Brasília – Dias após a virada histórica nas urnas que reelegeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a nova gestão já começa a dar sinais mais claros nos rumos da política fiscal da próxima gestão antes mesmo de virar o ano. O comportamento atende não só a diagnósticos do governo como aos pedidos dos economistas de mercado.
Há um consenso no entorno do presidente Lula, apurou o NeoFeed, de que será preciso indicar ao mercado financeiro e ao setor produtivo em geral que o governo já fará alguma mudança de rota sinalizada pelo petista ainda em 2026.
Ao contrário do adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL), que contava com apoio do mercado e alguma eventual tolerância na formulação de um ajuste fiscal, Lula já é conhecido. E não precisa esperar o início do próximo ano para fazer gestos à sociedade ou ao Congresso sobre sua condução na economia.
Em seu primeiro discurso, depois de reeleito no domingo, 25 de outubro, Lula já havia declarado que seu novo governo iria “mudar o jeito de governar esse País”. E isso é esperado também na economia, em especial por setores do mercado.
Nas primeiras horas, após a reeleição, Lula já vem demonstrando ao seu entorno político estar disposto a abrir maior diálogo com o empresariado e ainda indicar um nome forte para a equipe econômica que distensione possíveis desconfianças do setor financeiro em sua gestão econômica no quarto mandato.
Seja já indicando nomes para a equipe econômica do Lula 4 ou apontando caminhos a seguir em relação a algum ajuste fiscal cobrado na campanha eleitoral, essa tendência já começou a ser trilhada, revela um interlocutor de Lula ao NeoFeed.
“Esse aceno fiscal tem que ser feito urgentemente. As pessoas já o conhecem. Se ele toma esse caminho, o nome [do futuro ministro] importa menos”, afirmou essa fonte.
Na terça-feira, 27 de outubro, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, apontou nessa direção. Ao comentar as reações do mercado financeiro, após a grande queda das ações na Bolsa na segunda, 26 de outubro, ele prometeu que o governo enviará ao Congresso Nacional até o fim deste ano um projeto de lei para perseguir o centro da meta fiscal em 2027.
A iniciativa significa abrir espaço para maiores contingenciamentos no Orçamento de 2027 – que ainda será aprovado pelo Legislativo este ano. Sem dizer quais, Durigan também revelou que outras medidas também já estão sendo avaliadas na seara fiscal pela atual equipe econômica.
“Depois da eleição, o presidente vai definir a equipe dele. Depois, a equipe vai apresentar quais serão essas medidas em termos de ajuste, de perseguição da meta, pra mostrar que o compromisso desse governo, do presidente, é com responsabilidade fiscal, é com estabilidade fiscal”, afirmou o ministro na portaria do prédio da Fazenda.
Durigan e outros ministros atuais ainda não estão garantidos como titulares de suas pastas no Lula 4, assim como Bruno Moretti, do Planejamento. Mas podem permanecer no governo, seja auxiliando a Presidência ou em outras funções.
O economista Jeferson Bittencourt, head de macroeconomia do ASA e ex-secretário do Tesouro Nacional, é um dos que vinha defendendo um sinal claro de ajuste fiscal ainda em 2026, até o fim de dezembro. E não esperar para virar o ano para enviar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) ou projeto de lei ao longo de 2027, o que certamente poderia atrasar qualquer plano de ajuste.
“Em termos de estabilidade fiscal e solvência do País, não pode deixar para elaborar um plano de ajuste fiscal só em 2027. Não tem esse tempo. Acho que teria que dar alguma sinalização já neste ano”, afirmou Bittencourt.
Como o NeoFeed já mostrou, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), que caiu ainda mais nas graças de Lula pelo papel decisivo na campanha do segundo turno, é um cotado natural para a Pasta da Fazenda em função de sua experiência na política.
Marcado pelo carimbo da lealdade ao presidente, Alckmin foi ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e tem proximidade com empresários de São Paulo, Estado que governou por quatro vezes. E ainda seria uma das pontes que o governo tanto sinaliza para construir com o “Centrão”, especialmente lideranças da centro-direita.
Esse campo político que Lula deseja dar mais espaço é o mesmo dos presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que apoiaram Lula na campanha mirando suas reeleições ano que vem. Todos os partidos do centro político têm parlamentares governistas que apoiam Lula, por exemplo (União Brasil, PP, PSD, Republicanos e MDB).
Apesar de Lula repetir que nunca entregou o Brasil quebrado ou a economia em frangalhos, há uma preocupação entre integrantes do governo e entorno mais próximo com o quadro fiscal e consequentes cobranças por melhora de resultado pelo mercado.
A experiência na política também é uma virtude que Alckmin teria frente aos desafios geopolíticos que o Brasil seguirá tendo. Dar a ele um papel de maior destaque no governo seria um aceno frente ao clima de animosidade e interferência criado pelos Estados Unidos de Donald Trump, que ainda não reconheceu a reeleição de Lula.
Essa fonte ligada a Lula admite que o presidente já sinalizou em conversas reservadas que pretende “baixar a poeira” nesses ruídos com os americanos. A postura ainda conversa com o cenário atual em que o Brasil convive com um recente tarifaço imposto pelo governo dos EUA e pela fuga de Flávio Bolsonaro.
Outro nome que vem sendo lembrado com mais frequência nas rodas de Brasília é o do governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT). Um dos principais responsáveis pela virada de Lula nas urnas, após perder para Flávio Bolsonaro no primeiro turno, Fonteles tem inclusive as bênçãos de colegas economistas.
Nome em ascensão no PT, ele esteve com Lula não só em seu discurso da vitória em um hotel em São Paulo, mas também no ato de apoiadores na Avenida Paulista, no início da madrugada da segunda-feira, 26 de outubro.
Em face de certo encolhimento e falta de rejuvenescimento do PT nos Estados nos últimos anos alimentados pelo antipetismo e casos de corrupção que comprometeram a sigla, o Piauí vem se despontando como “case de sucesso” recente da legenda nos últimos anos. E seu governador pode ser uma figura de projeção nacional em breve, nesse sentido.
Matemático de formação e do mesmo grupo político do senador Wellington Dias, seu conterrâneo e ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, antes de ser governador, Fonteles foi secretário da Fazenda do Estado e presidiu o Comsefaz, entidade que reúne secretários estaduais da Fazenda.
Em entrevista à GloboNews, Fonteles disse que não foi convidado pelo presidente Lula ao cargo e que pretende tomar posse como governador novamente em janeiro.
Fonteles, no entanto, começa a sofrer alguma resistência dentro do próprio partido. Há dúvidas ainda sobre seu potencial de articulação com o Congresso e interface com setores da economia.
Outro complicador para sua vinda para Brasília seria sua situação política no Estado: ele foi reeleito ainda no primeiro turno com 70,9% dos votos válidos e renunciar ao cargo já no início de mandato poderia lhe trazer problemas políticos.
Há alguns casos no passado de desistência de políticos do Executivo local para assumir o Ministério da Fazenda, embora não seja comum: Ciro Gomes, que renunciou ao governo do Ceará para virar ministro no governo de Itamar Franco, em 1994; e Antônio Palocci, ex-prefeito de Ribeirão Preto, que largou o posto para comandar a Fazenda no primeiro governo de Lula, em 2003.
Ministério
Outro quadro em ascensão do partido, que ganhou força no time de Lula e também exerceu papel importante na campanha à reeleição do petista no Nordeste, o senador Camilo Santana (PT-CE) e ex-governador do Ceará, também é um dos cotados para o governo. Ele já foi ministro da Educação no Governo Lula 3 e vem sendo cogitado para retornar ao Executivo, dessa vez na Casa Civil.
O ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, porém, também é lembrado pelo entorno de Lula para a Casa Civil. Aliado de primeira hora do presidente, mesmo resistente num primeiro momento, ele topou se candidatar ao Governo de São Paulo em 2026, mas saiu derrotado pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), reeleito no primeiro turno. Não há ainda certeza se ele também voltará para o governo.
Outra composição possível seria indicar Alckmin para a Casa Civil, no caso de Lula preferir outro ministro para a Pasta da Fazenda.
O presidente reeleito também já deu fortes sinalizações que pode chamar o deputado André Janones (Rede-MG) para integrar o governo, mesmo que seja atuando diretamente na comunicação digital do governo, área que Lula já prometeu dar mais atenção em seu quarto mandato.
Janones foi o principal responsável pela estratégia que ampliou significativamente a mobilização e engajamento de eleitores e potenciais eleitores de Lula no segundo turno, com a criação do canal no WhatsApp, “Exército de Lula”.
Descartado em 2022, após também ter papel importante na campanha da volta de Lula à Presidência, agora ele vem sendo mais reconhecido pelo time do presidente e também marcou presença no reduzido grupo de políticos que acompanhou o petista no ato da Paulista.
Entre outros nomes, Alexandre Padilha pode permanecer à frente do Ministério da Saúde, após avaliação positiva de Lula.
Derrotados
E, por fim, o governo ainda avalia realocar aliados que foram derrotados nas eleições deste ano. Nessa conta política, porém, não haverá espaço para todos, conta uma fonte do entorno do presidente.
Agora, segundo essa fonte, é preciso formar uma base aliada no Congresso mais coesa, ao contrário do terceiro mandato em que alguns ministros deixaram seus cargos de parlamentares para assumir ministérios.
Renan Filho (MDB), ex-ministro dos Transportes, por exemplo, pode permanecer no Senado, exercendo alguma liderança do governo para reforçar o time de aliados diante do aumento da bancada do PL e da direita de uma forma geral na Casa, a partir de 2027.
Também ainda há dúvidas se haverá algum endereço certo para ex-ministras derrotadas nas eleições ao Senado. É o caso de Marina Silva (Rede), apesar da grande confiança de Lula em sua trajetória em seus governos. E Simone Tebet (PSB), que foi ministra do Planejamento, mas também foi crucial para que Lula aumentasse em votação em São Paulo.





