Em uma tentativa de evitar o frete mais caro causado pela guerra do Irã, a BrasilAgro segurou as vendas de soja no primeiro trimestre, o que derrubou as vendas da companhia.
No balanço que acaba de divulgar, a BrasilAgro mostrou uma receita líquida R$ 141 milhões nas operações agrícolas, uma queda de 17% na comparação com o primeiro trimestre do ano passado.
Geralmente, a BrasilAgro comercializa cerca de 70 mil toneladas de soja no primeiro trimestre. Desta vez, foram apenas 55 mil toneladas.
“O que a gente tinha decidido foi não transportar tanto, na expectativa de que a guerra iria se concluir em seis semanas”, afirmou Gustavo Lopez, CFO da BrasilAgro, em entrevista a jornalistas, citando a projeção frustrada.
Com menos soja transportada (e, portanto, menos receita), a companhia diluiu menos custos. “Além disso, continuamos com a pressão de juros sobre o capital de giro. Nossa expectativa era de um corte de 0,5 ponto percentual na Selic por parte do BC e isso não está acontecendo”, lembrou Lopez.
Nesse cenário, o prejuízo da BrasilAgro aumentou, saindo de uma perda de R$ 1 milhão nos primeiros três meses do ano passado para R$ 14 milhões.
Hedge de soja
A despeito do início pouco animador, Lopez citou fatores que trazem algum alento para os próximos meses.
Segundo ele, restam ainda 140 mil toneladas de soja a serem vendidas nesse semestre e a maior parte dessa produção está fixada tanto a um câmbio mais favorável quanto a um preço da soja em Chicago atrativo em relação aos patamares atuais.
A BrasilAgro conseguiu ficar o grão a um preço médio de R$ 117 por saca, enquanto o mercado precifica, no spot, a R$ 113 por saca. Dependendo da região, especialmente no Mato Grosso, esse preço pode ser até mais baixo, ficando abaixo de R$ 100 por saca — um reflexo do aumento do custo do frete.
Segundo o executivo, o aumento no custo de frete é de 12% a 15% na comparação com o mesmo período do ano passado. Para contorná-lo, a BrasilAgro estuda algumas estratégias de eficiência nesse transporte, considerando o frete de retorno com fertilizantes.
“O que vamos ter que fazer é agendar algumas vendas CIF, nós mesmos levando para o porto, e tentando trazer algum fertilizante. É uma gestão semana a semana, mas temos contratos para cumprir, não vamos escapar”, ressaltou Lopez.
A safra seguinte
Por ora, o aumento dos preços dos fertilizantes não afetou a BrasilAgro. A empresa já tem 69% da demanda de cloreto de potássio garantida e 43% da demanda de fosfatados para a safra 2026/27.
“Temos feito orçamentos para o próximo ano com preço de fertilizante num real mais valorizado, que impacta um pouco menos. Estaríamos com preços de reais por hectare parecidos com o do ano anterior”, avaliou.
Além do olhar atento à compra de insumos para a próxima safra, a BrasilAgro está de olho no clima para traçar a estratégia de plantio. Com a perspectiva de El Niño adiante, a companhia está repensando o plantio em áreas de transformação.
“Vamos ser um pouco mais cautelosos. Os especialistas que nos assessoram estão falando em El Niño, vendo que possivelmente pode ser um El Niño forte, o que afeta o Matopiba. Vamos ser um pouco mais cautelosos”, afirmou Lopez.
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A BrasilAgro disse que ainda enxerga um mercado ainda muito líquido para a venda de terras, mesmo em meio ao ambiente de margens apertadas dos produtores. Esse ambiente de liquidez está principalmente no Maranhão, Piauí e Bahia, de acordo com Lopez.
“Normalmente, é parte da nossa estratégia vender para os vizinhos que estão bem capitalizados e em processo de expansão”, ressaltou Lopez.
Por outro lado, o momento é menos propício em Mato Grosso, onde há um movimento de devolução de áreas de arrendamento.
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Listada na B3, a BrasilAgro está avaliada em R$ 1,9 bilhão. No ano, as ações caem 3,9%.





