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O choque de transparência de Leão XIV na instituição mais tradicional do mundo

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Roma – Todos os domingos, pontualmente ao meio-dia, o papa Leão XIV recita a oração mariana do Angelus, normalmente da janela do Palácio Apostólico, no Vaticano, onde mora. Em 11 de outubro, a tradição foi quebrada com uma surpresa.

Ao final do texto, o Santo Padre revelou aos fiéis: “Recentemente, durante alguns exames, os médicos encontraram um nódulo localizado em meu pulmão. Ele foi detectado em um estágio muito inicial e está bem delimitado. Eles consideram melhor intervir e, seguindo a orientação deles, eu decidi passar por uma cirurgia para removê-lo. A operação já está prevista para os próximos dias”.

O gesto abre uma nova perspectiva sobre a relação entre a saúde do pontífice, a transparência e a comunicação da Santa Sé. Leão XIV dirigiu-se aos fiéis para expor a própria fragilidade, transformando um assunto tradicionalmente cercado de discrição em declaração pública.

A iniciativa de o próprio papa anunciar à comunidade católica seu diagnóstico e a necessidade de cirurgia representa uma ruptura em relação a seus antecessores.

“Nunca havíamos pisado nesse terreno antes”, afirma ao NeoFeed o vaticanista Filipe Domingues, professor da Pontificia Università Gregoriana, que já acompanhou três pontificados.

Durante séculos, o Vaticano tratou as condições médicas de seus pontífices com reserva, em parte para preservar a intimidade dos líderes da Igreja, mas também em razão das implicações políticas e institucionais de uma eventual incapacidade para governar.

Sigilo, rumores e mudanças

O papa João XXIII, por exemplo, morreu de câncer no estômago em 3 de junho de 1963, cerca de nove meses após a identificação da doença. Em maio, o Vaticano havia divulgado a existência de uma alteração no órgão, mas só confirmou seu caráter maligno após o falecimento do pontífice.

Já João Paulo I morreu de forma repentina em setembro de 1978, após apenas 33 dias de pontificado. As contradições nas informações divulgadas pelo Vaticano e a ausência de autópsia alimentaram teorias de conspiração. Anos depois, investigações jornalísticas trouxeram à tona registros de problemas circulatórios e dores no peito, reforçando a hipótese de morte natural por causas cardíacas.

A situação, porém, foi diferente com João Paulo II. Depois de sobreviver a um atentado em 1981, o pontífice passou por uma recuperação acompanhada de perto pela imprensa.

Em 1992, anunciou pessoalmente, durante o Angelus, que seria internado para realizar exames, mas não revelou o diagnóstico. Três dias depois, foi submetido a uma cirurgia para retirar um tumor benigno no intestino.

Ao longo dos anos seguintes, passou por outros procedimentos médicos e apresentou sinais de piora física. Os sintomas da doença de Parkinson já eram observados e comentados publicamente antes de o Vaticano reconhecer o diagnóstico, em 2003.

Pela primeira vez, um papa anunciou aos fiéis a descoberta de um nódulo no pulmão e a necessidade de cirurgia, como fez Leão XIV no Angelus de domingo, 11 de outubro (Foto: Vatican Media)

Francisco ampliou a transparência sobre a saúde dos papas, com boletins médicos regulares durante sua internação de 38 dias em 2025 (Foto: Vatican Media)

Bento XVI renunciou em 2013 ao reconhecer que já não tinha forças para exercer o cargo, tornando explícita a relação entre os limites físicos e o governo da Igreja (Foto: Vatican Media)

João Paulo II apresentou sinais de Parkinson durante anos antes de o Vaticano confirmar o diagnóstico, em 2003 (Foto: Vatican Media)

João Paulo I morreu em 1978, após apenas 33 dias de pontificado. As contradições nos relatos do Vaticano e a ausência de autópsia alimentaram teorias de conspiração (Foto: Vatican Media)

João XXIII morreu em 1963 de câncer no estômago, cuja natureza maligna só foi confirmada pelo Vaticano após seu falecimento (Foto: Vatican Media)

Em fevereiro de 2013, Bento XVI anunciou sua renúncia, alegando que suas forças, em razão da idade avançada, já não eram suficientes para exercer adequadamente o ministério petrino. A decisão rompeu com uma longa tradição de papas que permaneciam no cargo até a morte e tornou explícita a relação entre a condição física do pontífice e a capacidade de governar a Igreja.

Francisco, por sua vez, enfrentou diferentes problemas de saúde durante o pontificado. Em 2021, passou por uma cirurgia no cólon e, em 2023, foi operado de uma hérnia abdominal.

Em fevereiro do ano passado, a Sala de Imprensa da Santa Sé anunciou sua internação no Policlínico Agostino Gemelli, em Roma, inicialmente para tratar uma bronquite, que evoluiu para uma pneumonia bilateral.

A hospitalização durou 38 dias e foi acompanhada por boletins médicos regulares. O argentino defendia que a imprensa fosse informada em primeiro lugar sobre tudo. Após sua morte, em abril de 2025, o anúncio oficial foi divulgado aos jornalistas pelo Telegram.

As incertezas sobre o ritmo do papa

Quando foi escolhido no conclave, em 8 de maio de 2025, aos 69 anos, Leão XIV tinha muita energia. Como o primeiro papa americano, ele já visitou nove países em cinco viagens apostólicas internacionais. Pratica tênis e nada em Castel Gandolfo, onde existe uma residência papal.

Seu governo ganhava força, com um estilo diplomático marcado por manifestações sobre os impactos da inteligência artificial e críticas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Recebe chefes de Estado com regularidade e fala várias línguas, o que o transforma em um embaixador natural da paz.

A doença lança uma incerteza sobre esse ritmo e põe em discussão o funcionamento da Igreja quando seu principal líder fica, ainda que por um período, impossibilitado de exercer plenamente suas funções.

Para Domingues, a situação trouxe de volta a lembrança do fim da era Francisco, marcado pela fragilidade física do argentino e pela incerteza sobre o futuro da instituição.

“Isso nos leva a refletir sobre o que acontece quando temos um líder forte e tudo depende dele. No caso de ausência de quem comanda, o restante da estrutura precisa funcionar, na medida do possível. É isso o que está acontecendo agora”, avalia o vaticanista.

A comparação com os últimos meses de Jorge Bergoglio é inevitável, segundo o analista. Leão XIV vinha demonstrando energia para cumprir uma rotina repleta de audiências, com apenas um dia de folga por semana.

Meio e mensagem

A notícia do câncer, porém, recolocou a Igreja diante de um cenário de incerteza. “É uma situação que provoca uma sensação de déjà-vu, como se estivéssemos revivendo o passado”, completa.

A principal questão, a partir de agora, é saber se o pontífice precisará de tratamento adicional. Leão XIV recebeu alta hospitalar no sábado, 17 de outubro, mas a definição dos próximos cuidados depende da avaliação médica e dos resultados de análises complementares.

Ao contrário de governos e empresas, a Igreja Católica não tem um “vice” que assuma as funções de seu líder em caso de afastamento. A Cúria Romana auxilia na condução da Igreja e na administração da Santa Sé, mas determinadas decisões precisam aguardar o retorno do pontífice.

Ainda há muitas questões em aberto, desde o ritmo de retomada das atividades até possíveis mudanças no estilo de governo de Leão XIV, ressalta Domingues: “Ele começará a tomar decisões mais rapidamente? Vai viajar menos? Terá alguma limitação de mobilidade por algum tempo? Não sabemos”.

Nesta semana, o cardeal Pietro Parolin, o número 2 do Vaticano, afirmou que ainda é cedo para prever como a doença vai afetar a agenda do Santo Padre, incluindo uma viagem para a América Latina, em novembro, ainda confirmada na agenda.

“É preciso ver quando ele voltará e o que dirão os médicos. Com base nesses elementos, ele poderá também reformular seu pontificado, se necessário”, declarou.

Se Leão XIV estiver melhor até o fim da semana, poderá recitar o próximo Angelus a partir do Gemelli, em Roma, acrescentou.

Será o momento perfeito para reafirmar a grande transformação que os fiéis estão presenciando: um papa que é o meio e a mensagem em um mundo de comunicações velozes.

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