Um ano depois de se apresentar ao mercado como uma gestora independente, a Flying Rivers Capital atraiu um investidor âncora para seu segundo fundo, que tem meta de US$ 400 milhões, podendo chegar a US$ 500 milhões.
O Green Climate Fund (GCF), fundo multilateral voltado ao financiamento climático, aprovou na Coreia do Sul, na quarta-feira, 28 de outubro, um investimento de US$ 50 milhões no Fundo II da gestora liderada por Luciana Antonini Ribeiro.
O aporte do GCF se soma a R$ 500 milhões de investimento aprovado pelo BNDES, após a seleção da estratégia em uma chamada pública para fundos de clima. De largada, o fundo começa com cerca de 35% captado – a depender da conversão cambial. E, a partir de agora, a busca será por investidores locais e internacionais.
Para atrair os estrangeiros, a Flying Rivers desenvolveu, em conjunto com o GCF, um mecanismo que permite usar parte do retorno do organismo multilateral para compensar perdas cambiais dos investidores internacionais em caso de desvalorização acentuada do real.
A estrutura procura reduzir o risco de que o desempenho das empresas em moeda local seja corroído na conversão para o dólar. O GCF investirá em condições iguais às dos demais cotistas, mas poderá abrir mão de parte de seu retorno para oferecer essa proteção. Trata-se da primeira estrutura desse tipo aprovada pelo fundo multilateral.
“A maior barreira é o medo do investidor internacional de uma variação de câmbio”, diz Ribeiro, fundadora e CEO da Flying Rivers Capital, ao NeoFeed. “O mecanismo é extremamente diferenciado e a reação dos técnicos do board foi dizer que era um um ‘gold standard project’ que estava sendo aprovado e que será acompanhado para ser replicado em outros países, que precisam desse mesmo tipo de proteção.”
Essa proteção é parcial e depende das condições previstas na estrutura. Ainda assim, a gestora brasileira aposta que o mecanismo, combinado com a presença de dois investidores institucionais de peso – GCF e BNDES -, ajudará a ampliar o interesse por empresas brasileiras ligadas à descarbonização e à resiliência climática.
Para conseguir o aporte do fundo multilateral, a Flying Rivers venceu duas etapas. No Brasil, o projeto recebeu o aval do Ministério da Fazenda, responsável por avaliar o alinhamento das propostas às prioridades nacionais e emitir uma carta de não objeção. Em seguida, o projeto foi submetido à análise técnica e à decisão do conselho do GCF.
No caso do aporte do BNDES, a estratégia foi uma das três selecionadas para investimentos em participações entre 45 candidatos na chamada pública.
Capital para ganhar escala
O segundo fundo da Flying Rivers buscará investir em seis a dez empresas brasileiras em fase de crescimento. O foco está em negócios que já ultrapassaram o estágio normalmente atendido pelo venture capital, mas ainda não têm maturidade suficiente para acessar estruturas de financiamento de infraestrutura ou de projetos.
A estratégia se concentra em transição energética, segurança alimentar e recursos naturais. Entre os exemplos de oportunidades estão armazenamento de energia em baterias, bioinsumos, irrigação, reciclagem avançada e geração de energia a partir de resíduos.
Além de aportar recursos, a Flying Rivers quer atuar na estruturação dos negócios. Isso inclui aproximar parceiros técnicos, clientes e financiadores, organizar contratos de fornecimento e de venda da produção e criar condições para que as empresas obtenham crédito e ampliem suas operações.
Na avaliação da sócia e CEO da gestora, o interesse internacional por essas teses vai além da agenda ambiental. Energia, alimentos e recursos naturais passaram a ocupar um espaço maior nas discussões sobre soberania e segurança das cadeias de suprimento.
“A ideia é justamente mobilizar capital estrangeiro para o Brasil, especialmente pelo papel que o País tem como um motor de descarbonização”, afirma Ribeiro. “Outro ponto importante é a diversificação das cadeias de suprimento nesse momento complicado da geopolítica.”
Esse cenário, na tese da gestora, amplia a relevância do Brasil e da América Latina para investidores que buscam diversificar suas fontes de produção e abastecimento.
O movimento dos rios voadores
Desde o spin off da eB Capital, em outubro do ano passado, a Flying Rivers reuniu um grupo de advisors e parceiros operacionais em um conselho consultivo. Fazem parte Luisa Palacios, economista especializada em energia; André Clark, CEO da Viveo; Ricardo Mussa, presidente da SBCOP; Fernando Musa, ex-CEO da Braskem; Marina Cançado, fundadora da Converge Capital e Transitions; e Diogo Bassi, CEO da LDM.
O Fundo II dará continuidade às teses e estratégias desenvolvidas sob o antigo guarda-chuva, uma operação que foi desenhada para ampliar a participação de investidores estrangeiros, que já havia captado e alocado mais de R$ 1 bilhão em seis empresas.
Entre os negócios estão a Cirklo, Criada a partir da fusão das operações da Green PCR e da Global Pet em setembro do ano passado, a plataforma de reciclagem de garrafas PET.
E a Bioo, voltada à produção de biometano a partir de resíduos agroindustriais e orgânicos. A companhia entrou em operação comercial no segundo semestre de 2025, assinou na primeira quinzena de outubro o primeiro contrato de venda de certificado de biometano para um grupo europeu.





