A Conab confirmou, na manhã desta quinta-feira, o que as consultorias privadas vinham sinalizando há meses: o crescimento da área de soja no Brasil será o menor em duas décadas.
Os produtores brasileiros devem plantar 49,3 milhões de hectares com a oleaginosa, um avanço de 1,4% em comparação com a temporada anterior. É o menor percentual de expansão desde 2006/07, quando a área de soja encolheu 9% no País, de acordo com os dados históricos da Conab.
Mesmo assim, a produção deve atingir um novo recorde. A Conab estima uma colheita de 181,6 milhões de toneladas, um leve crescimento de 0,7% sustentado pela expansão do plantio no Norte e Nordeste, principalmente em Rondônia, Tocantins, Piauí e Maranhão — ironicamente estados com potencial de serem mais atingidos pelo super El Niño.
No Centro-Oeste, a Conab diz que a área deve ficar perto da estabilidade. “A cautela nas decisões de investimento e as incertezas relacionadas ao El Niño limitam novos aumentos”, disse o órgão em seu primeiro levantamento da safra 2026/27.
O filme se repete?
Em 2006/07, a última safra em que a área de plantio caiu, o Brasil passava por um período semelhante ao atual. A rentabilidade do sojicultor estava prejudicada depois de dois anos marcados por prejuízos causados por problemas climáticos e pela ferrugem asiática.
Os preços internacionais também eram considerados fracos, enquanto os custos com insumos e transportes subiam, apertando as margens do produtor. Para completar, o real estava valorizado em relação ao dólar, reduzindo a receita dos agricultores em moeda local.
Toda essa conjuntura levava a um cenário de alto endividamento no campo. Os bancos estavam mais seletivos no crédito e, mesmo com um pacote de renegociação de dívidas lançado pelo governo, muitos produtores tiveram dificuldades para financiar a atividade, resultando numa queda de área.
Neste ano, pelo menos, o setor está conseguindo se segurar, com os grupos capitalizados ocupando o espaço daqueles com maiores dificuldades financeiras.
Se o filme de 20 anos atrás se repetir, os produtores podem esperar o início de um processo de retomada. Os preços internacionais começaram a subir em 2007, abrindo caminho para uma recuperação das margens — que acabou se consolidando no ano seguinte.
Em 2007/08, a área de soja voltou a crescer (precisamente 3% naquela safra) e engatou um longo período de expansão. De lá até aqui, a menor taxa de crescimento foi de 2% e a maior, de 11%, em 2012/13. No último ciclo de euforia, entre 2020 e 2023, as taxas de crescimento ficaram entre 5% e 7%.
Milho e algodão
A forte demanda pelas indústrias de etanol está estimulando o plantio de milho na primeira safra. Segundo a Conab, a área deve crescer 11%, para 4,5 milhões de hectares. A expansão está concentrada em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Goiás e Paraná.
Para a segunda safra, a estimativa oficial é de um crescimento de 3,7%, com a área de safrinha atingindo 18,5 milhões de hectares. Vale destacar, no entanto, que essa projeção é baseada em modelos estatísticos, e que a Conab deve ajustá-la à medida que o plantio do milho segunda safra se aproxime.
Já no algodão, a Conab vê um aumento de 3,7% na área plantada, para 2,09 milhões de hectares. Segundo a agência, a expansão deve-se à boa atratividade da cultura em relação a concorrentes, como soja e milho, e à busca por uma safra de maior valor agregado diante do risco climático trazido pelo El Niño.
A SLC Agrícola, por exemplo, anunciou na semana passada a decisão de elevar o plantio de algodão em 12% — expansão viabilizada pelo aumento de suas áreas irrigadas.
De acordo com essa primeira estimativa da Conab, o Brasil deve produzir 4,16 milhões de toneladas da pluma em 2026/27, praticamente estável porque a agência espera uma redução na produtividade. Para o milho, a produção total deve atingir 148 milhões de toneladas, uma alta de 5%.





