As chuvas abundantes trazidas pelo El Niño devem deixar duas heranças para a próxima safra de cana: um alto volume de cana bisada e ganhos de produtividade nos canaviais em desenvolvimento. Com isso, a moagem deve ser recorde em 2027/28, proporcionando um volume inédito de açúcar e um excedente de etanol, que terá um ano de preços baixos.
A análise é de Fábio Meneghin, sócio da Veeries, empresa de inteligência de mercado. “Estamos diante de uma supersafra no ano que vem”, disse o especialista durante um evento dedicado a clientes na semana passada, em São Paulo.
“O vigor dos canaviais é o maior dos últimos anos. Está bem acima da safra 2023/24, que foi a última grande safra, quando moemos 655 milhões de toneladas”, acrescentou, lembrando que aquela temporada também havia sido influenciada pelo El Niño.
Para 2027/28, a Veeries projeta uma moagem de 670 milhões de toneladas no Centro-Sul, um crescimento de 9% em relação ao ano anterior. Só de cana bisada, a Veeries estima o processamento de 25 milhões de toneladas, enquanto outras 30 milhões virão basicamente de ganhos de produtividade.
Em resposta à alta de 57% do açúcar VHP desde as mínimas, em abril, as usinas devem favorecer o adoçante no próximo ciclo, direcionando 49% da cana para essa finalidade, segundo Meneghin. Os volumes de produção (43,1 milhões de toneladas de açúcar) e de exportação (34,5 milhões) seriam recordes.
“O volume de exportação provavelmente será antecipado em relação ao que vimos este ano, porque as usinas estão travando muito [as vendas]. Vai ter muitos contratos a serem cumpridos e, pelo tamanho do volume, os embarques devem ser antecipados”, disse.
Pelas estimativas da Veeries, as usinas já venderam antecipadamente cerca de 37% da produção de açúcar prevista para 2027/28, bem acima do percentual de fixação da safra 2026/27 — que estava em 27% nesta mesma época do ano passado.
Virada do açúcar em 2027/28
As usinas querem aproveitar o momento antes de uma possível virada do mercado no ano que vem. As curvas dos contratos futuros na Bolsa de Nova York indicam uma queda nos preços da commodity no segundo semestre do próximo ano, antecipando um possível superávit global de açúcar em 2027/28, depois de um déficit de 5 milhões de toneladas em 2026/27.
“Os preços de março de 2027 são bons para as usinas aqui, mas eles também vão estimular a próxima safra no Hemisfério Norte. O francês tende a plantar mais beterraba. A Índia e a Tailândia também devem recuperar um pouco a produção. Podemos ter um superávit a partir de 2027/28, e o mercado já começou a precificar isso.”
As margens das usinas, que em julho deste ano chegaram a ficar perto de zero, se recuperaram nos últimos meses na esteira da alta do açúcar, chegando a R$ 26,6 por tonelada de cana em outubro — embora ainda estejam longe dos R$ 40 por tonelada da safra passada e do patamar histórico, em torno de R$ 60 por tonelada.
Para os fornecedores, a margem voltou para o terreno positivo em outubro, depois de ter ficado quatro meses no negativo.
O desafio do etanol
Mesmo com as usinas priorizando a produção de açúcar, haverá excedente de etanol na próxima safra. A produção brasileira de etanol de cana deve somar 30,6 bilhões de litros, um crescimento de 5% na comparação anual segundo a Veeries.
Além disso, pelo menos 2,5 bilhões de litros de etanol de milho serão adicionados ao quadro de oferta por sete novas usinas que entrarão em operação em 2027. Assim, a produção total de etanol no Brasil deve chegar a 46,3 bilhões de litros, um crescimento de 10%. “É muito etanol”, resumiu Meneghin.
O consumo doméstico, considerando anidro e hidratado, é estimado em 41,2 bilhões de litros — um crescimento de 6%, que não será suficiente para absorver toda a oferta. Com uma alta de 9% no consumo, o hidratado deve ganhar participação de mercado da gasolina.
“O etanol deve voltar para os 34% de market share para dar conta de todo esse volume de etanol. Ainda assim, sobram quase 3 bilhões de litros para o ano que vem”, afirmou. Nesta safra, o hidratado deve ficar com uma participação de 32,4% no consumo de combustíveis do ciclo otto.
Para retornar aos 34%, o preço do biocombustível deverá ficar muito abaixo da paridade dos 70% — o que também significa ficar abaixo do custo de produção. “Neste ano, trabalhamos muito abaixo dessa linha dos 70% e isso provavelmente vai continuar.”
A partir de maio, o preço do hidratado ficou abaixo do custo de produção da cana, de R$ 2,40 por litro, por alguns meses.
No início de agosto, quando o etanol atingiu o piso, o preço nas usinas chegou a acumular uma queda de 30% no ano. Em setembro, na esteira da recuperação do açúcar, ele ultrapassou a barreira do custo de produção, sendo negociado atualmente em torno de R$ 2,80, segundo o Cepea.
Mas, a partir de abril, com o início da nova safra, o preço do etanol deve cair rapidamente. “Veremos os preços mergulhando de novo e o hidratado ficando, inclusive, abaixo dos custos de produção durante alguns meses ao longo do próximo ano. Será um desafio muito grande para o setor sucroalcooleiro.”
A safra também será desafiadora para os produtores de etanol de milho, mas a situação é menos preocupante do que na cana, segundo Meneghin. O custo do etanol de milho pode até ficar bem próximo ou levemente acima dos preços do hidratado em alguns momentos de 2027. Mas, como o custo de produzir com milho é menor em comparação com a cana, esse período deve durar menos.
O risco, nesse caso, é uma eventual quebra da safrinha de milho elevar de forma acentuada os preços do cereal. “Essa é uma variável que deverá ser bem monitorada daqui para frente”, ponderou.





