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Por que a conversão de pasto degradado está aquém da ambição

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Criado há três anos, o Programa Nacional de Recuperação de Pastagens Degradadas parece longe da meta de converter 40 milhões de hectares para a agricultura até 2035. E o principal gargalo não é a falta de recursos, segundo Beatriz Domeniconi, especialista em Agro ESG do Itaú BBA.

“O ritmo que temos visto talvez esteja aquém da capacidade dos sistemas de comportar projetos”, disse Domeniconi em entrevista ao The AgriBiz.

Uma das razões para a lentidão do programa estaria na falta de organização e coordenação da porteira para dentro, para tornar mais produtores (e de menor porte) habilitáveis aos créditos ligados à regeneração. Em outras palavras, fazer o dinheiro chegar além dos grandes negócios do agro.

“Não é somente o crédito. O sucesso depende de vários fatores. Por exemplo: se a área trará retorno após a conversão, ou se o modelo de financiamento é casado com a exigência”, diz.

Nas contas do banco, são mais de 160 milhões de hectares de pastagens degradadas no País. Desses, segundo um estudo da Embrapa, 28 milhões têm maior potencial de conversão em lavoura — a aptidão segue critérios como topografia, mecanização, índice pluviométrico e estrutura logística nos arredores.

Segundo estudo do Itaú BBA, cinco estados têm maior disponibilidade de áreas mais facilmente conversíveis: Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Pará.

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Para bater a meta do programa, seria necessário converter 4 milhões de hectares por ano, um volume muito acima da média. Nos últimos 20 anos, 26 milhões de hectares foram convertidos de pasto para lavoura, segundo o Itaú BBA — ou seja, 1,3 milhão por ano, quase um quarto da meta atual.

Sob o programa, o ritmo também vem sendo mais baixo. O Itaú BBA, por exemplo, desembolsou até aqui R$ 2 bilhões no segundo leilão do Eco Invest, uma das opções de funding para recuperação de áreas degradadas, para clientes recuperarem 260 mil hectares.

Beatriz Domeniconi, do Itaú BBA, diz que o sucesso do programa de recuperação de pastagens não depende só de crédito

A primeira operação foi com a Adecoagro, anunciada em janeiro, com R$ 100 milhões para recuperar cerca de 4 mil hectares. O montante corresponde, segundo o banco, a aproximadamente 51% do total de investimentos planejados pela empresa na área de projeto, localizada no Mato Grosso do Sul.

Depois, outras cinco operações foram anunciadas. E o banco tem dezenas de projetos sendo avaliados no pipeline.

O Itaú tem o maior número de hectares no segundo leilão do Eco Invest. Mas mesmo considerando o valor total concedido por todos os financiadores, são 1,4 milhão de hectares a serem recuperados, ao custo de R$ 30,2 bilhões. No patamar médio atual, seriam necessários mais de R$ 850 bilhões para chegar em 40 milhões de hectares.

Além disso, na falta de mais candidatos viáveis às exigências e padrões atuais, o alcance do funding tem sido restrito a grandes players. Com isso, o avanço é limitado.

“Entendemos que o Eco Invest naturalmente direciona para os maiores clientes, dadas as exigências de governança do programa. A estrutura necessária para fazer a operação parar de pé é cara. Esse talvez seja o grande desafio desse modelo.”

Uma redução de tickets, ela diz, está condicionada a uma melhora da capacidade de gestão operacional dos médios e pequenos, ou à criação de novas estruturas que permitam a produtores menores captarem em conjunto.

Lições práticas

Além da participação no Eco Invest, o Itaú BBA tem uma iniciativa própria, chamada Reverte, em parceria com a Syngenta. Lançado em 2021 com foco em recuperação e pastagens no Cerrado, o projeto mira recuperar 1 milhão de hectares até 2030.

Domeniconi relata um intenso aprendizado. O principal é a necessidade de combinar o “emprestador”, normalmente um agente financeiro, como um banco, e uma empresa com conhecimento da realidade e do público do projeto.

No modelo adotado, o risco na concessão de crédito é dividido. “Não abrimos detalhes da operação, mas é esse compartilhamento que viabiliza a escala”, diz Domeniconi. Segundo ela, outras tarefas também são divididas, como a filtragem de perfis aderentes e o monitoramento.

Na visão da especialista, algumas dessas etapas são “muito distantes” do dia a dia de um banco. “Um parceiro na ponta consegue fazer isso de forma tecnicamente melhor.”

No aspecto financeiro, Domeniconi explica a dificuldade: a conversão exige capital intensivo no início, “com um tempo de retorno relativamente grande”. Além disso, as novas áreas só rendem o potencial completo em três a cinco anos. Isso demanda produtos com prazo de até dez anos e carência de até três.

Por outro lado, ela lembra que a conversão tem efeito positivo também na valorização da terra, gerando um atrativo adicional.

Outra lição citada por Domeniconi é que é improvável que um programa de conversão de pastagens ganhe robustez sem crédito subsidiado ou incentivos públicos.

Nos Estados Unidos, por exemplo, um programa do governo vai destinar até US$ 1 bilhão, apenas em 2027, para estimular a adoção de práticas de agricultura regenerativa — entre elas, recuperações de terras degradadas — entre pequenos produtores.



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