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A alta dos rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA, que atingiram máximas em 24 anos, gerou um rally global, atraindo quase US$ 14 bilhões em fundos desde outubro. Esse movimento, que já era forte entre investidores conservadores, agora inclui gestoras multimercado e de ações, que estão ampliando suas posições em Treasuries devido à combinação de juros elevados, inflação e aversão ao risco. O título de 10 anos, considerado referência mundial, voltou a oferecer retornos reais positivos, atraindo tanto investidores domésticos quanto estrangeiros.
A demanda por Treasuries, mesmo após leilões, reflete a busca por segurança em um cenário global turbulento. No Brasil, a alta dos rendimentos pode pressionar o câmbio e aumentar os custos de financiamento, com o Citi alertando que o país é vulnerável a choques globais de juros, podendo levar a uma elevação significativa da Selic.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
A taxa Selic está em trajetória de queda no Brasil, mas ela não controla os juros dos Estados Unidos, uma das referências que determinam quanto custa financiar o País. Com os títulos do Tesouro americano oferecendo rendimentos acima de 5% ao ano em dólares, governo e empresas brasileiros enfrentam uma concorrência mais dura pelo dinheiro dos investidores.
Para convencê-los a assumir o risco Brasil, é preciso oferecer uma remuneração adicional. Esse é um obstáculo para a expectativa de que uma queda dos juros básicos brasileiros se traduza em crédito mais barato e alívio no financiamento de longo prazo.
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central define a Selic, mas as taxas cobradas para emprestar dinheiro por vários anos incorporam outros fatores, como inflação, situação fiscal e alternativas de investimento no exterior. E essas alternativas ficaram mais atraentes.
Na série do Federal Reserve, o banco central americano, o Treasury de dez anos estava em 5,24% em 9 de outubro, enquanto o de 30 anos oferecia 5,60%. Os rendimentos elevados aumentam o retorno disponível em uma das principais referências de baixo risco de crédito e liquidez do mercado mundial.
Para a dívida brasileira emitida em dólares, a relação é direta. O investidor toma como base um título americano de prazo semelhante e exige um prêmio para financiar o Brasil. Se o rendimento do Treasury sobe, uma nova captação fica mais cara mesmo que a avaliação sobre o país permaneça igual. Para compensar esse movimento, o prêmio brasileiro precisa diminuir.
Uma operação do Tesouro Nacional de fevereiro deste ano, por exemplo, mostra esse spread. O Brasil captou US$ 3,5 bilhões com um título com vencimento em 2036, oferecendo rendimento de 6,40% ao ano — 2,2 pontos percentuais acima do Treasury de referência. Na mesma operação, a dívida com vencimento em 2056 saiu a 7,30%, com prêmio de 2,45 pontos sobre o papel americano correspondente.
Além da referência americana, cada companhia paga uma remuneração adicional conforme seu risco de crédito. Uma alta na base dessa conta encarece o financiamento antes mesmo de qualquer mudança na avaliação do negócio. Afinal, um retorno elevado em dólares aumenta a exigência para aplicar em outros mercados. Isso pode pressionar o real e dificultar a queda dos juros longos brasileiros, sobretudo quando incertezas sobre as contas públicas se somam ao choque externo.
Um relatório do Citi divulgado no início de outubro coloca o Brasil entre os países latino-americanos mais vulneráveis à alta dos rendimentos dos Treasuries, ao lado de México e Colômbia. Segundo o banco, os três apresentam forte transmissão das taxas americanas para suas curvas domésticas, com efeitos sobre os custos de financiamento, o câmbio e as condições financeiras.
No caso brasileiro, o Citi aponta a combinação de sensibilidade aos juros americanos com desequilíbrios fiscais relevantes. No cenário de persistência do choque externo analisado pelo banco, a Selic poderia subir até 15,50%.
“O Brasil está à mercê dos impactos causados por taxas tão atrativas na renda fixa americana”, adverte o relatório.
A projeção mostra que o efeito pode ir além das taxas de longo prazo. Se a pressão externa enfraquecer o real e piorar as perspectivas de inflação, o espaço para reduzir os juros básicos também pode diminuir. Não é uma resposta automática à alta dos Treasuries, mas um canal adicional de pressão sobre a política monetária.
A disputa por capital já aparece no movimento dos fundos. Desde o início de outubro, investidores injetaram quase US$ 14 bilhões em fundos de títulos do governo americano, depois de entradas líquidas recordes de US$ 59,3 bilhões no terceiro trimestre, segundo cálculos do Financial Times com dados da EPFR.
Essa procura ocorre em meio à queda dos preços dos Treasuries, que eleva seus rendimentos. As taxas mais altas atraem compradores interessados em assegurar renda e, eventualmente, ganhar com uma recuperação dos papéis. A entrada de recursos, porém, não significa que o mercado inteiro esteja em valorização: os fundos podem receber dinheiro enquanto a pressão vendedora em outras partes do mercado mantém os preços em queda.
O movimento também está alcançando gestoras que tradicionalmente mantêm pouca exposição direta à dívida americana. Além de fundos conservadores e investidores institucionais, multimercados, fundos macro globais e até gestoras de ações ampliam posições diante da remuneração disponível.
“Estamos vendo uma corrida por qualidade em escala mundial”, afirma John Bell, gestor da Northstar Capital, que administra US$ 45 bilhões, citado no relatório. “Com os juros nesse nível, os Treasuries voltaram a oferecer retorno real positivo, algo raro na última década.”
Essa atratividade não elimina os riscos. Quem compra um Treasury longo pode sofrer perdas se precisar vendê-lo depois de uma nova alta das taxas. A segurança de crédito do emissor não impede oscilações expressivas no preço do título — e a remuneração contratada na compra não equivale a um ganho garantido para quem sai antes do vencimento.
A mesma distinção vale para a renda fixa brasileira. Papéis indexados à inflação protegem o poder de compra nos termos do contrato, mas os de prazo longo podem perder valor no mercado quando o juro real exigido pelos investidores aumenta. A aversão ao risco, portanto, não beneficia automaticamente esses títulos.
Para o Brasil, a disputa torna ainda mais relevante a capacidade de reduzir o prêmio cobrado pelo mercado. Uma melhora na percepção fiscal pode ajudar a compensar parte da alta americana; dúvidas sobre a trajetória da dívida pública podem fazer o contrário, somando pressão doméstica à externa.





