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Como a farmacêutica Biomm virou o centro de uma suspeita de manipulação na B3

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Em dezembro de 2025, o NeoFeed revelou que a farmacêutica brasileira Biomm, uma das principais fornecedoras de insulina para o governo brasileiro, realizou um repentino aumento na movimentação de ações, com 1.780 operações de vendas entre abril de 2024 e novembro de 2025, alcançando volume de R$ 68,9 milhões.

À época, a empresa tinha como principal acionista o Fundo Cartago, ligado ao Banco Master, de Daniel Vorcaro. Na ocasião, ele tinha 25,86% de participação. O fundo só deixou a companhia após estourar o escândalo do Master. Sozinho, esse valor movimentado no período era 231% maior do que todo o volume negociado em 2023, antes da chegada do Master.

Um mês antes, em novembro de 2025, exatamente dez dias após a operação da Polícia Federal que resultou na prisão de Vorcaro, o NeoFeed mostrou que a Biomm tinha um “sócio-problema”, ligado ao Master, e que até aquele momento não era tão claro para o mercado financeiro.

A reportagem, à época, mostrou que a ligação do Fundo Cartago com o grupo de Vorcaro estava explícita no documento “Gerenciamento de Risco – Pilar 3”, produzido pela instituição financeira e que o NeoFeed teve acesso.

Agora, surge outra revelação que traz indícios de que houve movimentação suspeita em relação às ações da Biomm naquele período: as conversas entre Daniel Vorcaro e o empresário Flávio Carneiro, sócio do Brazil Journal, que, segundo especialistas, reforçam as suspeitas de uma tentativa de inflar as ações por meio da repercussão na imprensa.

Em apenas cinco pregões durante o mês de fevereiro de 2024, a companhia registrou um pico de valorização de quase 100% de suas ações na B3.

Entre os dias 20 de fevereiro e 26 de fevereiro de 2024, a valorização das ações da Biomm alcançou 98,12%. O papel saiu de um patamar de R$ 5,84 para R$ 11,57. Foram sete dias corridos e cinco pregões na B3 no período (de terça-feira a sexta-feira e a segunda-feira seguinte).

Isso significa que, somente neste curto espaço de tempo, a Biomm dobrou de valor de mercado. Ela saiu de R$ 740,7 milhões para R$ 1,46 bilhão. Ou seja, um ganho de R$ 726,8 milhões no valuation. Não houve, neste período, nenhum fato relevante divulgado pela empresa que trouxesse alguma informação estratégica ou projeção futura.

O pico de valorização foi registrado no fechamento do pregão do dia 21 de fevereiro daquele ano, uma quarta-feira. A ação da Biomm fechou o dia cotada a R$ 8, uma valorização de 37% sobre o valor negociado no dia anterior.

No dia 22 de fevereiro, a ação ficou estável e manteve os R$ 8. Já no dia 23 de fevereiro, o papel fechou com alta de 25,87%. No dia 26, valorizou ainda mais e encerrou o dia a R$ 11,57, alta de 14,9%.

Para se ter uma ideia deste volume, no mesmo período da alta da Biomm, o Ibovespa registrou queda de 0,24%, passando de 129.916 pontos para 129.609, segundo levantamento do NeoFeed.

Chama a atenção também o grande volume de negociação da Biomm no período, em uma ação que normalmente tem uma liquidez menor. Como base desta diferença, no dia 19 de fevereiro foram movimentadas 20,9 mil ações. Já no dia 26, foram 311,20 mil, quase 15 vezes mais.

Para o advogado Marcello Guimarães, árbitro e presidente da Swot Global Consulting, empresa especializada em perícias, laudos técnicos arbitrais e judiciais, esta súbita alta pode caracterizar um indício de manipulação de resultado, que, na visão dele, precisa ser alvo de uma apuração mais detalhada por parte da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Ele faz relação com as revelações feitas no domingo, 18 de outubro, em reportagem publicada pelo O Estado de São Paulo. O texto mostra conversas entre Daniel Vorcaro e o empresário Flávio Carneiro, sócio do Brazil Journal, que fazia intermediação, em nome do ex-banqueiro, para repassar determinações para publicações de conteúdo sobre a Biomm no veículo liderado pelo jornalista Geraldo Samor.

O publicitário Carneiro detinha a Foone Empreendimentos, uma empresa de mídia e investimentos, que adquiriu participação acionária em veículos de imprensa que ajudaram Vorcaro a ter influência no conteúdo publicado, como o PlatôBR e Brazil Journal.

Segundo a reportagem do Estadão, em 30 de janeiro de 2024, Vorcaro disse a Carneiro que tinha uma “pauta bacana” sobre a empresa, ouvindo Walfrido Mares Guia (fundador da companhia e então sócio do Cartago).

Em 20 de fevereiro daquele ano, foi publicada a reportagem “Finalmente, a insulina da BIOMM vai sair do papel” no Brazil Journal, com entrevista com Mares Guia, como solicitado. Naquele mesmo dia, Vorcaro reclamou de não ter sido avisado que a matéria sairia. “Putz, saiu Biomm e eu nem vi”, disse o ex-banqueiro. “Não deixa sair coisa nossa sem ver”, recomendou.

Dois dias depois, em 22 de fevereiro, o dono do Master seguiu reclamando com Carneiro. E foi ainda mais claro: “No da Biomm, por exemplo, eu tinha uma estratégia pra fazer em bolsa no dia que fosse sair. Saiu sem eu ver.”

Dois dias depois, ele afirmou: “Quero fazer bombar essa ação”. E complementou o raciocínio: “Essa empresa está hoje por 600 milhões, eu acho que em três anos ela vai valer 50 bi. No mínimo. Já quero puxar pra 3 bi agora só nas reportagens”.

Segundo o presidente da Swot Global Consulting, o conteúdo revelado caracteriza uma prática irregular. “Passa a ser um fato criminoso quando é feito de forma dolosa, com o claro objetivo de ganho financeiro. Isso é insuflar notícia para gerar mais compra e valorização das ações. É estranho para uma empresa que tem baixa liquidez”, diz ele.

Guimarães explica que a interferência do então sócio caracteriza o crime de manipulação do mercado de valores mobiliários, conforme o artigo 27-C da lei 6.385/1976. Se comprovada a ilegalidade, a punição é reclusão de 1 a 8 anos e multa de até três vezes o montante de vantagem ilícita obtida.

Segundo ele, a CVM tem mecanismo para identificar os beneficiários do possível crime. “Isso mereceria uma manifestação urgente da CVM, comparando a flutuação deste momento e de um período antes. É necessário um escrutínio sobre as ações”, analisa o advogado especializado em perícias, laudos arbitrais e judiciais.

“Há potencial claro do indício de crime. Com a quantidade grande de ações compradas após a reportagem, é crime de manipulação. Informação privilegiada parte da divulgação de algo para ganhar vantagem. Agora, é preciso seguir o dinheiro”, complementa.

Na mesma linha, a advogada Michelle Andrade, sócia do escritório M. Andrade e especialista em mercado de capitais, também enxerga indícios claros de manipulação de preço da ação no caso da Biomm no período de fevereiro de 2024.

“Houve uma atuação clara e articulada para movimentar o preço, e isso já deveria ser motivo de punição na esfera administrativa. Também precisa ser investigada a prática de insider trading [uso de informação privilegiada]”, afirma a especialista.

A movimentação atípica naquele momento chegou a chamar a atenção da CVM que, no dia 23 de fevereiro enviou um ofício à CVM pedindo explicações.

A companhia informou, em fato relevante à época, ter dito à autarquia que a alta poderia estar relacionada a um aumento de capital, realizado no início daquele mês. Também diz que houve comunicados de reduções e aumentos de participações de outros acionistas.

“Na visão da companhia, a divulgação dessas informações, juntamente com a homologação do aumento de capital com a subscrição e integralização do seu valor máximo, bem como o ingresso de novos acionistas podem, eventualmente, ter contribuído para uma sinalização positiva perante o mercado”, disse a Biomm, naquele comunicado.

Só que, nos dois dias seguintes à aprovação do aumento de capital, no dia 6 de fevereiro, as ações registraram queda: redução de 0,38% no dia 7 de fevereiro de 2024, e retração de 1,32% ao fim do pregão do dia 8 de fevereiro daquele ano.

Para a advogada, agora não caberia apenas um novo pedido de informações, via ofício, por parte da CVM, mas sim a instalação formal de um processo de investigação, com base principalmente nas novas informações a partir da revelação das conversas de Vorcaro. Ela cita também as resoluções 62 e 44 da CVM, que tratam de possíveis crimes de mercado e de divulgação de informações privilegiadas.

“Essa questão do Master escancarou as dificuldades de apuração por parte da CVM. Os indícios são claros de crime financeiro. Tudo bate. Mas não acredito que será aberta investigação. A CVM não é tão atuante quanto o Banco Central”, diz a advogada.

Diante deste novo fato, é preciso também se debruçar sobre o modus-operandi de Vorcaro e as valorizações de outras companhias de capital aberto que tinham o Master e seus fundos umbilicalmente ligados. É o caso de Ambipar e Oncoclínicas.

Procurada pelo NeoFeed, a Biomm afirmou que “não tinha conhecimento das entrevistas mencionadas nem da forma como foram realizadas, e o tema não foi levado ao conhecimento do conselho de administração”.

E complementou: “a respeito das oscilações atípicas registradas em 2024, a companhia esclarece que todas as informações foram devidamente prestadas à época por meio dos canais oficiais da B3 e da CVM.”

A CVM afirmou que “acompanha e analisa informações e movimentações no âmbito do mercado de valores mobiliários brasileiro, tomando as medidas cabíveis, sempre que necessário. As áreas técnicas da Autarquia não comentam casos específicos”.

O NeoFeed também procurou Flávio Carneiro via mensagem, mas ele não se posicionou. O espaço está aberto para que ele se manifeste.

No pregão de terça-feira, 20, as ações BIOM3 fecharam com valorização de 5,85%. No acumulado de 2026, os papéis registram desvalorização de 10,85%. Em 12 meses, a queda é de 34,7%. O atual valor de mercado da Biomm é de R$ 866,3 milhões.



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