A deterioração das margens dos frigoríficos de carne bovina no Brasil, especialmente para os players mais concentrados no mercado doméstico, provocou um chacoalhão na estratégia da BMG, companhia que faz parte do grupo paraguaio Concepción — negócio controlado pelo empresário brasileiro Jair Lima.
Depois de crescer de maneira acelerada nos últimos cinco anos, saindo de praticamente zero para R$ 6,5 bilhões em faturamento no ano passado, a BMG pisou no freio para arrumar a casa.
Em uma medida para reduzir a necessidade de capital de giro, que se tornou o calcanhar de Aquiles com a combinação de juros altos e boi gordo mais caro, a companhia devolveu cinco frigoríficos que arrendava ou mantinha contratos de exclusividade na prestação de serviços.
Em entrevista ao The AgriBiz, o diretor financeiro da BMG, Willer Giordano, afirmou que o objetivo da reorganização é tornar as operações brasileiras mais eficientes — e menos dispendiosas —, melhorando a utilização de capacidade dos frigoríficos próprios.
Nesse processo, a empresa devolveu o abatedouro de bovinos de Juruena, em Mato Grosso e de Nioaque, em Mato Grosso do Sul. Ambos estavam arrendados.
No fim do ano passado, já havia encerrado o contrato de prestação de serviço que tinha com três frigoríficos em Rondônia: duas plantas em Ji-Paraná e uma em Rolim de Moura. A unidade de Paiçandu, no Paraná, também foi devolvida.
A BMG também vai devolver o frigorífico de Presidente Venceslau, que fica no interior de São Paulo e estava arrendado. Ao todo, serão seis plantas devolvidas.
Com isso, a operação de bovinos da BMG ficou com dois frigoríficos próprios: Vila Bela da Santíssima Trindade (MT) e Cacoal (RO), além de outras duas plantas arrendadas, em Colorado (PR) e Tarauacá (AC).
Em média, a BMG abateu 70 mil cabeças de gado por mês no ano passado e chegou a ter uma capacidade de 120 mil animais antes das devoluções — o que indicava uma ociosidade relevante. Com a redução da operação, a capacidade instalada também diminuiu. Neste ano, os abates devem ficar mais próximos de 50 mil cabeças por mês, e a empresa almeja operar com ao menos 80% de utilização.
Enquanto isso, a companhia lida com a insatisfação de pecuaristas que ainda têm valores a receber dos frigoríficos que foram devolvidos. Segundo Giordano, a situação será equacionada com o fluxo de receita das exportações dessas mesmas plantas, referentes a contratos firmados antes da devolução — cujo prazo de pagamento é mais dilatado. O compromisso é quitar os débitos com os pecuaristas em parcelas semanais até maio.
As medidas da BMG
Com a devolução dos frigoríficos, a companhia cortou o quadro de funcionários no Brasil de quase 6 mil para aproximadamente 2,5 mil. Nesse processo, a necessidade de capital de giro foi reduzida em aproximadamente 40%, de acordo com o diretor financeiro.
Com isso, a empresa alivia o custo financeiro. Quando chegou ao Brasil, a BMG contou com o funding de FIDCs para financiar o capital de giro, uma conta salgada, que custa, em média, CDI+8% ao ano.
Paralelamente, a BMG trabalha para melhorar sua bancabilidade. Com a aproximação com os bancos, a companhia passou a acessar linhas de crédito de instituições como Caixa Econômica Federal, Rabobank e Bradesco, segundo Giordano.
A intenção é continuar estreitando o relacionamento com o mercado bancário, ao mesmo tempo em que a companhia começa a testar as águas para chegar ao mercado de capitais.
Segundo o diretor financeiro, a BMG mandatou o banco de investimentos da Genial para trabalhar na emissão de um CRA, o que seria o primeiro da companhia. A ideia é ir a mercado com uma oferta de até R$ 100 milhões.
O trunfo dos suínos
Na frente operacional, as operações de carne suína parecem ser um trunfo. No Brasil, a companhia é dona de uma granja e dois abatedouros, em Iporã (PR) e Grão Pará (SC). Com uma operação verticalizada, faz margens da ordem de 18%, um esteio para compensar as margens apertadas na carne bovina.
O negócio de carne suína também está crescendo no Paraguai, sede do grupo Concepción. Por lá, a companhia vai inaugurar em 28 de abril a Incka Foods, um frigorífico com capacidade para abater 2,5 mil suínos por dia.
Entre Brasil e Paraguai, o Concepción investiu cerca de US$ 360 milhões para se estabelecer como uma produtora de carne suína. Esses recursos consumiram caixa e fizeram a alavancagem da companhia crescer, mas a expectativa é que os investimentos comecem a dar retorno, atenuando as margens mais apertadas da carne bovina.
Na operação consolidada, que agrega os negócios no Brasil, Paraguai e Bolívia, o grupo Concepción fechou o ano passado com uma dívida da ordem de US$ 800 milhões, sendo que US$ 244 milhões venciam no curto prazo.
A companhia vem trabalhando para trazer o passivo de curto prazo abaixo de US$ 100 milhões, o que inclui rolagem de dívidas e transações de sale and leaseback com bancos paraguaios.
Mesmo com as dificuldades na operação de carne bovina no Brasil, a companhia espera gerar caixa neste ano para reduzir a alavancagem (relação entre dívida líquida e Ebitda), que ficou em 3,9 vezes em 2025.
A geração de caixa é um objetivo crucial para o Concepción poder sentar à mesa com os investidores estrangeiros em 2027 com bons argumentos para negociar o alongamento da principal dívida do grupo. Em 2028, uma emissão de US$ 300 milhões em bonds vencerá.





