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Em um país de crises, o conservadorismo protege a próxima safra

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Quando um produtor entra em recuperação judicial, a explicação costuma aparecer no ano ruim: seca, El Niño, preço da soja, câmbio, juros, custo do fertilizante. Tudo isso importa. Mas tudo isso também faz parte da natureza da atividade agropecuária.

O problema começa quando, no ano bom, alguém passa a tomar decisões como se aquele cenário fosse permanente. A soja vai a R$ 180 a saca. A margem explode. A terra valoriza. O arrendamento encarece. O dinheiro está barato. A confiança aumenta. Aí vem a expansão de área, a compra da fazenda vizinha, a troca de máquinas, o novo pivô, o armazém e, quase sempre, mais dívida.

Nada disso é necessariamente errado. O erro está em montar uma estrutura de capital que só se sustenta se a soja continuar cara, a produtividade continuar alta e o dinheiro continuar barato. Quando o ciclo vira, parece que a crise nasceu naquele momento. Na verdade, muitas vezes ela foi plantada dois ou três anos antes.

O último ciclo mostrou isso com clareza. Na pandemia, o Brasil viveu uma combinação extraordinária. A Selic chegou a 2% ao ano em 2020 e permaneceu nesse piso até o início de 2021. Ao mesmo tempo, os preços agrícolas começaram uma forte escalada. Era muito dinheiro barato encontrando uma atividade que apresentava margens excepcionais.

A cronologia importa. O vale dos juros foi em 2020 e 2021. As commodities continuaram subindo e o índice de preços agrícolas do Banco Mundial atingiu máxima histórica em março de 2022. Só que, quando a commodity chegou ao pico, o ciclo monetário já havia virado: a Selic estava subindo rapidamente e chegou a 13,75% em agosto daquele ano.

Muitas decisões de expansão e alavancagem foram tomadas com uma fotografia excepcionalmente favorável. Depois, as duas pontas que sustentavam aquela fotografia começaram a mudar: o preço normalizou e o custo do dinheiro disparou.

É por isso que eu tenho dificuldade em tratar o aumento das recuperações judiciais do agro como evidência de uma crise estrutural do setor. Em boa parte dos casos, estamos olhando para uma crise de balanço. Uma crise de alavancagem.

É preciso ser mais conservador

Há uma segunda dimensão nessa história que vai além do agro. Marcos Lisboa costuma chamar atenção para um dado simples e incômodo. Usando a base do Banco Mundial, ele observa que, entre 1980 e 2019, o Brasil teve 26 anos de crescimento da renda por habitante e 14 anos de queda. Nos anos ruins, a renda per capita caiu, em média, cerca de 2,6%. Quatorze crises em quarenta anos.

Segundo Lisboa, países ricos tiveram, em média, algo próximo de três episódios de queda no mesmo intervalo. O ponto não é discutir se o Brasil cresce 2%, 2,5% ou 3% em determinado ano. O ponto é a frequência com que o país interrompe ciclos de crescimento e a intensidade dessas interrupções.

Nós vivemos em uma economia volátil. E isso aparece também no preço mais importante da economia: o juro. A série diária da meta Selic do Banco Central começa em 5 de março de 1999. Quando se mede o período pelo número de dias em que cada taxa ficou vigente, o resultado chama atenção: desde então, a Selic passou cerca de 81% do tempo acima de 8% ao ano.

Mas talvez ainda mais importante do que o nível estruturalmente elevado seja a amplitude. Em 1999, na implantação do regime atual, a taxa básica de juros chegou a 45%. Em 2003, voltou a 26,5%. Anos depois caiu a 7,25%. Subiu novamente a 14,25%. Veio para 6,5%. Na pandemia, chegou a 2%. Em agosto de 2022 já estava novamente em 13,75%. Em 2025 alcançou 15% e hoje, depois dos cortes mais recentes, está em 13,75%.

Poucas empresas operam bem quando seu custo de capital pode atravessar movimentos dessa magnitude em tão pouco tempo. Por isso, uma empresa que só fecha a conta com Selic a 2% não tem um plano de negócios. Tem uma aposta.

O problema não é errar o preço da soja

Nenhum produtor sabe onde estará a soja daqui a dois anos. Nenhum economista sabe qual será a Selic daqui a quatro anos. Nenhum meteorologista consegue antecipar com precisão a chuva de uma fazenda por cinco safras. Gestão não é acertar essas variáveis. Gestão é montar o negócio para sobreviver quando você errar.

Dívida precisa ter prazo compatível com o ativo financiado. A empresa precisa carregar liquidez. O produtor precisa conhecer sua exposição a juros, câmbio e preço. Hedge não pode ser tratado apenas como uma tentativa de acertar o mercado. É instrumento de proteção de margem. Expansão precisa ser testada com preço de commodity menor, produtividade abaixo da média e juros mais altos.

Talvez a pergunta mais importante antes de comprar uma nova fazenda não seja “quanto eu ganho se tudo continuar bem?”. É “eu sobrevivo se duas ou três coisas derem errado ao mesmo tempo?”.

O produtor não controla o El Niño. Não controla Chicago. Não controla a China. Não controla o dólar e muito menos o Copom. Mas controla quanto deve, por quanto tempo deve, em que moeda deve e qual colchão de liquidez mantém para atravessar a próxima virada.

A lição das RJs

O ciclo atual tem uma utilidade: está acelerando o amadurecimento financeiro do agronegócio.

Bancos ficarão mais criteriosos. Produtores terão de acompanhar caixa e balanço com a mesma obsessão com que acompanham produtividade. Auditoria, governança, hedge, disciplina de capital, alongamento de dívida e gestão de liquidez deixarão de ser temas exclusivos de grandes companhias.

Isso é bom.

O agronegócio brasileiro continuará convivendo com seca, excesso de chuva, supersafra, quebra de safra, China comprando mais ou menos e preços subindo e descendo. Também continuará operando dentro de um país que, historicamente, alterna períodos de euforia e crises com uma frequência muito maior do que gostaríamos.

Não podemos administrar uma fazenda como se o próximo vale dos juros fosse permanente. Nem como se o próximo pico da soja tivesse vindo para ficar.

A recuperação judicial que aparece no ano ruim pode ter começado quando tudo parecia dar certo. É por isso que o produtor quebra na alta.

E talvez a principal competência de gestão no agro não seja ganhar o máximo possível no ano bom. É preservar capital e liquidez suficientes para continuar no jogo quando o ano ruim chegar.

***

Octaciano Neto é fundador da Zera e ex-secretário de Agricultura do Espírito Santo.



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