SANTOS — Se confirmada, a safra recorde de café que se avizinha no Brasil vai recompor os estoques no mundo ao melhor nível desde 2020.
Porém, o saldo positivo em 2026 deverá ser suficiente para cobrir só duas semanas da demanda global. Para uma plena regularização, como vêm apontando especialistas, será necessário ter mais uma ou duas ótimas safras no Brasil e no mundo.
A começar pela boa notícia: as projeções para a colheita de 2025/26 no País apontam para um intervalo entre 66,7 milhões de sacas, na conta da Conab, a mais conservadora, e 75,3 milhões de sacas, na estimativa mais arrojada entre as consultorias privadas, da StoneX.
Com isso, o líquido em 2026 entre produção e consumo no mundo deve ser de cerca de 10 milhões de sacas, afirmou Oscar Schaps, presidente da divisão América Latina da StoneX, em um painel no 25º Seminário Internacional do Café, na última semana.
Seria o melhor resultado desde 2020, quando sobraram 14 milhões de sacas. Depois, seguiram-se quatro anos de déficits entre produção e consumo — somando 22,1 milhões de sacas negativas — que colaboraram para um rally histórico nas cotações.

Em 2025, o mundo já havia recuperado o terreno positivo, mas em apenas 1,8 milhão de sacas.
Agora, o respiro é maior, mas não tanto, como revelam os dados da relação estoque-uso, que, quanto mais alta, aponta para mais sobra de café. Nesse caso, além da produção e do consumo, a conta inclui estimativas de estoques de passagem.
Em 2026, a StoneX projetou essa relação em 28%. É o melhor patamar desde 2022, mas abaixo de 2020, quando foi de 35,8%. E fica abaixo de 2021, ano em que o saldo líquido foi negativo, mas, graças aos estoques de então, a relação ficou em 29,5%.
Schaps lembrou que muitos dos números nacionais sobre estoques de passagem deixaram de ser divulgados publicamente nos anos de déficit.
“Passamos a ter um problema enorme: Europa e Japão pararam de publicar seus estoques, assim como a Green Coffee Association, nos Estados Unidos. Por isso, não temos a visão completa. Para o mercado trabalhar com base em excesso, os especuladores precisam ver o café”, ponderou.


Essa visão fica ainda mais prejudicada, neste ano, por um ritmo de colheita mais lento. Segundo dados da StoneX divulgados nesta segunda-feira (25), até aqui essa etapa no Brasil alcançou cerca de 14%, abaixo dos 21% da média histórica para o período.
Além disso, no lado da demanda, o consumo seguiu crescendo nos últimos anos de déficit, a despeito da alta nos preços aos consumidores.
Também participando do painel, Claudio Delposte, analista sênior da divisão de Food & Agribusiness do RaboResearch, do Rabobank, lembrou que esse movimento foi intensificado por novos mercados, como a China, onde a rede Luckin Coffee abriu 8,6 mil novas lojas no período, totalizando 31 mil. Para se ter ideia, o Starbucks tem quase 17 mil unidades nos Estados Unidos. Na Índia, outra rede de cafeterias, a Blue Tokai, também tem crescido.
O banco holandês projeta um superávit menor em 2026, de 8,7 milhões de sacas.
Seja qual for, o saldo positivo no Brasil é bem-vindo, mas permanecerá um déficit acumulado entre 21 milhões e 22 milhões de sacas, afirmou Carlos Santana, diretor comercial da EISA Interagrícola e vice-presidente da Associação Comercial de Santos.
“Tenho dito aos clientes que a primeira reação ao superávit tende a ser baixista. Mas os números precisam ser analisados, porque 10 milhões de sacas são duas semanas do consumo mundial. E, como praticamente não há estoque, o pipeline está vazio.”
A ajuda do robusta
Segundo os especialistas, um atenuante aos baixos estoques tem sido o robusta, cujo volume vem crescendo nos principais países produtores, inclusive o Brasil.
Dois movimentos explicam essa ascensão. Em meio à alta nas cotações nos últimos anos, a indústria ajustou os blends — as misturas de cafés diferentes em uma mesma leva de torrefação — para contemplar mais robusta e, com isso, atenuar as altas nos preços aos consumidores.
Segundo Schaps, da StoneX, se até 2002 o robusta respondia por 33% do consumo global de café, agora essa proporção é de 45%.
Em paralelo, a popularidade desse café cresceu, em meio a melhorias no pós-colheita que qualificaram a produção, motivando uma campanha de reabilitação após décadas de má fama na comparação com o arábica.
Tudo isso ajudou a recompor os estoques de passagem, embora não seja possível quantificar esse movimento, afirmou o presidente da StoneX na LatAm.





