A Baldan reformulou o portfólio de olho no futuro, mas precisou primeiro atravessar os últimos anos de crise no agro. Agora, toma fôlego para voltar a crescer.
Famosa pelos implementos agrícolas, a empresa quer explorar melhor as oportunidades em máquinas. E estende o olhar para o boom da conversão de pastagens, que requer uso intensivo da mecanização da qual é fornecedora.
“Mapeamos oportunidades de usar nossa capilaridade e nossa marca em máquinas e equipamentos mais sofisticados”, disse o CEO da Baldan, Fernando Capra, ao The AgriBiz.
Após uma revisão estratégica, a fabricante quase centenária — fez 98 anos neste ano, liderada pela quarta geração dos cinco irmãos fundadores — passou a operar via quatro verticais nos últimos anos.
Além do carro-chefe de peças de reposição, que servem também equipamentos de outros fabricantes, há agora uma frente para pulverizadores, respondendo a uma demanda imposta pelos desafios climáticos.
As outras novas verticais são para máquinas de preparo de solo e plantio, com foco em pequenos e médios produtores. Segundo ele, as frentes se complementam, e isso ajuda a atravessar momentos ruins: preparo de solo e peças vão melhor nos tempos de crise, “quando a tendência é trocar a peça em vez de comprar máquina nova”. Já o maquinário, ele espera, deve puxar o ritmo em momentos mais prósperos.
Ampliação em meio à crise
A revisão do portfólio foi acompanhada da ampliação de seu parque. A companhia abriu em 2024 sua segunda fábrica em Matão, no interior paulista. O investimento foi de R$ 200 milhões, mesclando verbas próprias e da Finep, segundo Capra.
Há ainda uma terceira unidade, em Taquaritinga (SP), dedicada a produzir mancais, os componentes mecânicos fixos que apoiam, guiam e sustentam eixos em máquinas. As fábricas abastecem dois centros de distribuição, em Matão (SP) e Maringá (PR).
Mas o investimento acabou coincidindo com o início de uma fase dura nas principais cadeias, marcada por aumento de custos, queda de preço e maior endividamento, derrubando as vendas de máquinas agrícolas. Entre 2022, quando o mercado atingiu o pico, a 2025, a queda no atacado foi de cerca de 20%, segundo dados da Anfavea. Neste ano, até setembro, a Abimaq divulgou uma queda de 21,6%.
A receita da Baldan refletiu a retração, caindo de R$ 800 milhões em 2025 para projetados R$ 600 milhões em 2026.
A “tempestade perfeita”, como o CEO define, também explica por que a participação das máquinas ainda não passa de 20% da receita. Segundo Capra, o tombo tem sido mais intenso nas máquinas pesadas, de tickets maiores, sinalizando um possível caminho nas mais leves e acessíveis.
Uma das apostas para levar as máquinas à fatia de 40% na receita, até 2030, é o Avola, um pulverizador autopropelido exposto no início do mês no GAFFFF, em São Paulo, e que tem uma versão para a cana.
Para o CEO, o setor ensaia uma recuperação. A oferta global mais apertada em algumas commodities — e a recente resposta nos preços — pode ser vista como um sinal de melhora nas margens.
A Abimaq concorda. O presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da entidade afirmou que o “fundo do poço” foi superado e que as vendas não devem cair mais, segundo reportagem publicada pela Globo Rural nesta semana.

“Dosar a tecnologia”
Diante do maior escrutínio para investimentos, a Baldan procurou “dosar a tecnologia” para “adequar a proposta de valor”. Ou seja, resolver mais problemas do agricultor cobrando menos, e atendendo distintos perfis.
“A nossa agricultura é vasta e diversa, o que nos exige segmentar para oferecer o que cada um precisa, que nem sempre é igual. Também evitamos incremento de preço em atributos que não entregam o que o produtor precisa: não adianta oferecer um produto altamente tecnológico pelo qual o cliente vai pagar 100% para usar só 50% ou 60%.”
De acordo com o CEO, a Baldan também procurou mitigar a inadimplência operando menos em vendas diretas e mais por meio de revendas, atuando com 2 mil pelo País. “Uma ou outra sofreu. Manobramos adotando cautela maior nas vendas e ajudando a reduzir estoques para não ficarem tão expostas”, diz Capra.
Ele cita ainda a diversificação da carteira, com 1,5 mil clientes ativos, além da exportação para 80 destinos que responde por quase 25% do faturamento.
O segundo maior mercado é o Paraguai, e a empresa se vê forte no “cinturão tropical”, em vizinhos da linha do Equador nas Américas, África e Ásia.
Segundo Capra, a Baldan planeja investir R$ 500 milhões nos próximos cinco a dez anos para manter um ritmo de 15 lançamentos por ano, em média. O desafio, ele diz, é conciliar competitividade e tecnologia.
“Nosso ciclo até a linha de produção é longo e intensivo, em meio a uma economia com capital caro. É focar na travessia para machucar o mínimo possível; atenuar o dano é nosso mantra do dia a dia.”
Candidata ao boom da conversão
Em busca de caminhos por onde crescer, a Baldan tem mirado a conversão de pastagens. O processo vem ganhando fôlego no País, puxado por programas privados e públicos, caso do Eco Invest. E, como lembra o CEO da empresa, é intensivo em uso de peças e equipamentos nos quais ela é especialista.
“O proprietário da terra degradada costuma ser um pecuarista que precisa transformar a área em, no mínimo, uma pastagem saudável. Isso requer agricultura e mecanização. Para nós, é um mercado que surge com potencial enorme.”
A empresa tem atuado com a Embrapa para desenvolver inovações via modelos de integração lavoura-pecuária. As instituições criaram uma Unidade de Referência Tecnológica em São Carlos (SP) e firmaram um acordo para disseminar as soluções.
“O objetivo é mostrar não só o que fazer e como, mas o ganho: seja em aumento da capacidade de animais ou da oferta de pastagem, a receita pode aumentar até 45%.”





