Se o solo brasileiro sequestra mais carbono, como transformá-lo em crédito de carbono? A Agrorobótica, uma startup brasileira incubada pela Embrapa, acredita ter a solução capaz de destravar ao menos R$ 1 bilhão em créditos ao longo das próximas duas décadas.
A tecnologia despertou a atenção da VOX Capital. A gestora de impacto acaba de investir R$ 10,8 milhões na Agrorobótica, em uma rodada desenhada para dar escala às soluções desenvolvidas pela startup ao longo dos últimos anos.
Os recursos vieram do quarto fundo de venture capital da VOX, marcando a primeira alocação deste veículo; e do corporate venture capital do Banco do Brasil, que também é tocado pela gestora de impacto.
Fundada por Fábio Angelis, um ex-Syngenta que se entusiasmou com as pesquisas da Embrapa, a Agrorobótica desenvolveu um modelo a partir da tecnologia de laser conhecida como LIBS (sigla em inglês para Espectroscopia de Avaria Induzida por Laser), a mesma utilizada pela NASA para avaliar o solo de Marte.
Com sensores proprietários e um software desenvolvido especialmente para ler a miríade de dados capturados nas análises, a Agrorobótica consegue ao mesmo tempo traçar o perfil de nutrientes e fazer a certificação do carbono estocado no solo. A análise faz parte do AGLibs, uma ferramenta de inteligência artificial desenvolvida com a Embrapa.
A área de tecnologia da startup é liderada pela física Aida Magalhães, que foi pesquisadora da Embrapa e se tornou sócia da Agrorobótica, a convite de Angelis. “Avaliamos 27 parâmetros do solo”, contou ela.
Atualmente, a tecnologia da Agrorobótica já analisa mais de 1 milhão de hectares, atendendo clientes como Amaggi e Atvos, mas a ambição é maior. “Queremos liderar o mercado de agricultura de precisão e carbono”, disse Angelis ao The AgriBiz.
Para isso, a Agrorobótica aposta na eficiência de sua tecnologia para ganhar escala. Em apenas 20 segundos, a Agrorobótica faz a análise de solo, uma vantagem em relação aos laboratórios tradicionais, que chegam a levar 20 dias para realizar uma tarefa semelhante.
A startup já teve a tecnologia de medição auditada e submeteu um projeto à Verra, maior certificadora de créditos de carbono do mundo. Em breve, a Agrorobótica estará pronta para a acelerar a geração de créditos de carbono dos solos agrícolas brasileiros.
Esse projeto funcionará como uma espécie de guarda-chuva, que poderá atender a diferentes clientes da área de grãos (incluindo a integração lavoura-pecuária) que tiveram carbono estocado no solo e validado pela tecnologia da Agrorobótica.



“A vantagem é a forma como o projeto foi construído. Uma vez validado, conseguimos escalar. Ele é um projeto agrupado. Insere o produtor dentro do projeto, faz a quantificação e solicita os créditos dele”, explicou o fundador.
Se tudo funcionar como o esperado, a Agrorobótica pode dar tração à geração de créditos de carbono estocado no solo. Entre 2005 e 2025, o mercado voluntário transacionou cerca de US$ 10 bilhões em créditos de carbono, mas menos de 3% disso veio de carbono no solo, segundo Angelis.
Ele estimou que apenas a área de soja, milho e algodão monitorada pela companhia tenha um estoque de R$ 1 bilhão de créditos de carbono, que seriam monetizados ao longo de 20 anos. A safra de carbono gera resultados a cada quatro anos.
Além do projeto de grãos e algodão, a startup vai desenvolver um programa específico para cana para submetê-lo à Verra. “Tem cliente grande com potencial de R$ 700 milhões em crédito de carbono ao longo de 20 anos”, disse Angelis.
As sinergias da VOX
Para a Vox, o investimento na Agrorobótica atende aos critérios de impacto da gestora, é claro, mas não apenas. O aporte ocorre em um momento de mercado propício para a tecnologia escalar.
Uma das frentes possíveis para isso é o Eco Invest, programa do Tesouro Nacional criado para atrair recursos para as finanças verdes. Uma das linhas está na recuperação da pastagens degradadas.
A Agrorobótica poderá atuar na medição do carbono estocado no solo, mostrando os resultados da recuperação das pastagens ao longo do tempo.
Em outra frente, a VOX pode contribuir com a Agrorobótica por meio do CCAT, fundo de capital catalítico criado pela gestora para financiar a transição da agricultura rumo a um modelo de agricultura de baixo carbono.
A tecnologia da Agrorobótica pode ajudar na verificação dos resultados desses financiamentos. Do outro lado, seria uma forma de validar a tecnologia da startup em diferentes projetos.
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A Embrapa terá direito a royalties equivalentes a 50% das propriedades intelectuais desenvolvidas em parceria com a Agrorobótica.
As receitas da startup são obtidas nas análises de solo, com cobranças feitas em reais por amostra, como num laboratório convencional, ou em reais por hectare em projetos de agricultura de precisão.
No caso dos projetos de carbono, também há uma cobrança de um percentual do crédito que será gerado.





