Os fins justificam os meios? É possível mesmo distinguir entre o bem e o mal, entre o bom e o mau comportamento, definir o que é certo e errado, sem recorrer ao direito? Como resolver um dilema entre dois valores em conflito se ambos são igualmente respeitáveis, como o do paciente adulto e lúcido que deseja abreviar seu sofrimento e o do médico que prometeu lutar por sua vida?
José Roberto de Castro Neves se digladia com estas e outras perguntas em A Pergunta Difícil – Por que precisamos falar de ética?, que acaba de sair pela Nova Fronteira. (Compre aqui)
Um dos mais prestigiados advogados do País, José Roberto já vendeu mais de 250 mil exemplares de livros sobre assuntos tão diversos quanto música, cinema, literatura e direito, claro, além de dois romances.
Agora, nos convida a um mergulho filosófico sobre um dos temas mais permanentes e difíceis da humanidade – e do País em que vivemos.
Todas as perguntas postas pelo livro são obviamente difíceis, demandando respostas que passam necessariamente pelo pensamento filosófico. Ciente deste desafio, José Roberto percorre o trajeto com um texto direto, repleto de exemplos, e que flui com surpreendente facilidade. As questões filosóficas são apresentadas de maneira que nos seja possível reconhecê-las em muitas das situações do dia a dia.
A organização do livro também ajuda. Depois de apresentar as questões éticas centrais e mostrar que debatê-las é inevitável, o texto passa a intercalar a evolução histórica das discussões e escolhas, de Adão e Eva até a modernidade, com capítulos que aprofundam cada um dos temas – sempre identificando-nos com os personagens dos dilemas e nos ajudando a refletir sobre as possíveis abordagens das questões, agora já percebidas como cotidianas.
A clareza e a despretensão do texto não escondem a complexidade das discussões. Bem ao contrário. A cada debate, a impressão de que o assunto está esgotado logo é substituída por um novo desafio que afasta certezas.
Especialmente para nós, advogados, a tentação de resolver as questões éticas com a lei é quase irresistível. Mas José Roberto resiste e desloca a reflexão para o campo a que ela pertence, o da moral e o da responsabilidade.
É claro que o Direito é informado pela ética, o que José Roberto não nega. Mas a leitura vai desvendando o porquê de um país repleto de leis e advogados como o nosso estar longe de ser um exemplo de ética.
Os seguidos escândalos e decepções no mundo corporativo e nos Três Poderes decorrem da insuficiência do direito para resolver questões que só um comportamento ético pode enfrentar.
Mas o que há de melhor no livro é a viagem entre as centenas de autores, obras de arte, peças de teatro, filmes, histórias e lendas – seus personagens principais. As teorias e hipóteses têm nome e sobrenome de quem foi protagonista ou sobre elas pensou.
É impossível terminar a leitura sem ter anotado muitas obras e autores a visitar ou rever. A Pergunta Difícil já nasce, por isso, um livro perene e necessário, daqueles a que sempre vamos recorrer em busca de outros livros, como se acompanhássemos José Roberto ao lugar em que ele é mais feliz, sua extraordinária biblioteca, para lá discutir e tentar responder a (velhas e novas) questões fundamentais.
Marcelo Trindade é advogado, professor de Direito na PUC-Rio, e foi presidente da CVM.
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