTV. “É uma boa experiência porque temos a possibilidade de ver qualquer jogo de forma fácil, no celular ou no computador, e de qualquer lugar.”

Morelli acompanha Casimiro desde a época em que ele fazia transmissões na Twitch e elogia o estilo descontraído da CazéTV. Ainda que a publicidade de apostas no canal o tenha incomodado, ele avalia que as empresas do setor também promovem anúncios na televisão aberta.

“É um problema geral da época”, afirmou.

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