O Brasil tem uma oportunidade de ouro de ganhar protagonismo no uso de biocombustíveis no campo. Falta menos tecnologia do que no passado e a escalada dos conflitos geopolíticos mundo afora traz uma necessidade de confiança no abastecimento para produtores.
“No dia em que faltar diesel para operar, e não estamos muito longe disso, a forma como se faz para essa conta fechar vai mudar radicalmente”, disse Paulo Rocca, vice-presidente da Bosch Integrated Solutions, durante a 26ª Conferência Internacional Datagro sobre Açúcar e Álcool, em São Paulo, nesta segunda-feira.
Agradar ao consumidor e ao bolso dele não depende de uma única bala de prata, mas de uma miríade de soluções estudadas pela multinacional de origem alemã. Motores elétricos, puro etanol e misturas diesel-etanol têm sido alternativas estudadas pela empresa, com o objetivo de oferecer um leque amplo ao produtor.
Nos estudos de diesel-etanol, um dos experimentos tem sido feito em máquinas John Deere. Nelas, um segundo tanque de combustível é instalado para receber etanol e, depois de outras adaptações, ele faz com que a máquina consuma menos diesel ao longo de seu funcionamento.
“Imagina que você está colhendo e a máquina entende que ela está super leve, como se estivesse numa descida. Esse é o conceito que tem por trás. Assim, o sistema original diminui a injeção de diesel até o mínimo necessário”, exemplificou Rocca.
Biodiesel-etanol
Ampliando esse olhar, a John Deere também tem estudado junto a universidades a intersecção entre biodiesel e etanol. Segundo Felipe Dias, Gerente Global de Cana-de-Açúcar da empresa, a mistura diesel-etanol tem limites menores do que a dos dois biocombustíveis.
“O biodiesel permite uma mistura adicional de etanol. Temos estudado esse caminho como alternativa, mas ainda muito no âmbito de universidade, não de testes de campo”, ressaltou. Hoje, as máquinas a diesel da empresa estão homologadas para serem abastecidas com B100.
Um fator que pode trazer impulso para o interesse nesse tipo de tema é a entrada da regulamentação MAR-II, de controle de poluição do ar, que deve alcançar as máquinas agrícolas até 2030, com limites mais rígidos de emissões.
“O etanol atinge níveis de emissões baixíssimas, então [esse mercado] deve ser ainda mais reforçado pela regulamentação futura para máquinas agrícolas”, disse Dias.
Apesar de a nova norma ainda ter tempo para ser implementada, há empresas que estão olhando para o potencial de redução de uso de combustíveis fósseis em escala comercial desde já.
De produtor para produtor
A brasileira Grunner, fundada pela família Belei, tradicional fornecedora de cana no interior paulista, é uma delas. Criada em 2018, a empresa mantém uma parceria com a MWM para a fabricação de motores a biodiesel e etanol.
Com um know-how de customizar chassis para tornar a operação de transbordo de cana mais eficiente, a empresa lançou há um mês equipamentos movidos a etanol e biometano, lançando-se comercialmente na jornada de transição energética.
Até aqui, a empresa, com seus caminhões criados sob medida, já havia conseguido uma economia de metade do consumo de diesel de caminhões convencionais, segundo André Luiz Torquetti, vice-presidente de vendas da Grunner.
Agora, com os motores focados em biocombustíveis, o executivo apresentou outra estimativa, reforçando a aposta em retorno financeiro aliado à sustentabilidade.
Considerando a estimativa da safra atual de 673,2 milhões de toneladas de cana, Toquetti apresentou uma estimativa de uso de 5 mil colheitadeiras comuns e 10 mil transbordos (caminhões, principalmente) para transportar a cana. Isso resultaria, segundo ele, em um consumo de 420 milhões de litros de diesel.
Ao usar as máquinas da Grunner, seriam usados, em vez de 10 mil caminhões, 8,5 mil equipamentos da marca brasileira (por características próprias de capacidade) que consumiriam 13 litros por hora de etanol. Isso resultaria em um consumo de 386 milhões de litros de etanol.
Para fazer a moda pegar, defende Toquetti, é necessário pensar em crédito especializado para esse tipo de máquina.
“Mais do que a demanda para as fabricantes, o setor que pediu tanto por isso precisa fomentar linhas de crédito específicas para que a gente consiga viabilizar a adoção dessas tecnologias”, defendeu.





