ZHENGZHOU e BEIJING, China – A BYD vem aterrorizando as grandes montadoras ao redor do mundo.
Ao apostar em carros elétricos e modelos mais tecnológicos que muitos rivais (a preços competitivos), a gigante chinesa ultrapassou nomes como Ford e Nissan e chegou ao posto de sexta maior fabricante de carros do mundo no ano passado, com 4,6 milhões de veículos vendidos – sendo o Brasil seu segundo maior mercado.
Agora, com a Denza, sua marca de carros premium, a BYD decidiu cutucar o andar de cima.
A marca, que nasceu como uma joint venture entre a BYD e a Mercedes-Benz em 2011, passou a ser 100% controlada pela BYD em 2024.
A montadora alemã decidiu sair do negócio após não ver tração nas vendas – e foi vendendo sua participação para a BYD ao longo dos anos.
Agora, a BYD vê a Denza como uma peça fundamental para sua internacionalização – mesmo em um segmento onde a concorrência é ainda mais acirrada, com marcas de pedigree como Audi, BMW e Porsche.
De fato, o negócio escalou. No primeiro tri, as marcas de luxo da BYD (que incluem a Denza, Fangchengbao e a Yangwang) venderam 84 mil carros no mundo, um crescimento de 60% em relação ao mesmo período do ano anterior. O destaque ficou para a minivan D9 da Denza.
José Miranda, o CMO da BYD para as Américas, Europa, Oriente Médio e África, disse que a Denza quer se diferenciar das tradicionais rivais com tecnologia.
“Hoje o conceito do premium mudou: não é apenas tradição, mas tecnologia,” Miranda disse ao Brazil Journal.
Mas isso não quer dizer que Denza e BYD não bebam da água europeia. Ao contrário: a equipe de designers da montadora chinesa é liderada pelo alemão Wolfgang Egger, que já foi o head designer da Audi, Lamborghini e Alfa Romeo.
Na BYD, Egger está ajudando a construir máquinas para competir com seus antigos empregadores
O Z9 GT, por exemplo, tem 1.156 cavalos, acelera de 0 a 100 km/h em 2,7 segundos e atinge 270 km/h – números de um supercarro.
Mas o principal argumento da BYD para se diferenciar dos concorrentes está na recarga: a empresa criou a tecnologia de flash charging, que promete levar a bateria de 10% a 70% em 5 minutos, e a 97% em 9 minutos, com potência de até 1.500 kW – praticamente o tempo do abastecimento em um posto de gasolina.
Por enquanto, só os carros mais caros da BYD – ou seja, os da Denza e da Yangwang – têm acesso a essa tecnologia.
A BYD já instalou mais de 5 mil estações do flash charging na China e planeja chegar a 20 mil até 2026, além de expandir com 6 mil pontos no exterior em 12 meses, sendo 3 mil na Europa e 1 mil no Brasil.
Além disso, os carros da Denza também tentam trazer facilidades na direção.
Há modelos da marca que podem andar de lado – o chamado crab walk –, fazer manobras em espaços apertados e até entrar de frente na vaga e ajustar a traseira sozinho (veja o vídeo no Instagram do Brazil Journal, que testou essa tecnologia no circuito da montadora em Zhengzhou.)
“Não se trata de sermos melhores ou piores do que os outros, somos diferentes: uma empresa de tecnologia feita por engenheiros,” disse Miranda.
Mas o desafio da BYD é mostrar que suas marcas de luxo podem competir com as tradicionais criando desejo nos consumidores de alta renda.
Para isso, na Europa, onde a Denza estreou no ano passado, os chineses começaram a patrocinar os clubes Manchester City e Internazionale de Milão, e contrataram o ex-007 Daniel Craig como garoto-propaganda.
Além disso, a BYD lançou a Denza na Design Week de Milão, um ambiente de alto simbolismo cultural.
“Escolhemos a Design Week para tentar conectar a Denza com o real valor do design. Já o Daniel Craig foi escolhido porque queremos ligar a marca com o conceito ‘technology drives elegance’,” disse Miranda.
Por ora, a estratégia de precificação tende a ser mais agressiva.
A Denza chegou ao Brasil no fim do ano passado com o B5, um SUV híbrido off-road com cerca de 700 cavalos que na China está no portfólio da Fangchengbao, outra marca da BYD.
O B5 é vendido por aproximadamente R$ 436 mil – quase metade do preço de uma Defender, da Land Rover, que custa a partir de R$ 800 mil.
Para escalar mais rapidamente o negócio, a empresa está criando uma rede própria de concessionárias para a marca – e promete lançar três novos modelos no Brasil este ano.
“Nosso objetivo não é volume: é ser a marca mais desejada entre os consumidores de luxo no Brasil.”
Por enquanto, os números ainda são tímidos: a Denza vendeu 400 carros desde o início da operação. Segundo a BYD, isso representa 4% de market share.
Para Cássio Pagliarini, sócio da consultoria Bright, o principal desafio da Denza não está no produto – mas na natureza do mercado que ela está tentando penetrar.
Segundo ele, o jogo é outro no segmento premium: o consumidor não compra apenas desempenho, tecnologia ou preço, mas também a marca, o que pode levar décadas para ser construída.
“É muito mais fácil você entregar um produto que tenha um grande valor do que dizer que tem uma marca forte,” disse o consultor.
A Denza sabe disso, e está tentando criar essa imagem. Durante o Salão do Automóvel de Beijing, a marca apresentou o Denza Z, um supercarro que entrega cerca de 1.000 cavalos e vai de 0 a 100 km/h em menos de dois segundos – colocando-o à frente de alguns dos modelos mais velozes de marcas como a Ferrari.
Além disso, a BYD estuda a possibilidade de entrar na Fórmula 1, seja como proprietária de uma equipe ou apenas como patrocinadora – tudo para fortalecer sua imagem de tecnologia.
“Sabemos muito bem que competimos com marcas tradicionais que têm mais de 50 ou até 100 anos no segmento premium. Mas hoje já não há mais dúvidas: desempenho, inovação e tecnologia vêm da China,” disse Miranda.





