O Bradesco abriu o calendário do setor bancário na temporada de balanços com o 11º trimestre consecutivo de melhora nos resultados, com novo crescimento de lucro e expansão da carteira de crédito, mas com margem e inadimplência mais pressionadas.
O lucro líquido recorrente atingiu R$ 7,109 bilhões, alta de 14,6% em relação ao mesmo período do ano passado e de apenas 0,8% ante o segundo trimestre. O resultado ficou próximo do consenso dos analistas consultados pela Bloomberg, de R$ 7,14 bilhões.
O retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE), principal indicador de rentabilidade do banco, chegou a 16,1%, recuo de 0,1 ponto percentual na comparação trimestral e alta de 1,4 ponto percentual na anual. O indicador desconsidera o aumento de capital realizado pelo banco.
Com a inadimplência em alta e um aumento das provisões, o resultado das operações com clientes após essas despesas encolheu no terceiro trimestre. A compensação em outras linhas permitiu ao banco seguir crescendo.
“O mercado de crédito está mais restrito. A taxa de juros se mantém em patamar elevado e a economia desacelera. É um cenário desafiador para todos. Vimos nossas receitas relacionadas a crédito crescerem menos, mas conseguimos compensá-las com receitas não oriundas de crédito e bom controle de despesas”, afirmou Marcelo Noronha, CEO do Bradesco, em nota.
As receitas de prestação de serviços ajudam a explicar essa compensação. Somaram R$ 10,9 bilhões, avanço de 4,2% em relação ao segundo trimestre e de 3,1% em 12 meses. O destaque foram as receitas de cartões, que alcançaram R$ 4,8 bilhões, com crescimento de 7,5% no trimestre, impulsionadas pelo segmento de alta renda e pelas coligadas.
A administração de fundos também contribuiu com receitas de R$ 1,1 bilhão, alta de 8,6% na comparação trimestral. Em consórcios, as receitas cresceram 6%, para R$ 900 milhões. Já mercado de capitais e assessoria financeira geraram aproximadamente R$ 600 milhões, avanço de 4,8% no trimestre e de 23,8% em um ano.
O movimento, porém, não foi uniforme. As receitas de conta corrente, cobrança e arrecadação recuaram 2,7% ante o segundo trimestre e 4,9% na comparação anual, para R$ 2 bilhões. O crescimento em cartões, fundos e consórcios ajudou a absorver essa perda.
Do lado das despesas, o Bradesco registrou uma queda nominal dos gastos operacionais, que recuaram 0,7% no trimestre e 1% em 12 meses, para R$ 16,3 bilhões. Dentro desse total, as despesas de pessoal e administrativas somaram R$ 13,1 bilhões, com alta de 1,8% em um ano, abaixo da inflação média de 4,41% apresentada pelo banco para o período.
A redução da estrutura física dá dimensão ao ajuste. A rede de atendimento passou de 4.744 para 3.892 pontos em um ano, uma diminuição de 852 unidades, considerando agências, unidades de negócios e postos de atendimento. Somente em relação a junho, foram 215 pontos a menos.
Com receitas totais de R$ 38 bilhões, crescimento de 8,4% na comparação anual, e despesas operacionais menores, o índice de eficiência acumulado em 12 meses caiu para 47,2%, ante 50,7% um ano antes. Quanto menor o indicador, menor a parcela das receitas consumida pela estrutura de despesas.
Essa combinação ajudou a amortecer a deterioração do resultado do crédito. A margem financeira com clientes, antes das provisões, cresceu 1,5% no trimestre e 10,1% em um ano, para R$ 20,5 bilhões. Mas a taxa média dessa margem caiu de 9,1% para 8,9% entre junho e setembro.
“A parte de crédito não teve a contribuição esperada pelo mercado, tanto que já houve uma queda na [taxa média da] margem com os clientes”, diz Danielle Lopes, analista da Suno Research.
Depois das provisões, a margem com clientes líquida dessas despesas caiu 3,5% na comparação trimestral e 2% em 12 meses, para R$ 9,9 bilhões. Ou seja, o crescimento da receita financeira com clientes não foi suficiente para acompanhar o aumento dos gastos com perdas de crédito.
A despesa expandida com provisões para créditos de liquidação duvidosa atingiu R$ 10,64 bilhões, alta de 6,6% em relação ao segundo trimestre e de 24,3% na comparação anual. O custo do crédito passou de 3,5% para 3,7% da carteira.
A inadimplência acima de 90 dias subiu de 4,3% para 4,6%, com piora em todos os segmentos. Entre pessoas físicas, passou de 5,5% para 5,8%. Nas micro, pequenas e médias empresas, avançou de 4,4% para 4,9%. Nas grandes companhias, saiu de 0,2% para 0,3%.
Para Stefan Darakdjian, CFO da Meraki Capital, a inadimplência é um sinal de preocupação para os próximos resultados, ainda que o desempenho do terceiro trimestre tenha sido razoável.
“O maior receio é que o aumento da inadimplência continue e prejudique os lucros nos próximos trimestres. Por isso, o mercado pode reduzir suas expectativas para o resultado de 2027”, afirma.
Diante desse cenário, o Bradesco manteve a cautela na concessão. A carteira de crédito expandida cresceu 1,1% no trimestre e 11,1% em um ano, para R$ 1,15 trilhão, com prioridade para operações com garantias e melhor retorno ajustado ao risco.
A seletividade aparece na composição da carteira. O financiamento de veículos cresceu 5,8% no trimestre e o consignado privado avançou 13,3%. Em contrapartida, o crédito pessoal recuou 0,9%, enquanto o saldo de cartões para clientes de rendas menores caiu 1,5%.
Outro apoio ao resultado do grupo, a operação de seguros, previdência e capitalização registrou lucro líquido de R$ 2,9 bilhões, com crescimento de 14,1% em um ano e rentabilidade sobre o patrimônio de 22%. Na comparação com o segundo trimestre, porém, o lucro recuou 1,9%.
A composição mais difícil do balanço já aparecia na prévia da Genial. A gestora esperava que tarifas e tesouraria ajudassem a sustentar o resultado diante da desaceleração da margem com clientes e da alta das provisões. O trimestre confirmou o desafio de preservar a recuperação do lucro com uma contribuição mais fraca do crédito.
Os papéis do Bradesco recuavam 2,47% no pós-mercado da Bolsa de Nova York (NYSE), cotados a US$ 3,95. Na B3, as ações preferenciais BBDC4 fecharam em queda de 2,08%, a R$ 20,22. No acumulado do ano, os papéis registram valorização de 11,16%, levando o valor de mercado da instituição a R$ 213,3 bilhões.





