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Lula lá pela quarta vez para governar um país pressionado

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Brasília – A inédita vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições de 2026 pode ter renovado seu capital político em um novo governo, mas também dará lugar, rapidamente, a uma dura ressaca matemática no Palácio do Planalto, complicada por um Congresso de perfil ainda mais conservador.

Ao conquistar seu quarto mandato, o presidente herda uma máquina pública com escassa margem de manobra: com 91,7% das despesas primárias travadas por gastos obrigatórios e a meta de entregar um superávit efetivo de R$ 18,6 bilhões em 2027, o espaço para novos investimentos é virtualmente nulo.

Para especialistas ouvidos pelo NeoFeed, a governabilidade de Lula 4 não será testada apenas na articulação política com o Congresso – mais identificado com a direita -, mas na capacidade de reequilibrar uma equação tripla e sufocante: restrição fiscal, o avanço do crime organizado sobre a economia formal e a aceleração dos impactos climáticos sobre a infraestrutura do País.

A questão fiscal ocupa o centro dessa equação. Melhorar a segurança, prevenir desastres e ampliar os investimentos exige recursos. Recuperar a capacidade de investir, por sua vez, passa por rever a qualidade do gasto e abrir espaço em um orçamento dominado por despesas obrigatórias.

O projeto de Orçamento enviado pelo governo ao Congresso prevê, para 2027, um superávit primário efetivo de R$ 18,6 bilhões, considerando todas as receitas e despesas primárias, sem os descontos permitidos na apuração da meta fiscal. Na proposta, as despesas obrigatórias representam 91,7% do total das despesas primárias. A margem para acomodar novas prioridades é estreita.

E além do mais, as urnas ainda elegeram um Legislativo federal mais inclinado à direita do que na última legislatura: apenas no Senado, o PL, partido de Flávio Bolsonaro e de sua família, conquistou 19 novas cadeiras, se tornando a partir de 2027 a maior bancada da Casa, com 28 senadores no total.

Para Felipe Salto, economista da consultoria Warren Rena, o principal desafio econômico do próximo governo é a questão fiscal. Em sua avaliação, o Brasil não enfrenta uma situação de insolvência ou uma repetição das crises de hiperinflação e dívida externa das décadas de 1980 e 1990. O problema está na qualidade do gasto e na necessidade de construir uma trajetória de recuperação das contas públicas.

“Para resolver isso, temos que ter uma melhora das expectativas e para isso é preciso ter compromisso maior com a responsabilidade fiscal. Ele existe hoje, é verdade, mas precisamos de um plano de recuperação fiscal, para sair de déficit para um superávit”, diz Salto ao NeoFeed.

O economista defende que a busca por um superávit primário — o resultado das contas antes do pagamento dos juros da dívida — não deveria ocorrer “da noite para o dia”, sob o risco de provocar uma recessão. Sua proposta é um ajuste gradual, com um plano fiscal encaminhado e aprovado pelo Congresso já em 2027.

Entre os pontos que merecem atenção, ele cita os benefícios tributários, as despesas previdenciárias e as emendas parlamentares. A discussão, em sua avaliação, precisa avançar das regras para as medidas capazes de melhorar o resultado das contas.

“É perda de tempo discutir regra fiscal. Isso é uma grande bobagem. Precisa é ajustar o arcabouço [fiscal, do governo Lula]. Nada radical”, afirma Salto.

A recuperação fiscal também deveria devolver ao Estado capacidade de planejamento e investimento, argumenta o economista. Na infraestrutura, ele vê um nível insuficiente de aplicação de recursos para preservar e ampliar os ativos do País.

“Os investimentos novos em infraestrutura hoje não repõem nem a depreciação dos ativos. Então tem que abrir espaço no orçamento para investimento público em infraestrutura”, diz Salto.

Além das contas do governo, o próximo presidente terá de lidar com as contas das famílias. Salto considera que programas de renegociação, como o Desenrola, são insuficientes para enfrentar o endividamento sem mudanças nas condições que levam os consumidores a acumular dívidas.

Ele defende juros menores, redução dos spreads bancários — a diferença entre o custo de captação dos bancos e a taxa cobrada dos clientes — e regras mais restritivas para determinadas modalidades de concessão de crédito. O desafio é evitar que a renegociação seja apenas uma etapa antes de um novo ciclo de endividamento.

Seguir o dinheiro do crime

Na segurança pública, a pressão por respostas também exigirá capacidade de coordenação. O avanço do crime organizado para diferentes atividades econômicas amplia o desafio para além do policiamento e demanda uma atuação que alcance o financiamento das organizações.

“O primeiro [desafio] é o crime organizado, que se tornou mais complexo, ampliou sua presença em diferentes setores da economia e exige uma resposta nacional mais coordenada”, afirma Melina Risso, diretora de pesquisa do Instituto Igarapé, ao NeoFeed. “Precisamos alcançar o andar de cima dessas cadeias: quem financia, quem organiza e quem se beneficia dos negócios criminosos.”

A especialista ressalta que problemas como homicídios, roubos e controle territorial por grupos criminosos permanecem, enquanto o uso do ambiente digital abre novas frentes de atuação para o crime. Essa combinação exige preparar as instituições para ameaças que mudam mais rapidamente do que a capacidade de resposta do poder público.

“Além disso, há uma transformação em curso: cada vez mais, a criminalidade utiliza o ambiente digital. Isso demanda novas capacidades dos profissionais de segurança e não estamos avançando na velocidade necessária”, diz ela.

Para Risso, o País precisa de uma política de Estado com continuidade, coordenação nacional e capacidade de acompanhar essas mudanças.

Seguir o dinheiro implica melhorar a regulação dos setores explorados por organizações criminosas, fortalecer a prevenção e o combate à lavagem de dinheiro, inclusive o Coaf, e integrar a atuação das instituições. Também exige impedir que o sistema prisional continue servindo às organizações.

Essa agenda aproxima a segurança pública da política econômica. O combate ao crime passa pela capacidade de identificar negócios usados para movimentar recursos ilícitos e alcançar os agentes que sustentam essas cadeias.

Risso defende a recriação do Ministério da Segurança Pública como uma estrutura para articular prevenção da violência, integração de dados, formação dos profissionais e uso contínuo de inteligência. A criação de uma pasta, porém, precisa vir acompanhada de condições para executar essa agenda.

“Uma pasta exclusiva pode dar mais centralidade política ao tema e fortalecer essa capacidade de coordenação. Mas o resultado depende das atribuições, dos recursos e da capacidade de implementação que ela terá. É essa capacidade que pode fazer diferença na segurança da população”, afirma.

A especialista também considera que os avanços não podem ficar condicionados somente à aprovação da PEC da Segurança, proposta enviada pelo governo Lula ao Congresso – o Senado fez uma tentativa de votar o tema nas semanas anteriores ao segundo turno das eleições, mas divergências entre governo e oposição em torno da redução da maioridade penal adiaram a discussão.

“A prioridade precisa ser melhorar a política de segurança pública e a capacidade de coordenação nacional. Não podemos tratar sua aprovação [da PEC] como uma condição para começar a avançar. Já é possível fazer muita coisa com o marco constitucional e legal que temos hoje.”

Preparar o País para o clima

A capacidade de prevenir desastres e responder a seus efeitos será outra cobrança sobre o próximo governo. As enchentes no Rio Grande do Sul, as secas na Amazônia e os incêndios no Pantanal expuseram as consequências humanas e econômicas de um País vulnerável a eventos extremos.

A preocupação aparece também nas expectativas dos eleitores. Pesquisa da Ipsos encomendada pelo Observatório do Clima mostrou que 91% dos entrevistados consideram importante que os candidatos apresentem propostas para enfrentar as mudanças climáticas.

Para 85%, a crise climática já afeta o cotidiano; 79% entendem que o combate ao problema deve ser prioridade mesmo que implique custos econômicos.

A cobrança coloca uma questão prática para o novo mandato: como transformar essa prioridade em planejamento, recursos e capacidade de execução. A adaptação envolve decisões sobre infraestrutura, ocupação do território, prevenção e resposta a emergências, com participação da União, dos estados e dos municípios.

Outra frente é a transição energética. Depois da COP30, realizada em Belém em 2025, a presidência brasileira da conferência passou a elaborar um mapa do caminho internacional para a transição para longe dos combustíveis fósseis. A iniciativa busca orientar ações concretas e identificar barreiras, riscos e condições para esse processo.

Para o próximo governo, essa agenda se soma à necessidade de preparar o País para impactos que já ocorrem. O desafio será incorporar a prevenção às escolhas de investimento e orçamento, em vez de concentrar a resposta na reconstrução depois dos desastres.

Contas públicas, segurança e clima cobrarão decisões que disputam recursos e exigem coordenação entre instituições. A vitória eleitoral dará ao presidente o mandato para fazê-las. O resultado de sua gestão dependerá das prioridades que conseguir financiar e executar.

Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima, entende que o País acertou em conceber um “Plano Clima” após discussões nos últimos três anos, mas que é complexo de implementar.

“O governo federal não tem recursos suficientes para o que está planejado, isso é reconhecido. Precisa assegurar a articulação com os governos subnacionais, notadamente nas ações relativas à adaptação. Precisa inserir a iniciativa privada nesse desafio também”, pondera ela.

“A implementação correta do Plano Clima precisa ser prioridade, e incluir também medidas mais ambiciosas no setor de energia do que as estabelecidas no plano nacional. Necessitamos ter medidas efetivas de afastamento dos combustíveis fósseis, não apenas narrativas.”

Suely defende ainda que o próximo governo mantenha o controle de desmatamento, que teve avanços no terceiro mandato do presidente Lula segundo ela, e fomente a recuperação das áreas degradadas por meio do plantio de vegetação nativa.

Para ela, o Brasil comete uma “contradição” em sua agenda do clima ao optar pela grande expansão da produção do petróleo em plena crise climática. Ela argumenta que essa expansão não é direcionada ao abastecimento interno, sendo que metade da produção nacional do combustível fóssil é exportada.

“O petróleo exportado para a China não entra na conta do Brasil, mas quando queimado contribuirá para o aquecimento global da mesma forma. Nosso país tem optado pela adição energética, no lugar da substituição, e isso merece questionamento do ponto de vista da política climática. Tomara que o governo realmente se empenhe em elaborar um Mapa do Caminho para o afastamento dos combustíveis consistente”, pondera.

“Mas o país precisa também reduzir, e logo, suas emissões no setor de transportes. Os biocombustíveis podem e devem funcionar como um caminho, mas necessitam ser asseguradas todas as salvaguardas possíveis para que erros do passado não repitam”, ressalva.

Saúde e educação

O “Todos Pela Educação” elaborou um conjunto de propostas e sugestões na área para todos os candidatos a presidente nessas eleições de 2026. Intitulado “Dois Movimentos, Uma Só Agenda”, o documento elenca quatro prioridades defendidas pela entidade para os próximos quatro anos (2027-2030): políticas docentes, com foco na formação inicial; recomposição das aprendizagens; reestruturação das avaliações nacionais de aprendizagem; e educação integral em tempo integral.

“O Brasil pode – e deve – se tornar uma referência global em educação entre países de grande escala, de renda média e marcados por alta diversidade e desigualdade. Essa é a ambição desta agenda”, diz o estudo.

O estudo aponta que, apesar de avanços recentes, sobretudo no acesso e na trajetória escolar, o País ainda enfrenta desafios estruturais, com baixos níveis de aprendizagem e desigualdades persistentes. Diante desse cenário, o documento propõe uma nova agenda para a educação básica brasileira, com políticas e foco na aprendizagem e desenvolvimento integral dos estudantes.

“O Brasil reúne hoje condições reais de dar um salto na qualidade da educação, mas isso depende das decisões e prioridades de quem estiver à frente do país. O sucesso da agenda educacional da próxima década dependerá menos da multiplicação de novas políticas e mais da capacidade do país de implementá-las com qualidade, consistência, continuidade e escala”, observou Priscila Cruz, presidente-executiva do Todos Pela Educação, antes das eleições.

O estudo propõe tanto a continuidade a políticas já bem-sucedidas, como a política nacional de alfabetização, como sugere “mudanças estruturais” em áreas que ainda limitam o avanço educacional e a adoção de inovações à altura dos desafios contemporâneos.

O documento também propõe que temas externos à escola, como a proibição do uso de redes sociais por menores de 16 anos e o enfrentamento dos impactos da crise climática nas redes de ensino, passem a integrar a agenda educacional do país.

Já na seara da saúde, os desafios da gestão do recurso público racionalmente bem empregado num país de dimensões continentais permanecem latentes, diz Ana Malik, especialista da FGV em gestão da saúde.

“O Brasil é um país muito grande e desigual. Tem lugares onde a demanda em termos de doenças infecto-contagiosas ainda é grande, já outros lugares onde oncologia e doenças cardiovasculares e respiratórias já aparecem em primeiro lugar”, disse ela ao NeoFeed, lembrando que é preciso haver uma distribuição mais racional de médicos e profissionais da saúde pelo País.

“Nada disso é feito sem dinheiro e também não podemos desperdiçar. Tem muito exame desnecessário no País. E as necessidades em saúde são praticamente infinitas. As pessoas que envelhecem demandam mais, por exemplo. Então o governo precisa usar o dinheiro de uma maneira mais inteligente. Não pode em 2027 usar o recurso de saúde como se usava em 1997, porque a população é diferente”, ressalta.

Durante a campanha, o presidente Lula prometeu incluir as canetas emagrecedoras para tratamento de obesidade no rol de atendimentos do Sistema Único de Saúde (SUS). “Se você assume que a obesidade é um problema de saúde pública, as canetas têm a sua indicação. O que não dá é pra pegar a caneta para caber no vestido de casamento”, lembra Malik.

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