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história e cultura do país virou sensação da Copa

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Cabo Verde chegou à Copa do Mundo de 2026 como uma das grandes histórias do torneio. Com pouco mais de meio milhão de habitantes espalhados por um arquipélago de dez ilhas no Oceano Atlântico, a seleção dos Tubarões Azuis estreou em Mundiais neste ano e rapidamente transformou a participação inédita em um feito histórico: empatou os três jogos da fase de grupos, avançou à segunda fase e tornou-se a menor nação do planeta a alcançar a fase eliminatória de uma Copa do Mundo.

O desempenho da equipe comandada por Bubista é o capítulo mais recente de uma ascensão construída longe dos holofotes. Nas últimas décadas, Cabo Verde deixou de ser uma seleção periférica do futebol africano para se tornar presença frequente nas fases finais da Copa Africana de Nações e revelar jogadores para ligas europeias. O goleiro Vozinha, um dos rostos mais conhecidos do elenco, simboliza uma geração que passou a colocar o pequeno país lusófono no mapa do futebol internacional.

Como o futebol se tornou o principal esporte de Cabo Verde

A relação dos cabo-verdianos com a bola, no entanto, é bem mais antiga. O futebol chegou às ilhas ainda no início do século XX, acompanhando a intensa circulação marítima entre Cabo Verde, Portugal e outros países europeus. Em 1904, mesmo ano da fundação da Fifa, Fortunato Levy, natural da Praia, participou da fundação do Benfica e tornou-se seu primeiro capitão, sendo apontado como o primeiro cabo-verdiano a atuar no exterior.

Décadas depois, outros jogadores seguiriam o mesmo caminho, consolidando uma ligação histórica entre o arquipélago e o futebol português.

A força do futebol cabo-verdiano vai muito além da seleção nacional. Em um arquipélago onde não há estradas ligando as ilhas (e algumas nem sequer possuem aeroporto em funcionamento), o Campeonato Nacional foi moldado pela geografia.

Os clubes primeiro disputam torneios regionais em suas próprias ilhas para só depois brigarem pelo título nacional, em uma competição que exige viagens de barco e avião e reúne equipes formadas, em muitos casos, por jogadores que conciliam a rotina nos gramados com empregos em outras áreas.

Vozinha, goleiro de Cabo Verde. (Foto por RONALDO SCHEMIDT / AFP)

O esporte também guarda laços curiosos com o Brasil. Entre os campeões regionais e nacionais aparecem clubes chamados Corinthians, Cruzeiro, Botafogo, Figueirense e Palmeira (atual campeão cabo-verdiano), inspirados em equipes brasileiras e portuguesas, reflexo de uma relação cultural que atravessou o Atlântico. Em Cabo Verde, o futebol profissional ainda é uma realidade distante para a maioria dos atletas. O talento costuma deixar cedo as ilhas em direção a Portugal e outros centros do futebol europeu.

Seleção de Cabo Verde: a ascensão dos Tubarões Azuis até a Copa de 2026

A seleção de Cabo Verde, conhecida como Tubarões Azuis, tornou-se um dos principais exemplos de crescimento do futebol africano nos últimos anos. Depois de disputar sua primeira partida internacional em 1978 e se filiar à Fifa em 1986, a equipe passou a evoluir com uma geração de jogadores formados tanto no arquipélago quanto na numerosa diáspora cabo-verdiana espalhada por países como Portugal, Países Baixos e Estados Unidos.

O progresso ficou evidente com as campanhas até as quartas de final da Copa Africana de Nações em 2013 e 2024. Em 2025, conquistou sua primeira classificação para uma Copa do Mundo e, na edição de 2026, fez história ao avançar à segunda fase.

Vale destacar que, dos 11 titulares no empate em 0 a 0 contra a Arábia Saudita, na sexta-feira, em Houston, seis nasceram fora do país: três nos Países Baixos e os demais na Irlanda, na França e em Portugal. Isto é, o sucesso vem sendo construído há algum tempo, uma vez que o país tem voltado as atenções para sua grande diáspora para recrutar jogadores.

O basquete é considerado o segundo esporte mais popular do país e também possui um sistema de campeonatos organizado por ilhas. A geografia moldada pelo oceano favoreceu ainda o crescimento de esportes ligados ao vento e ao mar, como o kitesurfe e o windsurfe, especialmente nas ilhas do Sal e da Boa Vista, destinos cada vez mais procurados por turistas e praticantes internacionais. Vôlei de praia, futsal, tênis e até o críquete, introduzido por britânicos que frequentavam o arquipélago no final do século XIX, permanecem presentes no cotidiano esportivo cabo-verdiano.

Onde fica Cabo Verde? Conheça a geografia do arquipélago africano

Localizado no Oceano Atlântico, a cerca de 500 km da costa noroeste da África, Cabo Verde é um arquipélago formado por dez ilhas de origem vulcânica, das quais nove são habitadas. Com pouco mais de 4 mil quilômetros quadrados de extensão e cerca de 562 mil habitantes, o país tem na cidade da Praia, na ilha de Santiago, seu principal centro político e populacional, enquanto Mindelo, em São Vicente, consolidou-se como uma importante referência cultural.

O relevo montanhoso marca boa parte do território, tendo o vulcão da ilha do Fogo, com quase 2,9 mil metros de altitude, como ponto mais elevado do arquipélago.

As ilhas estão divididas entre os grupos de Barlavento e Sotavento, classificação determinada pela direção dos ventos alísios que influenciam o clima local durante praticamente todo o ano. Separadas pelo mar e sem conexões terrestres entre si, elas moldaram não apenas a rotina dos cabo-verdianos, mas também a forma como o país se organiza social e esportivamente.

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O clima seco, amenizado pela influência do Atlântico, favorece o turismo, hoje uma das principais atividades econômicas do país, que também convive com uma característica singular: estima-se que existam mais cabo-verdianos vivendo no exterior do que no próprio arquipélago, em comunidades espalhadas por países como Portugal, Holanda, Estados Unidos e Brasil.

Da colonização portuguesa à independência: a história de Cabo Verde

Descoberto por navegadores portugueses em 1460 e povoado a partir de 1462, inicialmente pela ilha de Santiago, Cabo Verde ocupou durante séculos uma posição estratégica nas rotas marítimas que conectavam a Europa, a África e a América. O arquipélago tornou-se um importante entreposto comercial do Atlântico e desempenhou papel relevante no tráfico de escravizados, recebendo populações africanas trazidas do continente.

Ao longo do tempo, a convivência entre europeus e africanos deu origem a uma sociedade majoritariamente mestiça, com identidade própria e marcada pelo surgimento do crioulo cabo-verdiano, hoje presente no cotidiano da população.

Uma torcedora da seleção de Cabo Verde reage enquanto assiste à partida entre Cabo Verde e Arábia Saudita pela Copa do Mundo de 2026, em Praia, capital do país, em 26 de junho de 2026. (Foto: Jose Correia/AFP)

A luta pelo fim do domínio colonial ganhou força na década de 1950 sob a liderança de Amílcar Cabral, um dos principais pensadores e estrategistas dos movimentos de libertação africanos do século XX. Em 1956, ele fundou o PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), defendendo a autodeterminação dos dois territórios então administrados por Portugal. Cabral foi assassinado em 1973, dois anos antes de ver concretizado o objetivo pelo qual lutou.

Em 5 de julho de 1975, Cabo Verde proclamou sua independência e, desde a adoção do multipartidarismo em 1991, consolidou-se como uma das democracias mais estáveis do continente africano, com sucessivas alternâncias de poder e índices de estabilidade política que a diferenciam de parte de seus vizinhos regionais.

A cultura de Cabo Verde: morna, Kriolu e a identidade do arquipélago

A cultura cabo-verdiana é resultado de séculos de encontros entre povos africanos, colonizadores portugueses e comunidades que se espalharam pelo Atlântico ao longo da história do arquipélago. Dessa miscigenação surgiu uma identidade própria, percebida na gastronomia, na literatura, nas artes plásticas, na dança e, sobretudo, na música. Embora o português seja a língua oficial utilizada nas escolas, na administração pública e na imprensa, é o Kriolu, o crioulo cabo-verdiano, que predomina nas conversas do dia a dia e se consolidou como uma das principais marcas da identidade nacional.

A música ocupa um lugar central na vida dos cabo-verdianos. Além do batuque, do funaná e da coladeira, a morna tornou-se a manifestação artística mais conhecida do país. Com melodias suaves e letras marcadas por temas como o amor, a partida, a saudade e a emigração, o gênero foi reconhecido pela Unesco em 2019 como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

A morna também ajudou a popularizar uma palavra frequentemente associada ao arquipélago: “sodade”, expressão em crioulo que traduz o sentimento de nostalgia e ligação com a terra natal, comum em um país que possui uma diáspora maior do que a própria população residente.

A “diva dos pés descalços” Cesária Évora (Foto: AFP)

Cesária Évora

Nenhum artista contribuiu tanto para internacionalizar a cultura cabo-verdiana quanto Cesária Évora. Nascida em Mindelo, na ilha de São Vicente, no dia 27 de agosto de 1941 a cantora ficou conhecida mundialmente como a Diva dos Pés Descalços e transformou canções como “Sodade” em símbolos da identidade cabo-verdiana. Sua trajetória levou a música das ilhas a palcos de diferentes continentes e fez com que Cabo Verde passasse a ser reconhecido pela riqueza de sua produção cultural.

Cesária faleceu em dezembro de 2011 em Cabo Verde.

Brasil e Cabo Verde: uma relação histórica que atravessa o Atlântico

Brasil e Cabo Verde mantêm uma relação histórica que antecede a independência do arquipélago. Durante o período colonial português, Cabo Verde foi um importante ponto de apoio nas rotas do Atlântico e teve papel relevante no comércio entre África, Europa e Brasil. Entre 1815 e 1822, quando a corte portuguesa estava instalada no Rio de Janeiro, o arquipélago foi administrado pelo Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, tornando-se, na prática, subordinado ao governo sediado no Brasil.

Presidente Samir Xaud recebe dirigentes da Federação Cabo-Verdiana de Futebol antes da Copa. (Foto: Luciana Vermell / CBF)

Após a independência cabo-verdiana, em 5 de julho de 1975, os dois países estabeleceram relações diplomáticas e passaram a desenvolver uma parceria baseada nos laços históricos, culturais e linguísticos. Ao longo das últimas décadas, Brasil e Cabo Verde firmaram acordos de cooperação em áreas como educação, saúde, formação profissional, defesa e administração pública. Além disso, centenas de estudantes cabo-verdianos participam de programas de intercâmbio em universidades brasileiras.

Nos últimos anos, a cooperação bilateral foi ampliada com novos acordos voltados ao desenvolvimento econômico e institucional. Em 2026, os governos assinaram seis instrumentos de cooperação, incluindo iniciativas para fortalecer os setores de saúde, inovação, investimentos e segurança social, reforçando a parceria estratégica entre os dois países.

Como é Cabo Verde hoje? Economia, turismo e desenvolvimento

Turismo é principal atividade econômica de Cabo Verde (Imagem: Matthias Lemm/Pixabay)

Turismo é principal atividade econômica de Cabo Verde (Imagem: Matthias Lemm/Pixabay)

Cinquenta anos após conquistar a independência, Cabo Verde reúne estabilidade política, crescimento econômico e uma identidade cultural reconhecida mundialmente. Embora enfrente desafios comuns aos pequenos Estados insulares, como a escassez de recursos naturais e a forte dependência do turismo, o arquipélago tem apostado na diversificação da economia, com investimentos em tecnologia, economia azul (ou seja, o uso sustentável de recursos oriundos do mar), energias renováveis e inovação, aproveitando sua posição estratégica entre África, Europa e Américas.

Em 2024, o país registrou crescimento de 7,3% do PIB, impulsionado principalmente pelo turismo, setor que recebeu cerca de 1,18 milhão de visitantes e segue como um dos pilares da economia, segundo o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional.

Muito além de sua pequena dimensão territorial, Cabo Verde construiu uma trajetória marcada pela resiliência, pela herança lusófona e pela capacidade de transformar sua localização geográfica em vantagem estratégica. Seja pela cultura, pela música, pelo esporte ou pelos laços históricos com o Brasil, o arquipélago consolida-se como um dos principais exemplos de desenvolvimento e estabilidade no continente africano, projetando-se cada vez mais no cenário internacional.





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