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argentinos resistem a apelo de Milei e mantêm US$ 170 bi em casa

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Bloomberg News — Ninguém imagina como as notas de dólar ficam úmidas e fedidas, diz Alejandro Lamas, quando são guardadas embaixo do colchão por anos.

Ele recebeu tantas pilhas delas dos argentinos a quem vendeu carros usados ao longo dos anos que já se tornou um espécie de expert. Tente passar uma nota falsa para ele e perceberá no primeiro toque.

É uma habilidade tão importante para ele hoje quanto era quando Lamas vendeu seu primeiro carro usado em Buenos Aires, há quatro décadas, e parece que continuará sendo num futuro próximo.

A mais recente tentativa do presidente Javier Milei de convencer os poupadores argentinos a depositarem seu dinheiro em contas em dólar está tendo dificuldades para ganhar tração, evidenciando a singular desconfiança que os cidadãos ainda têm em relação ao governo e aos bancos.

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Quase 25 anos depois de uma crise financeira que viu o governo converter à força os depósitos em dólar para pesos que rapidamente perderam 75% de seu valor, as tentativas de restaurar a confiança mal saíram do lugar. Então, quando os poupadores têm um dinheiro extra para guardar para um dia de aperto ou uma grande compra, eles compram dólares; e muitos deles os mantêm em espécie.

“Algumas pessoas ainda têm medo”, disse Lamas em seu pátio de vendas, onde um Toyota Corolla Cross praticamente novo estava anunciado por cerca de 30 mil dólares.

“Os governos aqui já fizeram todo tipo de loucura no passado. Como você poderia confiar neles?”

As autoridades estimam que cerca de US$ 170 bilhões estejam fora dos bancos. Destravar mesmo que uma fração disso, colocando o dinheiro para trabalhar no sistema financeiro formal, poderia ajudar a reanimar a segunda maior economia da América do Sul e desencadear o crescimento que Milei prometeu como recompensa por suportar duras medidas de austeridade depois de anos de gastos financiados por dívidas.

Embora Wall Street tenha abraçado Milei, recompensando sua disciplina fiscal com a compra de títulos e outros ativos, um novo conjunto de incentivos chamado Inocência Fiscal até agora não conseguiu provocar uma mudança significativa entre os poupadores. Os depósitos em dólar subiram menos de US$ 1 bilhão desde sua estreia em fevereiro.

O programa busca incentivar os argentinos a trazerem de volta ao sistema as economias não declaradas, flexibilizando as exigências de declaração e reduzindo significativamente o risco de fiscalização por parte das autoridades tributárias.

Aqueles que depositarem economias em dólar “não terão que dar explicações”, afirmou a agência tributária no início deste ano.

Demanda forte

Os argentinos compram cerca de US$ 2 bilhões em moeda estrangeira todos os meses, um número que pode saltar para mais de 6 bilhões durante períodos de estresse político, como eleições. As autoridades estimam que cerca de 10% dessas compras sejam mantidas em espécie, escondidas em casa ou em cofres particulares, ou enviadas para o exterior.

“É uma lei revolucionária, mas você não pode impor as coisas à força”, disse Milei em entrevista recente, deixando transparecer uma certa frustração.

Em resposta a perguntas, um porta-voz do Ministério da Economia citou dados que mostram que os depósitos em dólar estão em seu nível mais alto desde pelo menos 2001.

O hábito argentino de guardar dinheiro em casa é tão profundo que tem suas próprias peculiaridades locais.

As notas mais antigas de US$ 100 são chamadas de cara chica, ou cara pequena, porque trazem um retrato menor de Benjamin Franklin, em uma série que deixou de ser emitida há cerca de 30 anos.

Elas costumam ser negociadas com um pequeno deságio em relação às notas cara grande mais novas no mercado informal argentino, que acontece em esquinas, quiosques de shoppings e lojas de fundo de quintal em lugares como o distrito comercial da Calle Florida em Buenos Aires.

Lidar com esse dinheiro tornou-se algo natural para os comerciantes locais, especialmente para aqueles que vendem itens de alto valor, em que os clientes têm mais probabilidade de pagar em dólar.

“Os comerciantes argentinos sabem identificar dólares falsos melhor do que os americanos”, disse Lamas.

Muitas vezes, segundo ele, tudo se resume ao tato, passar os dedos sobre as notas para testar o papel, uma sensibilidade aprimorada por anos de manuseio de notas gastas.

“É uma habilidade que você adquire rapidamente aqui, mesmo que uma nota seja velha e desgastada, você percebe na hora.”

Colete salva-vidas financeiro

Marcelo Capobianco, açougueiro em um subúrbio operário de Buenos Aires e apoiador de Milei, diz que o dólar sempre serviu como seu colete salva-vidas financeiro, especialmente em tempos de estresse político.

“Quando a oposição começou a ganhar eleições no ano passado, foi um grande susto e todo mundo correu para comprar dólares de novo”, contou ele.

“Quando seu dinheiro perde valor, todo mundo corre para o dólar. Ninguém aqui poupa em pesos, e se você fizer isso, é game over”.

A desconfiança dos argentinos em relação aos bancos tem raízes no colapso financeiro de 2001 do país, quando o governo, desesperado para manter os dólares na economia, impôs o chamado corralito, que converteu os depósitos em dólar e limitou os saques em dinheiro.

Os anos que se seguiram trouxeram crises cambiais repetidas, picos de inflação e agitação política, reforçando o hábito de poupar fora do sistema financeiro e comprar dólares como proteção contra a desvalorização. O banco central permite que a moeda se enfraqueça gradualmente, e ela já perdeu 99% de seu valor na última década.

Ainda assim, o ministro da Economia Luis Caputo tem insistido repetidamente que as coisas são diferentes agora, conclamando os argentinos a trazerem suas economias para o sistema formal.

Ele apresenta isso como uma situação vantajosa para todos: a Argentina pode impulsionar a atividade econômica enquanto os poupadores obtêm rendimentos sobre o dinheiro que, de outra forma, ficaria parado em casa.

“Muitas pessoas guardam seu dinheiro em casa, perdendo valor, quando poderiam levá-lo ao banco”, disse ele em entrevista a uma TV local neste mês.

O medo de um retorno a um governo gastador, segundo ele, está segurando muita gente, especialmente com as eleições presidenciais se aproximando em 2027.

O estatal Banco Nación também tem se empenhado nesse esforço, recorrendo a uma dose de humor. Usando o slogan “Alivie Seu Colchão”, o banco lançou anúncios apresentando camas surradas reclamando que não conseguem dormir porque estão “recheadas” com as ansiedades de seus donos.

É verdade que a confiança no governo Milei é a mais alta para qualquer governo em décadas. Os depósitos em dólar no sistema bancário subiram para quase 40 bilhões de dólares.

“Os dólares que estão entrando pela inocência fiscal ainda vêm em conta-gotas”, disse Adrián Yarde Buller, economista-chefe da Facimex Valores.

“O potencial é enorme, dada a escala dos ativos que os argentinos mantêm fora do sistema, mas vai ser preciso mais do que esta lei para mudar o comportamento. É preciso reconstruir a confiança nas instituições, e isso leva tempo.”

Lamas diz que concorda com a mensagem do governo de que é seguro poupar dentro dos bancos. Ele deposita os lucros de seu negócio. Mas sabe que, para muitas pessoas, o trauma das cicatrizes antigas permanece.

“Já se passaram 25 anos desde o corralito e as pessoas ainda se lembram”, acrescentou Lamas. “Cinquenta anos de instabilidade fizeram os argentinos do jeito que são, vai levar mais cinquenta de governos fazendo as coisas certas para fazê-los esquecer”.

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