Bloomberg Línea — Os brasileiros gastaram quase 28% mais com viagens internacionais em março de 2026 na comparação com o mesmo mês do ano anterior. As despesas subiram de US$ 1,6 bilhão para US$ 2,0 bilhões, enquanto as receitas de turismo estrangeiro no Brasil ficaram estáveis, em US$ 0,9 bilhão.
O resultado, divulgado nesta sexta-feira (24) pelo Banco Central, elevou as despesas líquidas com viagens a US$ 1,1 bilhão — alta de 68,3% em relação a março de 2025.
O dado vem acompanhado de uma mudança relevante na forma como o próprio Banco Central calcula essas estatísticas. A autoridade monetária anunciou uma revisão metodológica extraordinária nas receitas de viagens internacionais, incorporando novas fontes de dados e uma nova metodologia de compilação.
O efeito foi uma melhora no déficit em conta corrente acumulado nos 12 meses encerrados em fevereiro: o número foi revisado de 2,71% do PIB para 2,61% do PIB.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
A revisão cobre o período de outubro de 2023 a fevereiro de 2026 e consistiu, principalmente, na reclassificação de transações que estavam registradas na Conta Financeira — na rubrica de outros investimentos, moedas e depósitos — para receitas de viagens internacionais.
Com isso, as receitas brutas de viagens foram revisadas para cima em US$ 0,1 bilhão em 2023, US$ 1,1 bilhão em 2024, US$ 2,6 bilhões em 2025 e US$ 0,9 bilhão nos dois primeiros meses de 2026. A revisão das despesas brutas foi residual, acumulando US$ 0,6 bilhão no período.
Leia também: Citi vê oportunidades para a América Latina em meio ao choque do Oriente Médio
A origem da distorção está em uma mudança na legislação cambial, segundo o Banco Central. A Lei nº 14.286, de dezembro de 2021, alterou a prestação de informações de transações realizadas por meio de contas de titulares não residentes denominadas em reais.
Com a nova regra, parte dos fluxos financeiros relativos à utilização de cartões de crédito por viajantes estrangeiros no Brasil passou a ser registrada como constituição de depósitos — e não como receita de viagens. O Banco Central identificou o problema ao cruzar informações adicionais dos contratos de câmbio com dados fornecidos diretamente por participantes do mercado de cartões.
Para a XP, o aumento das despesas líquidas na conta de viagens foi o principal determinante do resultado da conta de serviços em março, “provavelmente ainda refletindo a apreciação cambial”, segundo escreveram analistas do banco em relatório. No primeiro trimestre de 2026, essa conta se ampliou em US$ 0,7 bilhão, alta de 36% na comparação anual.
Conta corrente abaixo do esperado
O déficit em transações correntes ficou em US$ 6,0 bilhões em março de 2026, abaixo da mediana de US$ 6,3 bilhões projetada por 17 economistas consultados pela Bloomberg.
O resultado, porém, representa uma deterioração expressiva em relação ao déficit de US$ 2,9 bilhões registrado no mesmo mês de 2025.
No acumulado de 12 meses encerrados em março, o déficit somou US$ 64,3 bilhões, equivalente a 2,71% do PIB, ante US$ 61,2 bilhões (2,61% do PIB) no mês anterior.
Leia também: Durigan diz que guerra pode forçar BCs a agir: ‘os riscos vão muito além do Brasil’
A piora em relação a março de 2025 decorreu, principalmente, de três fatores, segundo o BC: redução de US$ 1,6 bilhão no superávit comercial de bens, aumento de US$ 1,1 bilhão no déficit de renda primária e alta de US$ 0,6 bilhão no déficit de serviços. O superávit em renda secundária cresceu US$ 0,2 bilhão e parcialmente compensou o movimento.
O superávit comercial de bens atingiu US$ 5,6 bilhões em março, abaixo dos US$ 7,2 bilhões de março de 2025. As exportações totalizaram US$ 31,7 bilhões, crescimento de 9,5% na comparação anual, com expansão concentrada em commodities — especialmente petróleo bruto. As importações avançaram 19,9%, para US$ 26,1 bilhões, com aumento disseminado entre as principais categorias econômicas.
O déficit na conta de serviços somou US$ 4,8 bilhões em março, ante US$ 4,2 bilhões no mesmo período de 2025. Além das viagens, contribuíram para o resultado as maiores despesas líquidas em telecomunicação, computação e informações (+27,4%, para US$ 0,9 bilhão), serviços de propriedade intelectual (+9,2%, para US$ 1,2 bilhão) e transportes (+7,5%, para US$ 1,2 bilhão). No acumulado em 12 meses, o déficit de serviços atingiu US$ 50,3 bilhões.
O déficit em renda primária somou US$ 7,4 bilhões em março, aumento de 17,8% frente aos US$ 6,3 bilhões de março de 2025. As despesas líquidas com lucros e dividendos totalizaram US$ 4,8 bilhões (+10,7%), e os pagamentos líquidos de juros chegaram a US$ 2,6 bilhões, alta de 33,5%, com preponderância das maiores despesas brutas em operações intercompanhia. No acumulado em 12 meses, o déficit de renda primária alcançou US$ 84,0 bilhões.
Os investimentos diretos no país (IDP) registraram ingressos líquidos de US$ 6,0 bilhões em março, abaixo da mediana de US$ 7,0 bilhões projetada pelos 17 economistas consultados pela Bloomberg. O resultado também ficou abaixo dos US$ 6,3 bilhões captados em março de 2025.
Os ingressos foram compostos por US$ 4,3 bilhões em participação no capital — sendo US$ 1,2 bilhão em capital próprio e US$ 3,2 bilhões em reinvestimento de lucros — e US$ 1,7 bilhão em operações intercompanhia. No acumulado de 12 meses, o IDP somou US$ 75,7 bilhões, equivalente a 3,18% do PIB.
O que dizem os analistas
Para o Itaú BBA, o déficit em conta corrente “voltou a piorar na margem”, refletindo a desaceleração do saldo comercial — “em que ainda não se observaram plenamente os efeitos positivos do aumento do preço de exportação de petróleo, mas que já estão presentes nos dados de abril”.
O banco também destacou a piora no financiamento externo, com desaceleração tanto do IDP quanto dos fluxos de portfólio, “possivelmente associada ao movimento global de aversão ao risco após o início do conflito no Oriente Médio”. Para o ano, o Itaú projeta déficit em conta corrente de US$ 66 bilhões (2,6% do PIB).
A XP avaliou que a conta corrente ficou “ligeiramente abaixo das expectativas”, com o resultado de renda primária sendo o principal fator de divergência em relação à projeção da instituição.
As remessas de lucros e dividendos, que costumam apresentar sazonalidade em março, “foram menos intensas do que o esperado”. A XP projeta déficit em conta corrente de US$ 58,0 bilhões (2,2% do PIB) em 2026, assumindo preço médio do Brent de US$ 90 por barril, e IDP de US$ 75,0 bilhões.
O Goldman Sachs classificou o resultado como um “déficit moderado em conta corrente”, com IDP “abaixo do esperado, mas fluxos de portfólio positivos”. O banco destacou que, em 12 meses, o déficit em conta corrente segue em patamar “moderado” de 2,7% do PIB, com o IDP em 3,2% do PIB.
A instituição americana acrescentou que “um ajuste fiscal profundo para reduzir a poupança negativa do setor público” segue sendo, em sua avaliação, condição essencial para viabilizar um ajuste estrutural permanente na conta corrente.
A consultoria 4intelligence ressaltou a melhora do balanço de pagamentos no primeiro trimestre como um todo: o déficit em conta corrente recuou de US$ 22,7 bilhões para US$ 20,3 bilhões entre o 1T25 e o 1T26, queda de 11%. A consultoria projeta déficit em conta corrente de US$ 54,2 bilhões para 2026, “com viés de baixa a depender das exportações de petróleo”, e IDP de US$ 70,0 bilhões.
Leia também
Inflação de alimentos volta a assombrar consumidor e pressiona Lula antes das eleições





